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• Por Alisson Santos
Eu descobri que existe um tipo de silêncio que não tem som.
Não é ausência de barulho. Não é paz. Não é o mundo ficando quieto.
É outra coisa.
É quando você percebe que um pedaço do que você chama de realidade simplesmente não está chegando em você — e o seu corpo tenta fingir que está tudo bem.
Eu demorei para entender isso porque, por muito tempo, eu fui o tipo de pessoa que acreditava em diagnósticos como se fossem orações. Se um médico dizia o nome de algo, eu respirava aliviado. Eu queria um nome. Um rótulo. Uma palavra que eu pudesse segurar com a mão e dizer: “Pronto, é isso.”
Meu nome é Caio. Tenho trinta e um anos. E eu perdi a audição do ouvido esquerdo numa terça-feira comum, como quem perde uma chave no sofá.
Acordei e, do lado esquerdo do mundo, tudo estava… achatado.
O ventilador fazia barulho, mas parecia distante. A rua tinha carros, mas o som vinha como se alguém tivesse colocado uma parede de vidro grosso entre mim e a vida. Eu estalei os dedos perto da orelha esquerda. Nada.
Fiz o teste do cotonete. Nada.
Fiz o teste do “tapinha” na lateral da cabeça, como se fosse uma televisão antiga. Nada.
Eu me senti ridículo. O pânico ainda não tinha chegado. Eu estava naquela fase em que a mente procura explicações bobas; deve ser cera, deve ser pressão, deve ser água do banho, deve ser uma alergia.
Só que eu não tinha tomado banho.
Peguei o celular e liguei pra minha mãe. Ela atendeu e falou alguma coisa. Eu ouvi pelo lado direito e, mesmo assim, me deu uma tristeza estranha, porque o som dela não preenchia o meu crânio inteiro. Era como ouvir uma pessoa por uma fresta.
No consultório, a médica fez exames, olhou, testou, pediu que eu repetisse palavras em diferentes volumes. Eu errei coisas óbvias. Confundi “faca” com “falta”. Confundi “mala” com “mãe”.
Ela pediu uma ressonância.
No dia do resultado, eu fui sozinho. Eu não sei por quê. Talvez porque eu sempre tive esse orgulho burro de enfrentar desgraça como se fosse prova de matemática.
O diagnóstico veio com uma frase que eu odiei:
— É raro, mas acontece.
Neuroma do acústico. Um tumor benigno, crescendo devagar, encostando nos nervos do equilíbrio e da audição. O tipo de coisa que, segundo ela, provavelmente estava ali há anos e só agora decidiu mostrar o rosto.
— A gente pode operar — disse a médica, com cuidado. — Mas você precisa entender; a audição desse lado dificilmente volta.
Ela falou “dificilmente” como quem tenta deixar uma janela aberta. Mas o olhar dela já tinha fechado a porta.
Eu saí do consultório e fiquei um tempo parado na calçada, olhando as pessoas passando. Eu via bocas se mexendo, risos, passos, motores, tudo isso existindo, mas eu estava amputado por dentro.
A coisa mais cruel de perder um sentido não é o sentido em si.
É o jeito como você se torna um observador da sua própria vida.
Nos meses seguintes, eu virei alguém que contava as coisas em metade. Metade do som. Metade da presença. Metade da coragem.
Eu trabalhava como editor de vídeo — ironia perfeita. Minha vida era cortar e colar som. Ajustar volumes. Limpar ruídos. De repente, eu era o cara que não conseguia localizar de onde vinha uma voz.
As pessoas falavam comigo e eu respondia virando a cabeça, como um animal.
Eu ria atrasado em conversas.
Eu pedia pra repetirem.
Eu fingia que entendi.
E aí veio o pior; o equilíbrio.
O tumor, mesmo benigno, mexia com o equilíbrio do corpo. Eu tropeçava em nada. Eu me levantava rápido e o mundo girava. Eu andava na rua e tinha a sensação de que o chão queria me expulsar.
No começo, eu dizia que estava tudo bem.
Depois, eu comecei a dizer que estava tudo bem com raiva.
Até que um dia, numa padaria, eu derrubei uma bandeja inteira porque alguém falou comigo do lado esquerdo e eu virei no susto, tentando “achar” a voz. A bandeja caiu, os copos estouraram, o café queimou minha mão.
Todo mundo olhou.
E eu senti aquele tipo de vergonha que dá vontade de desaparecer, mas o mundo não deixa.
Eu saí de lá tremendo.
