Crítica | Manual Prático da Vingança Lucrativa - Um filme de superfícies brilhantes e intenções afiadas, sustentado por um elenco que compreende o jogo satírico melhor do que o próprio roteiro.

Divulgação | Diamond Films

• Por Alisson Santos 

Depois de surpreender crítica e público com o thriller econômico claustrofóbico Emily, A Criminosa, o diretor John Patton Ford retorna com um projeto mais ambicioso, mais satírico e, paradoxalmente, mais disperso. Manual Prático da Vingança Lucrativa amplia o escopo da crítica social e mira diretamente na aristocracia financeira americana, construindo uma fábula venenosa sobre herança, ressentimento e a mitologia do “direito ao topo”. O resultado é um filme elegante, provocador e irregular — ao mesmo tempo hipnotizante e frustrante.

Ford parte de uma inspiração assumida em Kind Hearts and Coronets (1949), clássico britânico de humor macabro, mas injeta no material uma estética contemporânea que evoca o fetichismo visual de Saltburn e a identidade fluida de O Talentoso Ripley. A comparação não é gratuita; o protagonista Becket Redfellow, vivido por Glen Powell, é herdeiro ilegítimo de uma dinastia bancária, criado à margem do império que, por direito sanguíneo e obsessão materna, acredita lhe pertence.

A narrativa começa com uma confissão no corredor da morte — recurso que estabelece desde cedo o tom fabular e reforça a ideia de que estamos diante de um narrador pouco confiável. Becket insiste que sua trajetória é uma tragédia, mas o filme flerta o tempo todo com a sátira. Essa tensão entre moralidade e ironia é o motor — e também o problema — da obra. Ford parece indeciso entre oferecer um estudo psicológico sobre ambição e construir uma parábola estilizada sobre o 1%. O resultado faz o filme oscilar bastante.

O arco de Becket é simples e perverso; sétimo na linha de sucessão da fortuna familiar, ele decide eliminar os obstáculos com precisão quase burocrática. Há algo de meticulosamente banal na forma como os “acidentes” são orquestrados. Ford filma essas mortes com frieza estética, mais interessado na composição visual e no sarcasmo social do que no suspense em si. O espectador sabe que Becket sobreviverá o suficiente para narrar sua própria ruína; a tensão, portanto, reside menos no “se” e mais no “como".

É na primeira metade que o filme encontra sua melhor energia. Os primos milionários são caricaturas deliciosamente grotescas. Raff Law encarna um playboy narcisista que parece saído das páginas de Patricia Highsmith sob influência de cocaína e criptomoedas; Zach Woods rouba cenas como um artista performático que se autodenomina “o Basquiat branco”, numa das sátiras mais afiadas ao mercado de arte contemporâneo; e Topher Grace diverte como um pastor de megaigreja cujo penteado é quase uma entidade autônoma. Esses personagens funcionam porque são excessivos, quase cartunescos, e o filme respira melhor quando abraça essa veia farsesca.

O problema surge no centro gravitacional da narrativa. Becket, que deveria ser o eixo dramático, permanece um vazio elegante. Powell o interpreta como um camaleão social, um homem capaz de modular sotaques, posturas e valores conforme o ambiente — mas o roteiro pouco revela sobre o que resta quando todas as máscaras caem. A tentativa de humanizá-lo por meio do romance com Julia (uma Margaret Qualley deslocada, como se atuasse num thriller erótico europeu à parte) soa mecânica. Já Ruth, interpretada por Jessica Henwick, funciona mais como alegoria da consciência do que como pessoa real. Ford constrói personagens-símbolo quando talvez precisasse de personagens de carne e osso.

Divulgação | Diamond Films

Visualmente, o filme é elegante e frio. A fotografia explora o contraste entre o mármore das mansões de Long Island e a textura mais crua de Newark, transformando o espaço em comentário social. O figurino sublinha a obsessão com a tradição Branco, Anglo-Saxão e Protestante: tweeds, chapéus, cortes clássicos — uma performance de pertencimento que Becket veste como armadura. Há uma ironia calculada no fato de que, num mundo movido a capital e imagem, identidade também seja mercadoria.

Mas a sofisticação formal não compensa completamente a indecisão tonal. Ford alterna entre a sátira mordaz e a moralidade quase bíblica sobre ganância e queda. Quando o filme tenta assumir peso trágico, falta-lhe densidade emocional; quando abraça a comédia ácida, falta-lhe coragem para ir até o fim do absurdo. Essa hesitação impede que Manual Prático da Vingança Lucrativa alcance a contundência de sua estreia anterior.

Ainda assim, há algo fascinante na ambição do projeto. Ford quer falar sobre herança como maldição, sobre o fetiche contemporâneo pelos bilionários, sobre o ressentimento como combustível de mobilidade social. Becket não quer apenas dinheiro; quer reconhecimento, pertencimento, legitimidade. Seu crime maior talvez não seja matar os parentes, mas acreditar que ocupar o topo apagará a humilhação da origem.

No desfecho, o diretor parece oferecer a Becket duas leituras simultâneas; vilão e vítima, predador e produto do sistema. Essa duplicidade é instigante, mas também dilui o impacto. Ao evitar uma posição mais clara — seja cínica, seja condenatória — o filme termina em um limbo moral que soa menos complexo e mais indeciso.

Manual Prático da Vingança Lucrativa é, portanto, um filme de superfícies brilhantes e intenções afiadas, sustentado por um elenco que compreende o jogo satírico melhor do que o próprio roteiro. Não é o golpe fatal que promete no título, mas também está longe de ser irrelevante. Como seu protagonista, é sedutor, calculado e ligeiramente vazio — um espelho incômodo da elite que pretende criticar.

O filme estreia nacionalmente nesta quinta-feira, 26 de fevereiro.

Avaliação - 6/10

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