O dia em que a "América" teve que ouvir em espanhol

Divulgação | NFL

• Por Alisson Santos 

Existe um tipo de acontecimento cultural que, à primeira vista, parece só entretenimento. Um show bem produzido, uma sequência de hits, coreografias, luzes, câmeras impecáveis. Mas por baixo dessa superfície existe outra coisa, mais difícil de medir e muito mais poderosa; o deslocamento simbólico. O instante em que um país inteiro — e, por extensão, o mundo — é obrigado a aceitar que certas portas já não podem ser fechadas. O show do Bad Bunny no Super Bowl foi isso. Não foi apenas uma apresentação. Foi um reposicionamento.

Porque o Super Bowl não é só futebol americano. É um ritual. Um evento em que os Estados Unidos não apenas celebram um esporte, mas encenam para si mesmos e para o planeta uma ideia de grandeza cultural. O intervalo, historicamente, sempre foi o palco do que a indústria considera “o centro” do entretenimento; a validação máxima do mainstream, a consagração de uma estética, de uma linguagem, de um repertório que, por décadas, pareceu ter uma regra implícita. Para estar ali, era preciso representar uma América confortável, reconhecível, universal no sentido mais estreito da palavra. E esse “universal”, quase sempre, vinha com um idioma, um padrão, um filtro.

Bad Bunny subiu naquele palco e não aceitou esse filtro. E isso é o que torna o momento tão grande. Ele não foi ao Super Bowl para se adaptar. Ele não tentou suavizar a própria identidade para caber no molde. Não foi um latino “traduzido” para ser aceito. Ele fez o contrário; obrigou o molde a se dobrar. Cantou em espanhol sem pedir desculpas. Carregou o show com códigos visuais, corporais e sonoros que pertencem a uma história específica, a uma ilha específica, a uma diáspora específica, e ainda assim fez tudo soar como a coisa mais inevitável do mundo. Como se dissesse, sem dizer; vocês estão atrasados. Isso já é o presente.

A reação ao show deixou tudo ainda mais claro. Porque o sucesso foi enorme, a repercussão foi massiva, mas o incômodo também apareceu. E o incômodo sempre é revelador. Quando alguém reclama que “não entendeu” as letras, não está falando de compreensão literal. Está falando de hierarquia. Está dizendo, ainda que não perceba, que o centro do palco deveria continuar pertencendo a uma cultura que ele considera padrão. É um desconforto que nasce não do espanhol em si, mas da perda de monopólio. O que incomoda não é a música. É o fato de que, por alguns minutos, o maior palco da América não foi moldado para tranquilizar o público dominante. Foi moldado para celebrar outra coisa.

E essa “outra coisa” não é pequena. A cultura latina sempre esteve dentro dos Estados Unidos. Não como visita, mas como presença estrutural. Está no trabalho, na economia, nas ruas, na culinária, nos bairros, na política, no esporte, na fé, no modo como cidades inteiras respiram. Mas por muito tempo essa presença foi tratada como uma força útil, porém periférica. Uma contribuição aceita desde que ficasse no lugar certo; o lugar do tempero, do colorido, do “extra”. O lugar do que enriquece, mas não lidera. O show do Bad Bunny destruiu essa lógica diante de milhões de pessoas. Ali, a cultura latina não era um detalhe. Era o centro.

E isso tem um peso histórico porque a indústria sempre soube fazer uma distinção cruel; existe o artista latino que é “aceito” e existe o artista latino que é soberano. O aceito é aquele que aprende a se moldar, que troca o idioma, que suaviza o sotaque, que negocia a própria identidade para caber na prateleira. O soberano é aquele que não negocia nada e, ainda assim, domina. Bad Bunny não é um produto latino embalado para parecer americano. Ele é um fenômeno global que fez o próprio evento americano parecer menor quando se recusa a acompanhar o mundo. Isso muda tudo, porque a mensagem é simples e brutal; o mercado não manda mais sozinho. A cultura não obedece mais do mesmo jeito. O público global já decidiu que o “universal” não pertence a um idioma.

O show, portanto, foi muito mais do que um triunfo individual. Foi uma confirmação de época. O espanhol não apareceu no Super Bowl como exotismo. Apareceu como realidade. Como idioma interno, cotidiano, inevitável. E essa inevitabilidade é o que torna o momento tão poderoso. Bad Bunny não estava “levando” o espanhol para os Estados Unidos. Ele estava devolvendo ao palco uma parte do país que sempre esteve ali, mas que nem sempre foi reconhecida como digna de protagonismo.

No fim, talvez a imagem mais forte seja justamente essa; o Super Bowl, que sempre foi um espelho cuidadosamente controlado da identidade americana, refletiu uma América que muita gente insiste em fingir que não existe. Uma América múltipla, híbrida, atravessada por fronteiras culturais que já ruíram há décadas. E quando esse espelho muda, não é só a música que muda. É a narrativa.

O show do Bad Bunny não foi uma homenagem à cultura latina. Foi uma constatação tardia. Um reconhecimento que chega depois de anos de resistência, apagamento e concessões exigidas. E, ao mesmo tempo, foi um aviso; o futuro não vai pedir licença. A cultura latina não está mais batendo na porta do mainstream. Ela já entrou, já sentou, já tomou o controle do som e fez o mundo inteiro dançar, inclusive aqueles que juravam que não queriam.

E quando o maior palco dos Estados Unidos ecoa em espanhol, o que muda não é a cultura latina. O que muda é a ideia de quem tem o direito de ser centro. E esse tipo de mudança, uma vez que acontece, não volta atrás.

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