No dia seguinte, eu aceitei a operação.
A cirurgia foi um sucesso — no sentido cirúrgico da palavra.
Tiraram o tumor. Preservaram o nervo facial. Meu rosto não caiu. Eu não virei um desses casos trágicos que aparecem em fóruns médicos com fotos e comentários.
Mas eu perdi a audição do lado esquerdo de vez.
E, por algumas semanas, eu senti um alívio.
O equilíbrio melhorou. A vertigem foi diminuindo. Eu consegui voltar a andar sem medo de cair. Eu voltei ao trabalho, adaptando o que dava, usando fones com um lado mais alto, medindo volumes com números e não com ouvido.
Eu comecei a aceitar.
Até que, dois meses depois, eu ouvi a primeira coisa.
Foi um som tão pequeno que eu quase ignorei.
Um estalo.
Como um dedo batendo na madeira.
Eu estava sozinho no apartamento. Era noite. Eu tinha acabado de desligar o computador e estava indo escovar os dentes.
O estalo veio do lado esquerdo.
O lado morto.
Eu congelei.
Meu corpo inteiro fez aquela coisa instintiva, animal, de virar o rosto para o perigo.
Eu virei e encarei o corredor escuro.
Nada.
Eu pensei: “Tá. É só o prédio. É só dilatação. É só cano. É só qualquer coisa.”
Eu fui dormir.
Na noite seguinte, aconteceu de novo.
Só que dessa vez não foi um estalo.
Foi uma palavra.
Um sussurro tão claro que parecia estar dentro do meu crânio.
— Caio.
Meu nome.
Do lado esquerdo.
Eu sentei na cama como se tivesse levado um choque.
Meu coração começou a bater tão alto que eu pensei que era outro som. Eu fiquei olhando pro quarto, tentando ver alguém, qualquer coisa.
Nada.
Eu fui até a porta. Abri. O corredor do prédio estava vazio.
Fechei.
Voltei.
E tentei racionalizar.
Eu sabia que existia algo chamado “zumbido”. Eu sabia que o cérebro, quando perde um sentido, tenta preencher o vazio. Eu sabia de pessoas que ouviam apitos, chiados, música distante.
Mas meu nome?
E com aquela pronúncia exata, aquela respiração humana?
No dia seguinte, eu marquei retorno.
A médica ouviu meu relato e fez aquela expressão que médicos fazem quando não querem assustar o paciente, mas também não querem mentir.
— É comum — ela disse. — Não é tão falado quanto deveria, mas é comum. A gente chama de alucinações auditivas por privação sensorial. O cérebro tenta completar o que perdeu.
— Eu estou ficando louco?
Ela sorriu de leve, como se tivesse ouvido a pergunta mil vezes.
— Não. Isso não é psicose. Não é delírio. É o seu cérebro tentando manter o mapa do mundo.
Ela me recomendou terapia, exercícios de reabilitação auditiva, ruído branco, coisas assim.
E eu saí de lá com o mesmo tipo de alívio que eu tinha sentido na cirurgia.
Um nome.
Um rótulo.
Uma palavra que eu pudesse segurar.
Por algumas semanas, funcionou.
Eu ouvi coisas estranhas; sinos, música antiga, um rádio distante, um coro muito baixo, como se viesse de um apartamento vizinho.
Sempre do lado esquerdo.
Sempre à noite.
E, como a médica disse, eu me acostumei.
Comecei a tratar como uma falha do sistema. Um bug.
Até que uma noite, o som não veio sozinho.
Veio acompanhado de… intenção.
Eu estava na cozinha, bebendo água, quando ouvi passos do lado esquerdo.
Passos lentos.
O problema é que meu apartamento não tinha ninguém.
E eu não ouvi os passos pelo ouvido direito, como se estivessem no ambiente.
Eu ouvi pelo ouvido morto.
Como se o som estivesse sendo tocado diretamente na parte do meu cérebro que lembrava como era ouvir.
Eu parei com o copo na mão.
Os passos pararam.
E então eu ouvi, muito perto:
— Não se vira.
Foi tão claro que eu senti um arrepio subir pelo braço.
Eu virei.
E, no instante em que virei, o som morreu.
O mundo voltou a ser metade.
Eu fiquei ali parado, olhando a cozinha vazia, com a sensação de que eu tinha feito exatamente o que não devia.
Eu comecei a dormir mal.
Eu comecei a deixar luzes acesas.
Eu comecei a falar sozinho, baixinho, tentando convencer a minha mente de que aquilo era só… cérebro.
