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• Por Alisson Santos
Na corrida ao Oscar 2026, algo se impõe com clareza desconfortável para Hollywood; os filmes internacionais não apenas competem em pé de igualdade com as produções americanas, como as superam de forma consistente em densidade artística, urgência temática e potência emocional. Enquanto boa parte do cinema americano inscrito na disputa segue refém de fórmulas narrativas polidas, personagens funcionalmente desenhados para campanhas de premiação e uma estética que raramente arrisca o desconforto, os filmes internacionais chegam como obras que parecem existir por necessidade — e não por estratégia.
Basta observar o impacto de títulos como A Única Saída, Valor Sentimental, O Agente Secreto, A Voz de Hind Rajab, Sirât, Belén: Uma História de Injustiça, Foi Apenas um Acidente e muitos outros. São filmes que não pedem licença para existir nem se explicam demais ao espectador. Eles partem de contextos políticos, sociais e humanos específicos, mas alcançam uma universalidade que o cinema americano contemporâneo, cada vez mais autocentrado, parece ter desaprendido. Não se trata apenas de “temas importantes”, mas da forma como esses temas são incorporados à linguagem cinematográfica, recusando atalhos emocionais fáceis ou resoluções reconfortantes.
Foi Apenas um Acidente (França), de Jafar Panahi, exemplifica isso com brutalidade silenciosa. O filme não busca empatia imediata nem se estrutura como denúncia didática. Ele observa, acumula tensão e obriga o espectador a conviver com a culpa, a repressão e a memória como forças vivas. É um cinema que não quer ser consumido rapidamente, mas assimilado. O mesmo se aplica a A Voz de Hind Rajab (Tunísia), que transforma um registro real de desespero infantil em uma experiência cinematográfica devastadora, sem recorrer à exploração emocional ou ao sentimentalismo oportunista. Hollywood, quando aborda conflitos semelhantes, frequentemente os dilui em narrativas de redenção ou heroísmo individual — aqui, não há heróis, apenas humanidade exposta.
Já Belén: Uma História de Injustiça (Argentina) desmonta qualquer noção confortável de neutralidade institucional. O filme não constrói vilões caricatos nem vítimas idealizadas; ele revela um sistema que esmaga pela indiferença, pela burocracia e pela moral seletiva. É um tipo de crítica social que o cinema americano raramente se permite fazer com essa frontalidade, especialmente quando isso implica questionar estruturas jurídicas, religiosas ou culturais profundamente enraizadas. O resultado é um filme que incomoda porque não oferece catarse — apenas consciência.
Mesmo obras menos explicitamente políticas, como Valor Sentimental (Noruega) e Sirât (Espanha), demonstram uma maturidade estética e narrativa rara no cinema americano atual. Elas apostam no silêncio, na observação, na ambiguidade moral e emocional. São filmes que confiam no espectador, que não sublinham cada emoção nem organizam a narrativa em picos dramáticos previsíveis. Essa confiança contrasta com a obsessão hollywoodiana por controle absoluto da experiência, onde tudo precisa ser explicado, validado e emocionalmente guiado.
O Agente Secreto (Brasil) e A Única Saída (Coréia do Sul) também evidenciam essa diferença fundamental de abordagem. Ambos lidam com dilemas éticos, escolhas irreversíveis e consequências que não se resolvem em arcos narrativos fechados. São histórias onde o conflito não termina quando o filme acaba — ele continua reverberando. O cinema americano, por outro lado, parece cada vez mais preocupado em encerrar suas histórias de forma “satisfatória”, mesmo quando isso enfraquece o impacto e reduz a complexidade humana a uma estrutura palatável para votação.
Eu poderia citar muitos outros exemplos que estão na corrida. O Bolo do Presidente (Iraque), transforma um gesto cotidiano em comentário político silencioso, usando a simplicidade narrativa para revelar como regimes autoritários moldam até os menores rituais da vida comum. A Garota Canhota (Taiwan), parte de um conflito íntimo e aparentemente banal para discutir identidade, pertencimento e deslocamento emocional, apostando numa delicadeza que o cinema americano frequentemente confunde com falta de impacto. Já O Som da Queda (Alemanha), recusa qualquer forma de espetáculo ao lidar com trauma e memória, preferindo um cinema de atmosfera, onde o não dito pesa mais do que o acontecimento em si.
Não é por acaso que, na próxima quinta-feira, ao menos cinco desses filmes estarão entre os indicados a Melhor Filme Internacional — e possivelmente também em outras categorias. O problema é que esse reconhecimento vem acompanhado de uma limitação implícita; eles são celebrados, mas mantidos em seu “lugar”.
Muitos desses títulos mereciam disputar diretamente o prêmio máximo, o de Melhor Filme. Ainda que O Agente Secreto, Valor Sentimental e Foi Apenas um Acidente provavelmente consigam romper essa barreira simbólica e apareçam entre os dez indicados, o reconhecimento permanece tímido diante da força e da necessidade dessas obras. Estar entre os finalistas não equivale a ser tratado como centro da conversa, e a presença desses filmes tende a funcionar mais como sinal de abertura da Academia do que como uma real mudança de paradigma.
O gesto de incluí-los na categoria principal soa quase como concessão; um aceno progressista que não altera a lógica dominante da premiação. Porque, enquanto esses filmes carregam o peso de contextos históricos, traumas coletivos e escolhas estéticas arriscadas, muitos concorrentes americanos seguem ocupando espaço por tradição industrial, força de campanha e familiaridade narrativa. A disparidade não está na qualidade, mas na hierarquia invisível que ainda separa o cinema “universal” — quase sempre americano — do cinema “internacional”, como se o mundo precisasse de uma categoria própria para ser reconhecido.
O que une esses filmes internacionais não é apenas qualidade técnica ou ousadia temática, mas uma relação mais honesta com o mundo real. Eles não tratam o cinema como vitrine de prestígio nem como produto de exportação cultural, e sim como linguagem viva, capaz de confrontar, ferir e transformar. Diante disso, muitos dos concorrentes americanos ao Oscar 2026 soam artificiais, excessivamente calculados, presos a um modelo de “filme importante” que perdeu contato com a urgência do presente.
Não é exagero afirmar que, neste ano, o cinema internacional não apenas apresenta obras melhores, mas lembra à própria Academia por que o Oscar deveria existir; para reconhecer o cinema como arte, risco e reflexão, e não apenas como indústria sofisticada. Se a premiação quiser manter alguma relevância histórica e cultural, precisará olhar para esses filmes não como exceções exóticas, mas como o verdadeiro centro criativo do cinema contemporâneo.
Texto cirúrgico. Dá até um certo cansaço ver como muitos filmes americanos ainda parecem feitos pra campanha, enquanto esses internacionais ficam na cabeça por dias. Concordando ou não com tudo, é impossível ler e não repensar o que a gente anda chamando de “grande cinema”.
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