Crítica | Fallout (2° Temporada) - Sensação constante de “estou assistindo ao preparo do prato”, mas quase nunca “estou finalmente comendo”.

Divulgação | Prime Video

• Por Alisson Santos 

A segunda temporada de Fallout, do Prime Video, é maior em tudo; mais personagens, mais facções, mais referências, mais eventos por episódio e, principalmente, mais ambição. O problema é que ela também é maior no que a primeira temporada fazia com muito mais elegância; espalhar demais a própria história. Se a estreia da série parecia um ótimo “capítulo 1” — com começo, meio e fim, mesmo deixando portas abertas para o futuro — a continuação soa como um enorme corredor narrativo que leva até a terceira temporada, mas raramente para e entrega uma conclusão de verdade. E isso não é um detalhe pequeno. É o tipo de falha que transforma uma temporada inteira em uma sensação constante de “estou assistindo ao preparo do prato”, mas quase nunca “estou finalmente comendo”.

A primeira temporada tinha muitos elementos em movimento, sim, mas sabia o que era essencial; Lucy, Maximus e o Ghoul. Eles eram o eixo emocional, e o deserto era o palco que fazia suas trajetórias se cruzarem com naturalidade. Havia um senso de progresso, de transformação e, acima de tudo, de recompensa. Você terminava a temporada com a impressão de ter acompanhado uma jornada que fechava um ciclo, mesmo que outro estivesse prestes a começar. A segunda temporada, por outro lado, parece confundir complexidade com profundidade. Ela joga ideias como se estivesse empilhando cartas raras de Fallout na mesa, mas sem garantir que cada uma delas tenha função dramática dentro do arco maior. Algumas aparecem, prometem muito e desaparecem como se fossem apenas um aceno para fãs. Outras ganham tempo demais e, quando finalmente deveriam se justificar, acabam terminando em nada — ou pior, terminando em “isso vai importar depois”, o que é praticamente o jeito mais frustrante de encerrar uma trama de televisão.

O caso mais emblemático dessa sensação é a história de Norm, irmão de Lucy. A premissa é excelente; preso em um cofre cheio de funcionários congelados da Vault-Tec, ele os liberta, finge ser parte da corporação e tenta sobreviver no mundo real usando manipulação, mentira e estratégia — um contraste perfeito com Lucy, que ainda insiste em manter algum tipo de ética mesmo num cenário que mastiga inocentes. A temporada poderia ter transformado Norm em um dos personagens mais interessantes da série, alguém que cresce não por coragem, mas por esperteza e ambiguidade moral. Só que, em vez disso, a trama vira uma espécie de side quest longa demais e sem payoff. O grupo que ele lidera morre de forma abrupta, ele apanha mais de uma vez, o plano desmorona e, no fim, ele praticamente volta para o ponto inicial, carregando apenas uma informação importante sobre o FEV. Você termina com a sensação de que assistiu a um grande desvio narrativo que existiu mais para plantar sementes do que para entregar drama real, e isso, em uma temporada de apenas oito episódios, é quase imperdoável.

E não é como se o problema fosse apenas “ter pontas soltas”. Pontas soltas são normais. Fallout sempre foi um universo de mistérios, conspirações e peças espalhadas. A questão é que a segunda temporada não deixa pontas soltas; ela deixa cordas inteiras sem nó, e às vezes sem nem explicar por que estavam ali. Há personagens e elementos introduzidos com a energia de algo grandioso, mas que não influenciam nada de relevante. A série parece querer mostrar que conhece a própria mitologia, mas se perde tentando dar espaço para tudo ao mesmo tempo. É como se o roteiro estivesse com medo de escolher um caminho e, ao tentar abraçar todos, acabasse enfraquecendo o impacto de cada um.

Ainda assim, é impossível dizer que Fallout desaba, porque quando ela lembra quem são seus protagonistas, ela volta a funcionar com uma força absurda. A melhor parte da temporada continua sendo o trio central. O Ghoul, especialmente, tem uma linha narrativa que brilha ao alternar passado e presente, revelando mais sobre suas conexões com o Enclave, Vault-Tec e o mundo antes das bombas. Para quem ama a lore de Fallout, esses episódios são um banquete. A série mostra que sabe trabalhar esse universo com respeito, peso e estilo, e há um prazer genuíno em ver essas peças se encaixando. O problema é que, para quem nunca jogou, algumas dessas conexões são mal explicadas, e a temporada às vezes assume que o espectador já chega com o manual do universo aberto na mão. Isso cria uma barreira silenciosa; a série é ótima, mas frequentemente parece conversar mais com fãs do que com o público geral.