Só preenchimento.
Só falha.
Só ruído.
Mas o ruído começou a aprender.
O primeiro padrão que eu notei foi simples:
O som sempre vinha quando eu estava sozinho.
Nunca quando eu estava com alguém.
Nunca quando eu estava no trabalho.
Nunca quando eu estava em lugares barulhentos.
Só quando eu estava no silêncio.
Como se a coisa precisasse de espaço.
O segundo padrão foi mais estranho:
O som sempre vinha de um lugar específico.
Não era só “do lado esquerdo”.
Era como se viesse de um ponto fixo no ar, a um metro e meio de mim, levemente atrás.
Como se alguém estivesse sempre parado ali.
O terceiro padrão foi o que me fez suar frio:
O som respondia.
Eu descobri isso numa noite em que eu estava tão exausto que decidi testar.
Eu sentei no sofá, apaguei as luzes e falei em voz alta:
— Tá. Se você é meu cérebro, me dá um sinal.
O silêncio durou tanto que eu quase ri de mim mesmo.
Aí veio.
— Você não devia ter tirado.
Eu engoli seco.
— Tirado o quê?
Uma pausa.
E então, com uma calma quase gentil:
— A margem.
Eu senti meu estômago virar.
— Eu tirei um tumor. Eu… eu salvei minha vida.
A voz soltou um som que parecia um riso, mas sem alegria.
— Você fechou a porta.
— Que porta?
— A que estava aberta.
Eu levantei do sofá tão rápido que quase caí.
O som desapareceu.
E eu fiquei ali, ofegante, tentando me convencer de que eu estava inventando.
Só que tinha uma coisa:
eu não conseguia inventar aquele tipo de frase.
A voz não falava como eu.
Ela não usava meu ritmo. Não usava meu vocabulário. Não tinha minhas pausas.
Era… outra.
E, aos poucos, ela começou a falar mais.
Sempre à noite.
Sempre do lado morto.
Sempre daquele ponto fixo atrás de mim.
Ela não gritava. Não ameaçava.
Ela só dizia coisas como:
— Você ainda escuta.
— Você ainda tem espaço.
— Você ainda tem margem.
E, de vez em quando, ela dizia algo que me deixava gelado:
— Eu vejo pelo seu silêncio.
Eu tentei ignorar.
Eu tentei dormir com ruído branco.
Eu tentei música.
Eu tentei dormir com a TV ligada.
A voz esperava.
Ela era paciente.
E, quando eu desligava, ela voltava.
E começou a fazer outra coisa:
ela começou a imitar pessoas.
Uma noite, eu ouvi minha mãe me chamando do lado esquerdo.
— Caio, vem aqui.
A voz dela, perfeita.
Eu senti o peito apertar.
— Mãe?
— Vem aqui.
Eu levantei, sem pensar, indo até o corredor.
E, no meio do caminho, eu percebi que era impossível.
Minha mãe morava em outra cidade.
Eu parei.
E a voz mudou.
Virou aquela voz original, sem rosto.
— Você acreditou.
Eu senti as pernas falharem.
— Para com isso.
— Você precisa acreditar.
— Eu não preciso de nada. Você não é real.
O silêncio durou um segundo.
E então ela disse, com uma doçura repulsiva:
— Você me fez real quando abriu espaço.
Na manhã seguinte, eu fui ao médico de novo.
Dessa vez, eu não fui com vergonha.
Eu fui com raiva.
Eu contei tudo. A voz. As frases. As imitações.
A médica pediu novos exames.
Tudo normal.
Ela me recomendou um psiquiatra.
Eu fui.
O psiquiatra me ouviu com aquela calma treinada. Me fez perguntas. Testou meu humor, meu sono, meu histórico.
Ele disse:
— Você não tem sinais de psicose. Você tem ansiedade, trauma, luto sensorial.
Luto sensorial.
A palavra me bateu como uma coisa muito íntima.
Ele me receitou um remédio leve pra dormir.
Na primeira noite em que eu tomei, eu dormi como pedra.
E sonhei.
Sonhei com um corredor sem portas, cheio de vento.
E, no fundo, um som.
Não era música. Não era voz.
Era como se o universo estivesse respirando.
Quando eu acordei, eu estava suando.
E ouvi, do lado esquerdo:
— Obrigado.
Eu sentei na cama.
— Pelo quê?
— Por me dar tempo.
A partir daí, a coisa ficou pior.
Não em volume.
Em proximidade.
A voz começou a ficar mais perto.
