(MOSTRA SP) Crítica | Um Pouco de Esperança - O filme não precisa negar a escuridão para encontrar alguma luz dentro dela.

Divulgação | Imovision

• Por Alisson Santos 

Arash (Misagh Zareh), um médico iraniano que foi preso e perdeu o direito de exercer a profissão, decide tirar a própria vida. Antes disso, porém, estabelece uma espécie de última missão; visitar os familiares, organizar algumas pendências e, de maneira quase burocrática, preparar aqueles que ama para a sua ausência. A premissa poderia facilmente resultar em um drama manipulador, mas Ali Asgari prefere observar o homem em seu estado de exaustão, permitindo que a angústia apareça nos silêncios, nos gestos e na dificuldade de encontrar palavras. 

Essa escolha faz com que o filme dialogue inevitavelmente com Gosto de Cereja (1997), de Abbas Kiarostami, mas Asgari não está interessado em repetir a mesma reflexão filosófica. Seu personagem não procura simplesmente uma resposta abstrata sobre o sentido da existência; ele vive em uma sociedade na qual imaginar o futuro se tornou um exercício quase impossível. A repressão política, a crise econômica, a vigilância e o sentimento de impotência atravessam a narrativa sem que o filme precise transformá-los constantemente em discurso. A própria condição de Arash já carrega as marcas desse contexto. O que parece uma crise individual gradualmente se revela como consequência de uma realidade coletiva. 

O grande mérito de Asgari está justamente em compreender que a política pode estar presente no cotidiano sem necessariamente ocupar o centro de cada diálogo. Arash visita familiares, conversa, come, circula pela cidade e tenta resolver pequenas questões enquanto carrega consigo uma decisão definitiva. A normalidade dessas situações produz um contraste poderoso; a vida continua acontecendo ao redor de alguém que já decidiu abandoná-la. É nessa convivência entre tragédia e banalidade que o filme encontra sua força. 

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A câmera acompanha esse estado emocional com uma sobriedade coerente. Asgari evita grandes movimentos e privilegia interiores, deslocamentos de carro, conversas e rostos. Há momentos em que essa contenção se aproxima perigosamente da monotonia, e essa é talvez a principal fragilidade do longa. A economia visual nem sempre produz a mesma riqueza que existe em seu subtexto, fazendo com que algumas passagens pareçam prolongadas além do necessário. 

Zareh, por sua vez, sustenta o filme com uma atuação de impressionante contenção. Arash não é construído como um homem permanentemente devastado. Ele ainda ri, conversa e demonstra afeto. O que mudou é algo mais profundo; sua capacidade de acreditar que essas coisas podem continuar tendo significado. O ator encontra esse vazio sem recorrer ao excesso, principalmente nos momentos em que o personagem percebe que sua decisão talvez seja menos simples do que imaginava.

E é aí que o título ganha verdadeiro sentido. Um Pouco de Esperança não fala de uma redenção grandiosa nem sugere que problemas políticos e sociais possam ser resolvidos por uma epifania individual. A esperança que interessa a Asgari é pequena, cotidiana e quase imperceptível. Está na família, na amizade, na solidariedade, em uma conversa aparentemente banal, na possibilidade de ainda existir algum vínculo capaz de interromper a espiral de desesperança. O filme não precisa negar a escuridão para encontrar alguma luz dentro dela. 

Um Pouco de Esperança vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 8/10

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