Crítica | O Diabo Veste Prada 2 - Elegante, afiado e surpreendentemente atual, 'O Diabo Veste Prada 2' prova que algumas histórias não envelhecem, elas evoluem junto com o mundo.

Divulgação | 20th Century Studios

• Por Alisson Santos 

Poucas continuações chegam tão tarde e, ainda assim, parecem entender exatamente o tempo em que estão inseridas quanto O Diabo Veste Prada 2. Ao revisitar um universo que marcou profundamente a cultura pop dos anos 2000, o filme não tenta simplesmente repetir fórmulas — ele as reposiciona dentro de um cenário que mudou radicalmente, tanto no mundo da moda quanto na forma como consumimos informação. E é justamente nessa consciência que reside sua maior força.

Se o primeiro longa orbitava em torno do glamour e da brutalidade silenciosa do mercado editorial, agora o conflito é mais amplo. A indústria que antes ditava tendências está em ruínas, substituída por métricas voláteis, algoritmos e influenciadores que redefinem relevância em tempo real. Nesse novo ecossistema, a icônica Miranda Priestly, vivida novamente por Meryl Streep, já não é apenas uma figura de poder — ela é um símbolo de resistência. Sua batalha deixa de ser apenas contra pessoas e passa a ser contra um sistema que ameaça apagar tudo o que ela representa.

O roteiro entende que não há retorno possível ao passado. Em vez de idealizar o que foi perdido, ele constrói uma narrativa que confronta diretamente o presente, colocando em choque dois modelos de autoridade; o da experiência, do repertório e da curadoria versus o da velocidade, do engajamento e da superficialidade. Nesse sentido, a presença de Emily Charlton, agora reinterpretada por Emily Blunt como uma executiva consolidada, funciona como um espelho distorcido da própria Miranda — alguém que aprendeu com o sistema antigo, mas prosperou no novo.

Há uma ironia elegante em como o filme articula esse embate. Ele não demoniza completamente a modernidade, tampouco santifica o passado. Em vez disso, constrói um território ambíguo, onde relevância é constantemente disputada e onde até mesmo figuras antes intocáveis precisam se adaptar ou desaparecer. É uma abordagem mais madura, menos caricatural do que a do original, e que amplia o alcance temático da obra sem perder seu caráter acessível.

A direção de David Frankel demonstra uma consciência curiosa; ele sabe que está lidando com um tipo de cinema que praticamente deixou de existir. Existe um resgate deliberado de uma leveza narrativa que era comum nos anos 2000 — filmes que equilibravam humor, drama e estética sem a necessidade de se tornarem grandiosos ou excessivamente complexos. Aqui, essa leveza retorna, mas com uma camada adicional de melancolia, como se o próprio filme soubesse que pertence a um estilo em extinção.

Divulgação | 20th Century Studios

Evidentemente, nada disso funcionaria sem o elenco. Meryl Streep continua magnética, operando em um registro que mistura frieza calculada e vulnerabilidade quase imperceptível. Sua Miranda não perdeu o controle — ela apenas aprendeu a esconder melhor o medo de se tornar irrelevante. Ao seu redor, o retorno de Anne Hathaway adiciona uma camada emocional importante, ainda que o filme opte por não repetir exatamente a dinâmica do passado. Já Stanley Tucci e Emily Blunt ganham mais espaço, contribuindo para que a narrativa não dependa exclusivamente do conflito central.

Visualmente, o longa mantém o fascínio que tornou o original tão memorável. O figurino não é apenas um desfile de marcas e tendências — ele funciona como extensão narrativa das personagens. Há uma coexistência interessante entre o clássico e o contemporâneo, refletindo exatamente o dilema temático do filme; como permanecer relevante sem abandonar sua essência. Cada escolha estética parece dialogar com essa pergunta.

Ao mesmo tempo, existe um certo prazer em como o filme se permite ser exagerado. Ele entende o valor do espetáculo, das entradas marcantes, dos diálogos afiados e das situações quase absurdas. Mas, diferente de muitas produções atuais, esse exagero nunca soa vazio — ele está sempre a serviço de um comentário maior sobre o mundo que retrata.

No fim, O Diabo Veste Prada 2 funciona menos como uma simples continuação e mais como uma atualização consciente de um universo que precisava, de fato, de tempo para amadurecer. Há algo quase simbólico nesse intervalo de duas décadas; assim como a moda, o cinema também opera em ciclos, revisitando ideias, ressignificando tendências e encontrando novas formas de se manter relevante.

O resultado é um filme que diverte, provoca e, principalmente, entende o seu lugar. Ele não tenta ser maior do que é — e talvez seja exatamente por isso que funcione tão bem. Em um cenário dominado por produções infladas e excessivamente calculadas, há algo refrescante em assistir a uma obra que simplesmente confia na força de seus personagens, no charme de sua narrativa e na inteligência de seu olhar sobre o mundo.

O Diabo Veste Prada 2 estreia em 30 de abril nos cinemas.

Avaliação - 8/10

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