Maximus também ganha um arco forte, talvez o mais satisfatório em termos de evolução. Sua fuga da Irmandade e sua transformação em símbolo de esperança em New Vegas funcionam não só como crescimento pessoal, mas como imagem. Há algo muito poderoso em ver um personagem que começou pequeno, perdido e quase patético em certos momentos, se tornar alguém capaz de inspirar. A temporada acerta ao transformar essa mudança em linguagem visual, e não apenas em diálogos explicativos. A cena dele passando por um garoto enquanto usa a armadura da NCR é o tipo de detalhe que vale por um episódio inteiro; é um espelho do passado, uma rima emocional que diz “ele virou aquilo que um dia o salvou”.

Divulgação | Prime Video

Lucy, por sua vez, segue sendo o coração moral e humano da série, e sua trama com o pai é uma das melhores coisas da temporada. A ideia de “salvar o deserto” com chips de controle é um conflito perfeito para Fallout, porque é exatamente o tipo de utopia tecnocrática que, nesse universo, sempre vira horror. Lucy quer um mundo menos violento, mas entende que não existe paz verdadeira quando ela é construída com escravidão disfarçada. O embate dela com o pai é doloroso justamente porque não é simples. Ela ainda o ama. Ela ainda reconhece que ele a criou com valores. E isso torna a traição mais cruel e a decisão final dele — apagar a própria mente — ainda mais devastadora. É um desfecho que machuca porque parece inevitável, e porque Lucy sai dele com uma maturidade amarga; ela não perdeu a esperança, mas perdeu a ingenuidade.

O maior contraste da temporada, portanto, é esse; os protagonistas entregam arcos que funcionam, emocionam e fazem sentido, enquanto o resto da série parece preso em uma compulsão por abrir portas sem fechar nenhuma. E isso não seria tão grave se Fallout tivesse mais episódios. A sensação geral é que oito capítulos não comportam a quantidade de histórias que a série decidiu carregar. Em vez de cortar subtramas ou condensar ideias, a temporada insiste em manter tudo, e o resultado é um ritmo irregular, com episódios que parecem cheios de promessas e um final que soa mais como “continua” do que como “fim”.

O uso de Mr. House é o melhor exemplo dessa contradição. A presença dele é fantástica. A adaptação é carismática, imponente, e prova que a série pode trazer personagens icônicos dos jogos e fazer justiça a eles. Só que, depois de dedicar tanto tempo para construir House como peça central, a temporada termina deixando o destino dele confuso, quase como se a série tivesse esquecido de entregar o fechamento que ela mesma prometeu. É estranho, porque não parece um mistério calculado; parece uma ausência de decisão. E isso reforça a impressão de que Fallout, nesta temporada, está mais interessada em preparar o tabuleiro do que em jogar a partida.

O final aponta para mudanças importantes, e isso é promissor. Lucy e Maximus ficam em New Vegas, enquanto o Ghoul segue para Colorado em busca da família. A mudança de cenário pode ser exatamente o que a série precisa, porque há um limite para quantas horas o público consegue passar em paisagens desérticas sem sentir repetição, por mais bonito e bem produzido que seja. Mas também existe um medo legítimo; se a segunda temporada já se enrolou equilibrando tramas em um único grande núcleo, a terceira pode virar um caos ainda maior ao dividir personagens e multiplicar frentes narrativas. A promessa é enorme. O risco também.

No fim, a segunda temporada de Fallout é um paradoxo bem típico do próprio universo que ela adapta. Ela tem momentos brilhantes, personagens fortes e um senso de mundo impressionante, mas também carrega a maldição de muitas obras ambiciosas; querer ser grande demais, rápido demais, ao mesmo tempo. É uma temporada que vai agradar profundamente os fãs mais apaixonados pela mitologia, porque entrega conexões, personagens e elementos clássicos com carinho e competência. Mas, como experiência de televisão, ela deixa a desejar justamente no ponto que uma temporada precisa acertar; a sensação de conclusão. A segunda temporada de Fallout não é ruim. Ela é bagunçada. E, no pior sentido possível, ela termina fazendo você sentir que não assistiu a uma história completa, mas a uma longa preparação para uma história que ainda vai começar.

A segunda temporada já está disponível no Prime Video.

Avaliação - 7/10

Comentários

  1. Victor Canobio7/2/26

    Resumiu perfeitamente minha sensação com essa temporada.

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  2. Breno Lopes7/2/26

    Essa temporada também não me empolgou tanto. Inclusive, ainda estou enrolando para ver o último episódio 😅

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