Crítica | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria - É o retrato autêntico do esgotamento humano contemporâneo, sustentada por uma performance magistral de Rose Byrne.
| Divulgação | Synapse Distribution |
• Por Alisson Santos
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não é uma narrativa que se organiza para te agradar, te guiar ou te dar descanso. É uma experiência que te empurra para dentro de um estado mental específico; o de uma mulher que está no limite, vivendo o cotidiano como se fosse uma guerra silenciosa, e que começa a perceber que tudo ao redor não só exige dela, como também a devora.
Mary Bronstein filma como quem não quer “contar” algo, mas sim reproduzir uma sensação. E o que ela reproduz é um tipo de colapso moderno, especialmente feminino, que raramente aparece com esse nível de agressividade emocional no cinema. Linda, interpretada por Rose Byrne com uma intensidade que parece não ter interruptor, é uma mãe que já está cansada antes mesmo do filme começar. Não é um cansaço bonito, cinematográfico, que vira poesia. É o cansaço feio. O cansaço que deixa a voz áspera, o olhar irritado, o corpo sempre um pouco tenso, como se o mundo fosse uma ameaça constante. E talvez seja.
A trama, em si, poderia ser contada de maneira simples; um apartamento que se deteriora, uma família que se esgarça, uma filha doente, um marido ausente, a obrigação de manter as coisas funcionando mesmo quando tudo está quebrando. Mas Bronstein não quer a simplicidade, porque a mente de Linda não é simples. Ela está em uma espiral, e o filme acompanha essa espiral com uma câmera que gruda nela como uma presença invasiva. É como se o espectador não estivesse assistindo Linda, mas sim preso dentro da mesma sala com ela, sem janelas, sem ar, sem a possibilidade de se afastar para “entender” de fora.
A atuação de Rose Byrne é o grande motor dessa experiência. Não é só uma performance “boa”, é uma performance que incomoda porque se recusa a ser simpática. Linda não é construída para ser admirável, nem para ser “forte” no sentido inspirador. Ela é humana demais, falha demais, irritante demais, real demais. Byrne trabalha com microexpressões que carregam raiva e culpa ao mesmo tempo, e o filme parece saber que essa combinação é uma das mais corrosivas que existem. A raiva, nesse caso, não é apenas contra o mundo — é contra si mesma por sentir raiva. E isso é devastador.
O título do filme, que poderia soar como uma provocação cômica, acaba funcionando como um manifesto emocional. Não é sobre violência literal. É sobre o desejo de reagir, de quebrar algo, de devolver o golpe. É o pensamento que passa pela cabeça quando você está tão impotente que a fantasia de “chutar” o mundo vira a única forma de respirar. E o mais cruel é que Linda, mesmo querendo, não pode. Ela não tem “pernas” — e aqui o filme brinca com a ideia de que as pernas não são físicas, mas simbólicas. São autonomia, energia, suporte, tempo, rede de apoio. Tudo aquilo que ela não tem.
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A ameaça do filme não é um vilão externo, nem um trauma isolado, mas o acúmulo. O horror não vem de uma grande tragédia, e sim da repetição do insuportável. Uma conversa que não dá certo. Uma ligação que não ajuda. Uma tentativa frustrada. Um problema pequeno que vira enorme porque a protagonista já está sem recursos internos. O filme transforma a logística do cotidiano — cuidar, trabalhar, resolver, aguentar — numa espécie de thriller psicológico, onde a tensão está sempre ali, mesmo quando nada “acontece”.
E é nesse ponto que o longa se torna mais corajoso; ele não romantiza a maternidade, mas também não faz um discurso fácil contra ela. Ele mostra a maternidade como um território onde amor e ressentimento podem coexistir de forma brutal, sem que um anule o outro. Linda ama a filha, e isso não é questionável. Mas o filme tem a ousadia de sugerir que amor não impede o esgotamento, nem impede pensamentos horríveis, nem impede o desejo de desaparecer. E isso, para muitos espectadores, é o verdadeiro choque. Porque há um pacto social muito forte que exige que mães sejam sempre “melhores”, mais pacientes, mais puras, mais capazes de suportar o impossível. O filme rasga esse pacto na frente da câmera.
Ao mesmo tempo, não há aquele momento clássico em que a personagem explode, chora, aprende uma lição e renasce. O que existe é uma insistência desconfortável na ideia de que certos estados emocionais não se resolvem em duas horas. E isso pode frustrar. O filme, em vários momentos, parece deliberadamente claustrofóbico e repetitivo, como se quisesse que o espectador sentisse na própria estrutura o que é viver sem pausa. Há uma teimosia na forma, uma recusa em oferecer alívio, e isso faz com que algumas pessoas saiam achando que o filme é “difícil” demais — mas talvez essa seja justamente a ética dele.
Também há algo fascinante na maneira como o longa flerta com o absurdo. A realidade de Linda é tão desgastante que começa a parecer surreal, como se o mundo estivesse levemente desalinhado. E Bronstein usa esse desalinhamento para mostrar o que acontece quando a mente não aguenta mais processar. Não é exatamente um filme sobre loucura, mas sobre o ponto em que o corpo e a psique começam a falhar por excesso de exigência. É um filme sobre burnout emocional, mas sem o vocabulário corporativo e higienizado que normalmente acompanha esse tema. Aqui, burnout é grito, é irritação, é paranoia, é descontrole, é vergonha.
O que torna Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria tão memorável é que ele não quer que você goste dele. Ele quer que você reconheça algo. Quer que você enxergue uma verdade que a sociedade costuma esconder; a de que há pessoas vivendo em estados permanentes de sobrecarga, sustentando mundos inteiros nas costas, enquanto todo mundo ao redor finge que isso é normal. E mais, quer que você perceba que a empatia tem limites, e que a ausência de apoio não é uma “fase”, é uma violência cotidiana.
No fim, o filme fica na cabeça não porque seja agradável, mas porque é preciso. Ele não oferece uma narrativa confortável, e nem tenta “equilibrar” Linda para que o público se sinta moralmente seguro. Ao contrário; ele aposta no desconforto como ferramenta de honestidade. E Rose Byrne, nesse sentido, não interpreta uma personagem — ela expõe uma ferida. Uma ferida social, psicológica, íntima. Uma ferida que, depois do filme, você talvez não consiga mais fingir que não existe.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria já está disponível nos cinemas.
Avaliação - 9/10
Parabéns pelo texto. Eu amei esse filme, e fiquei muito tocado com a sensibilidade com que você, como homem, conseguiu compreendê-lo.
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