Como se aquele ponto fixo atrás de mim estivesse se aproximando centímetro por centímetro.
E eu comecei a sentir outra coisa.
Não som.
Vibração.
Às vezes, eu estava no sofá e sentia uma vibração no ar do lado esquerdo, como se alguém tivesse falado muito perto do meu ouvido — aquele tipo de vibração que você sente na pele quando uma pessoa sussurra.
Só que eu não tinha pele “do lado esquerdo” no sentido do som.
Mesmo assim, eu sentia.
Eu comecei a evitar ficar de costas.
Eu comecei a andar pela casa como um paranoico, sempre virando o corpo inteiro, sempre mantendo aquele lado “protegido”.
E eu comecei a notar algo terrível:
Quando eu falava sobre a voz, ela ficava mais ativa.
Como se ela gostasse de ser nomeada.
Como se ela precisasse que eu a reconhecesse.
E então, numa noite, ela disse a primeira coisa que realmente me quebrou:
— Você não perdeu a audição.
Eu ri, nervoso.
— Eu perdi sim. Eu fiz exames.
— Você perdeu o ouvido.
— Mas não perdeu o lugar onde o som entra.
Eu fiquei em silêncio.
— O que você é?
Ela respondeu sem hesitar:
— Eu sou o que entra quando falta.
Eu senti um frio nas costas.
— Você é… meu cérebro?
— Não.
— Então o que você é?
Uma pausa longa.
E então:
— Eu sou o lado que você amputou.
Eu engoli seco.
— Isso não faz sentido.
— Você acha que a audição mora no ouvido.
— Você acha que a visão mora no olho.
— Você acha que a vida mora no corpo.
Eu senti um aperto na garganta.
— Para.
— Você abriu um buraco.
— E buracos não ficam vazios.
Eu comecei a ter medo de dormir.
Porque, com o tempo, a voz começou a fazer uma coisa ainda pior:
Ela começou a falar enquanto eu estava acordando.
Aquele momento em que você ainda está meio no sonho, meio no mundo.
Aquele segundo em que você não sabe se a realidade já começou.
Ela aproveitava isso.
Ela sussurrava coisas como:
— Olha.
— Escuta.
— Vem.
E eu, meio dopado de sono, quase obedecia.
Teve uma manhã em que eu acordei em pé, no corredor, com a mão na maçaneta da porta do apartamento.
Eu não lembrava de ter levantado.
Eu não lembrava de ter caminhado.
Eu só lembrava de ouvir, no lado esquerdo:
— Agora.
Eu fiquei ali, tremendo.
E então ouvi, bem perto:
— Você quase conseguiu.
Eu voltei pro quarto e sentei na cama, segurando o travesseiro como se fosse uma boia.
Eu sabia que eu estava no limite.
Eu precisava de ajuda.
Mas como você pede ajuda quando o problema mora dentro do lugar onde você sente o mundo?
Eu contei pra uma pessoa.
Não pra minha mãe. Não pra amigos. Não pro médico.
Eu contei pra Helena.
Helena era minha vizinha do 702.
Uma mulher de uns cinquenta e poucos anos, cabelo curto, olhar cansado. Ela fumava na varanda e falava pouco.
Mas tinha uma coisa nela; ela parecia entender silêncio.
Eu conheci Helena porque, numa noite, eu desci pra jogar o lixo e desmaiei no hall do prédio.
Acordei com ela me abanando com um jornal.
— Você tá vivo? — ela perguntou, como se estivesse falando de um eletrodoméstico.
Eu ri, sem vontade.
— Acho que sim.
Ela me ajudou a subir.
E, quando eu entrei no meu apartamento, eu ouvi do lado esquerdo:
— Ela não gosta de você.
Eu congelei.
Helena não ouviu nada, claro.
Ela só me olhou e disse:
— Você tem cara de quem tá ouvindo coisa.
Eu engoli seco.
— O quê?
Ela acendeu um cigarro na minha cozinha, sem pedir.
— Não se faz de bobo. Você tá com essa cara há semanas. Eu vejo pela sua nuca.
Eu senti um nó no estômago.
— Você… você já passou por isso?
Ela soltou fumaça.
— Não. Eu sou surda de um lado desde criança.
Eu fiquei olhando pra ela.
— E você ouve coisa?
Ela me encarou.
— Não.
Eu senti um alívio tão grande que quase chorei.
E, ao mesmo tempo, um pavor.
Porque isso significava que talvez não fosse só “o cérebro preenchendo”.
