Crítica | Antônio Odisseia - Parece um filho bastardo do Brasil; um cinema que carrega violência, poesia, humor nervoso, espiritualidade torta e desespero.

Divulgação | 5 pra 2

• Por Alisson Santos 

Antônio Odisseia não é apenas o primeiro longa-metragem de Thales Banzai — é um manifesto sensorial que propõe repensar o que o cinema brasileiro pode ser no início da década de 2020. Escolhido entre mais de 10 mil títulos para estrear no Slamdance Film Festival em Los Angeles, o projeto já chega ao cenário internacional como uma obra radicalmente autoral, visceral e desconfortavelmente bela. 

Ao invés de seguir qualquer forma narrativa convencional, Banzai constrói um percurso que parece se desenrolar tanto na metrópole sonora do inconsciente quanto no choque brutal de realidades sociais não resolvidas. A premissa é simples em sua superfície; Antônio e Ivone — dois jovens marginalizados — tentam escapar de um cotidiano sufocante através de um assalto a um boteco e, em seguida, embarcam numa viagem alucinada que esbarra em memórias traumáticas, identidade racial, desigualdade e – literalmente – um encontro com Deus.

O filme se distancia deliberadamente de qualquer conforto narrativo; a cidade que habitamos, com suas fachadas familiares, logo desmancha em uma paisagem urbana mutável onde concreto e delírio se tornam indistinguíveis. Essa escolha estética, que remete tanto ao cinema marginal brasileiro quanto à experimentação poética de Glauber Rocha, não é gratuita. Aqui, o real não serve à cronologia, mas à sensação de deslocamento e à urgência de pensar o Brasil além de suas periferias sem glamour, sem simplificações. 

O roteiro se desdobra como se a cidade fosse um organismo vivo, respirando em cima dos personagens. Não é apenas um cenário; é uma entidade. A metrópole, em Antônio Odisseia, tem uma lógica própria — e ela não é a lógica do relógio. O tempo se embaralha. Os encontros parecem alegorias. O destino aparece como ironia. Essa escolha narrativa pode frustrar quem espera “uma história com começo, meio e fim”. Mas o filme não quer ser confortável. Ele quer ser inevitável. Quer que o espectador sinta o que Antônio sente; uma espécie de labirinto onde toda saída parece levar para dentro.

No plano visual, a opção pelo preto e branco revela um cinema que se debruça sobre contrastes — não apenas estéticos, mas sociais e simbólicos. O preto e branco acentua a aspereza das ruas, a textura da pele, a brutalidade do concreto. Ele transforma luz em ameaça e sombra em abrigo. E, principalmente, cria uma sensação de que estamos vendo algo fora do tempo, como se o filme acontecesse em uma espécie de Brasil paralelo — um Brasil que sempre existiu, mas que raramente é filmado com esse tipo de ambição estética. A fotografia de Camila Cornelsen sublinha corpos e texturas num mundo em que a cor pode confundir, mas a forma não engana. O filme tem coragem de ser feio em certos momentos — e isso é raro, porque o cinema atual frequentemente tenta “embelezar” a miséria ou estilizar a periferia. Banzai não. Ele filma o caos como caos.

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As performances — especialmente de Kelson Succi e Iraci Estrela — escapam ao naturalismo, esculpindo gestos, silêncios e explosões que evocam mais o teatro intuitivo do que a representação convencional. Essa decisão dramática pode desafiar espectadores acostumados ao realismo, mas funciona como catalisador para a proposta híbrida do filme; entre ato e transe, entre crítica social e fábula existencial. 

A trilha sonora, com arranjos de Arthur Verocai e vozes como a de Leci Brandão, reforça essa viagem. Aqui a música não acompanha — ela empurra, impulsiona e explodirá na memória como uma entidade própria, sublinhando o caráter ritualístico da jornada de Antônio. 

É importante dizer com honestidade; Antônio Odisseia não é um filme “fácil”. Ele não é um filme para ver com o celular na mão. Ele não é um filme para quem busca entretenimento convencional. A montagem é fragmentada. O ritmo é irregular por escolha. O filme parece propositalmente interessado em criar estranhamento. E isso pode afastar parte do público. Mas a dificuldade aqui é linguagem. É identidade. É coragem. Porque existe um tipo de cinema brasileiro contemporâneo que tenta ser “aceitável” — aceitável para editais, para festivais, para público, para crítica. Antônio Odisseia não tenta ser aceitável. Ele tenta ser verdadeiro dentro da sua própria lógica. E isso é raro.

O mais impressionante em Antônio Odisseia não é apenas o resultado final, mas o que ele indica; Thales Banzai estreia como alguém que já tem voz, já tem assinatura, já tem obsessões, já tem uma estética própria. O filme carrega ecos de várias tradições — do cinema marginal ao experimental, do drama urbano ao surrealismo — mas não parece derivativo. Ele parece um filho bastardo do Brasil; um cinema que carrega violência, poesia, humor nervoso, espiritualidade torta e desespero. É um filme que entende que a marginalidade não é apenas um tema; é um estado.

Antônio Odisseia terá sua première mundial no Slamdance Film Festival, em Los Angeles, nos Estados Unidos, entre 19 e 26 de fevereiro. O filme ainda não possui data de estreia prevista no Brasil.

Avaliação - 7/10

Comentários

  1. Felipe Jam9/2/26

    Cara, eu li essa crítica e fiquei com MUITA vontade de ver o filme, mesmo sabendo que provavelmente vou sair meio desnorteado do cinema kkkkk.

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  2. Robson Alves9/2/26

    Crítica muito bem escrita, deu pra imaginar o clima do filme inteiro. Vou atrás.

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  3. Herbert Serafim9/2/26

    Vai fazer todos circuitos de festivais independentes? Porque se for, vai demorar bastante para chegar aqui.

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  4. Bárbara Rodrigues9/2/26

    Acabei de ver o trailer. E eu adoro quando o cinema brasileiro vem com essa coragem de não tentar ser “bonitinho” pra agradar ninguém. Esse lance do preto e branco + a viagem meio surreal me deixou muito curiosa. Vou colocar no radar.

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