Crítica | Extermínio: O Templo dos Ossos - Um epitáfio melancólico para um mundo que insiste em continuar respirando entre ruínas.
| Divulgação | Sony Pictures |
• Por Alisson Santos
Há algo de profundamente desconcertante em Extermínio: O Templo dos Ossos. Não no sentido visceral que consagrou Extermínio (2002) ou mesmo na energia nervosa que ainda pulsava no filme imediatamente anterior, mas em uma inquietação mais silenciosa, quase espiritual. Esta nova entrada da franquia abandona a urgência da sobrevivência para encarar, sem pressa e sem piedade, a permanência da morte — e, mais ainda, a intimidade que construímos com ela quando o mundo já acabou há tempo demais.
Dirigido por Nia DaCosta e escrito por Alex Garland, o filme retoma a narrativa exatamente onde havia parado, mas troca o impulso caótico por um olhar contemplativo. É uma mudança arriscada e, para alguns, frustrante. Para outros, porém, é justamente aí que O Templo dos Ossos encontra sua identidade; não como um filme de zumbis no sentido tradicional, mas como um ensaio sombrio sobre finitude, culpa e humanidade em decomposição.
O coração do filme é Ian Kelson, vivido por um Ralph Fiennes em estado de entrega absoluta. Ex-médico, eremita por escolha e arquiteto de um monumento feito literalmente de ossos humanos, Kelson vive em um espaço que é, ao mesmo tempo, santuário, túmulo e confessionário. O templo que dá nome ao filme não é apenas um cenário impactante; ele funciona como uma extensão da mente do personagem, um “memento mori” erguido pedra por pedra, fêmur por fêmur, como forma de dar sentido ao colapso do mundo.
Se no filme anterior Kelson já era a figura mais intrigante, aqui ele se torna o eixo moral e filosófico da narrativa. Sua relação com Sansão — o infectado “alfa” interpretado por Chi Lewis-Parry — é o aspecto mais provocador do longa. Sansão não é tratado como uma ameaça imediata, mas como um corpo em estado terminal, um símbolo daquilo que resta do humano quando a raiva consome tudo. Ao sedá-lo, ao observá-lo, ao criar um vínculo quase afetuoso com a criatura, Kelson subverte completamente a lógica tradicional do gênero. Não se trata de eliminar o monstro, mas de compreendê-lo.
Essa dinâmica evoca ecos claros de Frankenstein, mas também de obras como Dia dos Mortos, de George A. Romero, onde o horror nasce menos do grotesco e mais da curiosidade perturbadora diante da morte. Em O Templo dos Ossos, os infectados deixam de ser apenas objetos de medo e passam a funcionar como espelhos; representações físicas daquilo que todos inevitavelmente nos tornaremos. É um filme de zumbis que ousa olhar para seus monstros com empatia — e isso, por si só, já o torna singular.
No entanto, o longa não se sustenta apenas nessa meditação quase metafísica. Em paralelo, acompanhamos Sir Lord Jimmy Crystal (Jack O’Connell) e seu grupo de jovens assassinos satanistas, figuras que surgiram como uma provocação no epílogo do filme anterior e aqui ganham protagonismo inquietante. Eles atravessam o território infectado exterminando tudo o que encontram — zumbis e humanos — como se estivessem encenando um ritual vazio, desprovido de qualquer sentido além da própria violência.
| Divulgação | Sony Pictures |
É nesse ponto que Alex Garland parece direcionar sua crítica mais direta; os verdadeiros vilões não são os infectados, movidos por um impulso primal, mas uma juventude alienada, cínica e incapaz de elaborar o mundo devastado que herdou. A violência desses jovens não nasce do desespero, mas da ausência completa de significado. Ainda assim, essa camada do filme é a menos consistente. Apesar de cenas pontualmente eficazes — como uma invasão domiciliar que combina terror psicológico à la Violência Gratuita (1997) com brutalidade gráfica —, os membros do grupo são pouco diferenciados, funcionando mais como conceito do que como personagens plenamente realizados.
Essa fragilidade se reflete também em Spike, vivido por Alfie Williams. No filme anterior, ele era o eixo emocional da história, um jovem forçado a amadurecer em meio ao colapso. Aqui, Spike se torna mais observador do que agente, alguém que presencia horrores, mas raramente os transforma em ação. Essa escolha narrativa reforça a sensação de impotência que o filme quer transmitir, mas cobra um preço alto; a perda de um arco dramático que poderia equilibrar melhor as duas metades da narrativa.
Tecnicamente, O Templo dos Ossos é irrepreensível. A fotografia de Sean Bobbitt confere uma beleza austera às paisagens devastadas, enquanto a trilha de Hildur Guðnadóttir envolve o filme em uma melancolia solene, quase litúrgica. Tudo é mais controlado, mais polido, mais “cinematográfico”. Ao mesmo tempo, essa sofisticação evidencia o que o filme não é; ele não tem a urgência crua, a energia pulsante e o terror físico que Danny Boyle imprimia com sua câmera nervosa e sua montagem agressiva. Fora alguns sustos pontuais, este é um filme muito mais interessado em provocar reflexão do que medo.
Quando as duas narrativas finalmente convergem, o longa encontra seu momento mais potente. O clímax, embalado por “The Number of the Beast”, do Iron Maiden, é ao mesmo tempo irônico, trágico e grandioso, sintetizando o embate entre contemplação e destruição, silêncio e grito, morte aceita e morte banalizada.
Extermínio: O Templo dos Ossos não é um filme fácil, nem particularmente empolgante para quem espera ação incessante ou horror explícito. Ele é, antes de tudo, um filme paciente, filosófico e até desconfortavelmente introspectivo. Falta-lhe a inovação formal e a força bruta que marcaram os melhores momentos da franquia, mas sobra ambição temática e coragem autoral.
Ao final, o filme se impõe como uma rara meditação sobre mortalidade dentro do cinema de terror. Ao colocar lado a lado o médico que tenta entender a morte e os jovens que a tratam como espetáculo, O Templo dos Ossos sugere que o verdadeiro fim da humanidade não vem do vírus — mas da incapacidade de atribuir sentido à vida quando tudo já foi perdido. Um epitáfio melancólico para um mundo que insiste em continuar respirando entre ruínas.
O filme estreia em 15 de janeiro nos cinemas.
Avaliação - 8/10
Lançou a melhor crítica e foi dormir kkk
ResponderExcluirNão gostei muito do anterior, mas esse parece mais interessante pelo que você escreveu. Vou ver.
ResponderExcluirConcordo com vários pontos da crítica, principalmente essa ideia de que o filme troca o desespero pela contemplação. Dá pra sentir que não é um Extermínio “tradicional”, e acho que isso vai dividir mesmo o público. Eu gosto quando o terror tenta dizer algo além do susto, mas entendo quem vai achar lento ou até pretensioso.
ResponderExcluirAchei a crítica bem escrita e honesta, dá pra perceber que o filme tenta ir por um caminho bem diferente do esperado pra franquia. Com certeza vou conferir nos cinemas.
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