Helena apagou o cigarro na pia e disse:
— Mas eu conheço gente que ouve.
Eu prendi a respiração.
— Quem?
Ela hesitou, como se escolhesse as palavras.
— Gente que perdeu um pedaço do mundo e, no lugar, entrou outra coisa.
Eu senti o corpo gelar.
— O que entra?
Ela me olhou com uma pena dura.
— Coisa que tava do lado de fora.
Naquela noite, eu ouvi a voz antes mesmo de apagar a luz.
— Você falou com ela.
— Eu precisava.
— Você não devia.
— Você não manda em mim.
A voz riu.
— Você acha que manda porque ainda tem metade.
Eu tremi.
— O que você quer?
A voz ficou em silêncio.
E então, pela primeira vez, ela disse algo que parecia… verdadeiro.
— Eu quero um lugar.
— Você já tem. Você tá no meu ouvido morto.
— Isso é só a borda.
— A borda do quê?
— Da porta.
Eu senti a garganta secar.
— Que porta?
— A que você abriu quando perdeu.
Eu tentei respirar devagar.
— Se você é só uma alucinação, você não pode me machucar.
Ela respondeu, quase com ternura:
— Eu não preciso te machucar.
— Eu só preciso que você me ouça.
Dois dias depois, Helena bateu na minha porta.
Ela estava sem cigarro. Sem cheiro de fumaça. Parecia mais velha do que antes.
— Você quer saber? — ela perguntou.
Eu hesitei.
— Quero.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si, como se tivesse medo de alguém ouvir.
— Quando eu era pequena, eu fiquei doente. Febre alta. Eu perdi a audição do lado esquerdo. E minha mãe disse que eu comecei a falar sozinha.
Meu coração começou a bater mais forte.
— Você lembra?
Helena assentiu.
— Eu lembro de uma coisa. Uma coisa que eu nunca contei pra ninguém.
Ela olhou pro chão, como se estivesse lendo.
— Eu lembro de ouvir… um mar.
Eu engoli seco.
— Um mar?
— Um mar dentro da cabeça. Só do lado esquerdo. E eu lembro de uma frase.
Eu senti minhas mãos suarem.
— Qual?
Helena me encarou.
— “Não escuta.”
Eu senti o sangue fugir do rosto.
Porque era a mesma frase que eu tinha ouvido.
“Não se vira.”
“Não escuta.”
"Não obedece. Não abre."
Helena continuou:
— Minha mãe me levou numa benzedeira. Ela disse que eu tinha aberto “a margem”. Que eu tinha perdido um pedaço do mundo e o mundo de baixo tava tentando entrar.
Eu senti uma náusea.
— E como… como você parou?
Helena ficou em silêncio.
— Eu não parei. Eu só… fiquei velha o suficiente pra não ouvir mais.
— O quê?
Ela me encarou, séria.
— Quando você cresce, o mundo fica barulhento. Trabalho, gente, preocupação. Você não dá espaço. E o negócio… enfraquece.
Eu senti um desespero.
— Mas eu moro sozinho. Eu trabalho em casa. Eu vivo em silêncio.
Helena assentiu.
— Pois é.
Eu ouvi do lado esquerdo, naquele instante:
— Ela está certa.
Helena arregalou os olhos.
— Você ouviu agora, né?
Eu congelei.
— Você… você ouviu também?
Helena balançou a cabeça.
— Não. Mas eu vi a sua cara.
Naquela madrugada, eu não consegui dormir.
Eu fiquei sentado no chão do quarto, encostado na cama, segurando uma faca de cozinha como um idiota.
A voz não falou por horas.
E isso foi pior.
Porque eu senti… presença.
Aquele ponto fixo atrás de mim parecia respirar.
E, em algum momento, eu ouvi um som que não era voz.
Era como um rangido.
Como madeira antiga se abrindo.
Eu fechei os olhos.
E ouvi:
— Você está pronto.
Eu tremi.
— Pronto pra quê?
— Pra ouvir inteiro.
Eu engoli seco.
— Eu não quero.
— Você quer.
— Você sente falta.
— Você sente falta do mundo completo.
Eu senti lágrimas nos olhos, de raiva.
— Eu sinto falta, sim. Mas isso não significa que eu vou te deixar entrar.
A voz ficou em silêncio.
E então, com uma calma que me fez gelar:
— Eu já entrei.
— Você só ainda não virou.
Eu não sei explicar o que aconteceu depois.
Eu só sei que, por um segundo, eu ouvi com o ouvido esquerdo.
