Crítica | Stranger Things 5: Episódio final - O resultado é um final preguiçoso, sustentado por conveniências de roteiro e decisões feitas claramente para não alienar o público mais amplo.
| Divulgação | Netflix |
• Por Alisson Santos
Encerrar uma série que atravessou uma década não é apenas uma questão de concluir uma história, mas de justificar sua própria existência. O episódio final da quinta temporada de Stranger Things tenta se vender como um grande adeus épico, mas acaba funcionando como uma autópsia involuntária das limitações criativas dos irmãos Duffer. O que deveria ser o ápice emocional e narrativo da série se revela, na prática, uma coleção de decisões covardes, atalhos de roteiro e promessas abandonadas. Ao fim, não resta a sensação de encerramento, mas a de esvaziamento.
Desde sua estreia, Stranger Things sempre viveu de um delicado equilíbrio entre nostalgia, horror e drama juvenil. A primeira temporada, em especial, foi um raro caso de concisão narrativa; mistério bem delimitado, personagens com arcos claros e consequências reais. A quarta temporada, apesar de excessos, ainda flertava com ambição temática. O episódio final da quinta, porém, deixa claro que esses momentos foram exceções — lampejos de controle criativo em meio a um projeto que, quando ganhou liberdade total, revelou-se estruturalmente frágil.
O problema central não está na falta de ideias, mas exatamente no oposto. Os Duffer constroem setups em excesso, abrem portas narrativas intrigantes e, sistematicamente, abandonam quase todas. Pontas soltas de temporadas anteriores não são revisitadas, mistérios são ignorados e inconsistências se acumulam a ponto de corroer qualquer ilusão de planejamento de longo prazo. A sensação é a de que Stranger Things sempre correu atrás do próprio sucesso, improvisando caminhos conforme a recepção do público, em vez de seguir uma visão narrativa sólida.
No clímax, isso se torna ainda mais evidente. O episódio final é dramaticamente inofensivo. Não há risco real, não há consequências duradouras, não há a mínima disposição para romper com o status quo. A série até simula sacrifícios — como o de Eleven —, mas Mike acredita que tudo foi uma ilusão cuidadosamente criada, permitindo que Eleven escapasse e começasse uma nova vida longe de perseguições. Stranger Things nunca mostra um corpo nem confirma sua morte de forma direta, optando por um final aberto. Oficialmente, Eleven é tratada como morta, mas narrativamente, seu destino permanece em aberto. O sacrifício deixa de ser trágico e passa a ser burocrático.
Esse medo de matar seus personagens principais compromete diretamente a tensão da narrativa. O Devorador de Mentes e Vecna, apresentados como ameaças apocalípticas, revelam-se antagonistas impotentes. Ninguém relevante paga o preço da batalha final. Nenhum membro do grupo principal morre, e isso transforma o confronto derradeiro em uma encenação vazia. É impossível sentir perigo quando a série deixa claro que seus protagonistas estão blindados.
Vecna, em particular, sai profundamente enfraquecido. Construído ao longo de duas temporadas como a personificação do trauma, do ressentimento e do horror psicológico, ele termina reduzido a um vilão constantemente enganado, humilhado e ridicularizado — inclusive por personagens que deveriam estar apavorados. A tentativa tardia de enquadrá-lo como um “antagonista incompreendido” soa artificial e mal desenvolvida, incapaz de gerar empatia ou complexidade. No fim, Vecna não assusta, não emociona e não convence. Torna-se apenas mais um obstáculo narrativo descartável.
| Divulgação | Netflix |
O epílogo estendido surge como um respiro, talvez o momento mais interessante do episódio, mas nem ele escapa dos vícios da série. Há escolhas curiosas e omissões gritantes. Dustin, por exemplo, aparentemente segue em frente sem Suzie, e o fato de ele ter salvado o mundo mais de uma vez é tratado com a mesma indiferença burocrática de sempre. Personagens adultos como Karen e Ted Wheeler passam ilesos por eventos traumáticos sem qualquer repercussão psicológica, enquanto outras tragédias simplesmente desaparecem do texto, como se nunca tivessem acontecido. Eu nem vou citar a quantidade de furos de roteiro, principalmente de temporadas anteriores, pois então eu ficaria aqui até amanhã.
A trama militar, que ocupou espaço significativo ao longo da série, termina em irrelevância total. A Dra. Kay desaparece sem desfecho, os planos meticulosamente elaborados pelos militares são abandonados sem explicação, e a própria lógica institucional desse universo colapsa. O passado da família Creel, longe de esclarecer algo, apenas gera novas perguntas — muitas das quais dependem de material externo, como a peça de teatro, para fazer sentido. Para quem acompanhou apenas a série, certas revelações são confusas, arbitrárias e dramaticamente ocas.
Talvez o aspecto mais frustrante seja o silêncio dos personagens. Joyce e Hopper jamais compartilham informações cruciais sobre Henry, Max — que teve contato direto com Vecna no Mundo Invertido — permanece estranhamente passiva, e diálogos que poderiam aprofundar o conflito simplesmente não acontecem. A série parece ter medo de suas próprias implicações, evitando confrontar o peso psicológico e moral do que foi vivido.
O resultado é um final preguiçoso, sustentado por conveniências de roteiro e decisões feitas claramente para não alienar o público mais amplo. Não se trata de exigir carnificina gratuita ou um massacre à la "Casamento Vermelho", mas de reconhecer que histórias precisam de consequências para terem peso. Algumas perdas reais teriam elevado a luta final, dado significado ao sacrifício e encerrado arcos com dignidade. Em vez disso, a série oferece Kali — um símbolo claro de como prefere atalhos a decisões difíceis.
Ao terminar com o final de Eleven aberto, a série ainda abre perguntas inquietantes que jamais pretende responder; o que acontece quando ela perde o controle? Os militares realmente desistiriam de explorá-la? O Abismo foi mesmo fechado para sempre? A narrativa tenta sugerir um ponto final, mas deixa um rastro de implicações que contradizem esse encerramento. Não soa como ambiguidade inteligente — soa como indecisão.
No fim, Stranger Things não termina com um estrondo, mas com um suspiro cansado. Não é o pior final de todos os tempos, mas está perigosamente próximo disso justamente por aquilo que poderia ter sido. É um encerramento frustrante, decepcionante e, acima de tudo, vazio. Uma série que começou entendendo perfeitamente o poder do mistério termina incapaz de lidar com suas próprias respostas.
O episódio final já está disponível na Netflix.
Avaliação final - 5/10
Não curto final ambíguo. Os caras fazem toda uma construção de uma personagem em 5 temporadas, pra no final o telespectador "escolher" o que aconteceu. Teve cenas mto boas, o Jamie Campbell arrasa... mas, deixaram algumas pontas soltas.
ResponderExcluiresse devorador de mundos é uma piada muito bucha
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