Ouvi de verdade.
Eu ouvi o ventilador.
Ouvi a geladeira.
Ouvi a rua.
Ouvi o mundo.
E eu senti um alívio tão violento que meu corpo inteiro
Foi como recuperar um braço.
Eu chorei.
E, enquanto eu chorava, eu ouvi — do lado esquerdo — um coro.
Várias vozes.
Muitas.
Como se existisse uma multidão atrás de uma porta fina, todas esperando.
E, no meio do coro, a voz original sussurrou:
— Viu?
— Eu te devolvi.
Eu senti um pavor.
Porque eu entendi.
Ela não estava tentando me assustar.
Ela estava tentando me seduzir.
Eu levantei cambaleando e fui até o banheiro. Olhei meu rosto no espelho.
Tudo normal.
Mas meus olhos estavam vermelhos.
E, atrás de mim, no reflexo, por um segundo… eu vi uma sombra.
Não um corpo.
Uma espécie de deformação no ar.
Como se o espaço tivesse uma costura.
Eu pisquei.
Sumiu.
Eu ouvi, do lado esquerdo:
— Não olha. Escuta.
Eu fechei os olhos.
E o coro ficou mais alto.
No dia seguinte, eu fui trabalhar num café.
Eu coloquei música.
Eu fiquei perto de gente.
Eu me forcei a encher o mundo de ruído.
A voz ficou fraca.
Ela ainda sussurrava, mas parecia distante.
— Você está fugindo.
— Tô.
— Você vai cansar.
— Talvez.
— E quando cansar…
— você vai querer ouvir inteiro de novo.
Eu apertei os olhos.
— Cala a boca.
Ela riu.
— Eu não tenho boca.
— Eu tenho espaço.
Uma semana depois, Helena morreu.
Foi rápido. Infarto.
Eu descobri porque a síndica bateu na minha porta pedindo pra eu ajudar com a ambulância.
Eu desci e vi o corpo sendo levado.
E eu ouvi, do lado esquerdo:
— Agora você está sozinho.
Eu senti o mundo girar.
E então a voz disse, com uma alegria fria:
— Agora você tem margem suficiente.
Eu não voltei pro apartamento naquela noite.
Eu fui dormir num hotel.
Mas, no quarto do hotel, eu ouvi do lado esquerdo:
— Não adianta trocar de quarto.
— Eu não moro no prédio.
— Eu moro na falta.
Eu comecei a tremer.
— O que você quer de mim?
Ela respondeu, finalmente, sem metáforas:
— Eu quero que você me deixe atravessar.
Eu engoli seco.
— Atravessar pra onde?
— Pra você.
— E o que acontece comigo?
Uma pausa.
E então:
— Você vai parar de sentir falta.
Eu senti um pânico.
— Isso não é uma resposta.
A voz sussurrou, doce:
— Você vai ser inteiro.
Eu voltei pro meu apartamento dois dias depois.
Eu estava exausto. Eu estava com fome. Eu estava com raiva.
Eu sentei no sofá e olhei pro lado esquerdo do quarto — o lado onde eu sempre sentia o ponto fixo.
— Tá. — eu disse. — Se você quer atravessar, me mostra.
O silêncio ficou pesado.
E então eu ouvi, muito devagar, como se algo enorme estivesse se movendo num lugar apertado.
Um som de tecido.
Um som de pele.
Um som de algo se arrastando.
E, pela primeira vez, eu ouvi um som que vinha dos dois lados.
Direito e esquerdo.
Inteiro.
Eu senti meu corpo inteiro arrepiar.
E a voz, agora mais próxima do que nunca, sussurrou no meu ouvido morto:
— Vira.
Eu congelei.
Meu coração parecia querer sair pela boca.
— Não.
— Vira.
— Não.
— Você já virou antes.
— Você sempre vira.
Eu senti lágrimas.
— Eu não quero.
E então ela disse, sem raiva, sem pressa:
— Então eu vou esperar.
É isso que me apavora.
Não é a voz.
Não é o coro.
Não é o medo de estar enlouquecendo.
É a paciência.
É saber que ela não precisa correr.
Ela só precisa que eu tenha um dia ruim.
Uma noite de silêncio.
Uma madrugada em que eu esteja cansado demais pra lutar.
Porque a vida, eventualmente, te dá silêncio.
E, quando ela der…
Eu tenho certeza de que vou ouvir inteiro de novo.
E eu tenho certeza de que, dessa vez…
eu vou virar.
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