| Divulgação | O2 Play |
• Por Alisson Santos
O cinema brasileiro raramente se aventura em experiências que tentam redefinir a própria forma de se filmar uma história. Por isso, 2DIE4: 24 Horas no Limite surge como um projeto que chama atenção antes mesmo de o espectador se sentar na poltrona. Dirigido por André Abdala e Salomão Abdala, o longa parte de uma premissa simples — acompanhar um piloto durante uma das corridas mais extenuantes do automobilismo mundial — mas a transforma em uma proposta cinematográfica ousada que mistura documentário, experiência sensorial e tensão dramática construída a partir de eventos reais.
Inspirado pela lendária corrida das 24 Horas de Le Mans, o filme acompanha o piloto brasileiro Felipe Nasr ao longo de um dos desafios mais extremos do esporte a motor. Ao contrário da maioria das produções sobre automobilismo, porém, a obra evita os caminhos tradicionais do gênero. Não há atores interpretando versões romantizadas dos pilotos, não há reconstruções dramáticas, entrevistas didáticas ou explicações extensas sobre regras e estratégias. Em vez disso, o filme aposta em algo mais radical; registrar a realidade da corrida e permitir que a própria dinâmica da prova se transforme em narrativa.
Essa decisão narrativa define o tom da obra. A corrida deixa de ser apenas pano de fundo e se torna o próprio motor dramático do filme. A tensão surge do desgaste físico dos pilotos, da imprevisibilidade das condições da pista, das falhas mecânicas possíveis e da simples brutalidade de manter concentração absoluta por um período de vinte e quatro horas. Ao longo desse percurso, o espectador percebe que o verdadeiro tema do filme não é apenas velocidade, mas resistência — física, psicológica e até existencial.
Outro aspecto que diferencia o projeto é sua ambição técnica. O longa foi concebido desde o início para ser filmado em IMAX, algo inédito no cinema brasileiro. Essa escolha não funciona apenas como um atrativo tecnológico; ela se revela fundamental para a proposta estética do filme. As imagens captadas dentro dos carros, nos boxes e ao longo do circuito ganham uma escala monumental que transforma a experiência da corrida em algo quase visceral. O rugido dos motores, a vibração do chassi e a sensação de velocidade parecem invadir a sala de cinema. Em diversos momentos, o filme não parece apenas mostrar a corrida — ele coloca o espectador dentro dela.
Essa imersão é reforçada por um trabalho sonoro particularmente eficaz. O som do motor não é apenas ruído mecânico; ele se torna uma espécie de trilha rítmica que conduz a narrativa. Misturam-se a ele a respiração abafada dentro do capacete, as instruções transmitidas pelo rádio da equipe e os instantes de silêncio quase desconfortáveis quando o carro para nos boxes. A experiência sonora contribui para criar uma sensação constante de tensão, como se qualquer pequeno erro pudesse transformar a corrida em desastre.
Visualmente, o filme também encontra momentos surpreendentes de beleza. Faróis cortando a madrugada, reflexos de chuva sobre o asfalto e faíscas metálicas surgindo nas curvas transformam a corrida em algo quase hipnótico. Existe uma estética curiosa na forma como a câmera observa o diálogo entre máquina e corpo humano. O piloto se torna parte do carro, e o carro, por sua vez, parece adquirir uma personalidade própria. Em muitos momentos, a velocidade se transforma em linguagem cinematográfica.
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Ao mesmo tempo, essa escolha estética traz consigo algumas limitações narrativas. A ausência de entrevistas ou contextualizações mais profundas pode dificultar a conexão emocional de parte do público com os personagens reais da história. Para quem não acompanha automobilismo, certos momentos da corrida podem parecer repetitivos ou difíceis de compreender dentro de uma lógica dramática mais tradicional. Nesse sentido, 2DIE4: 24 Horas no Limite acaba se revelando também uma experiência um pouco nichada. O filme tende a dialogar de forma mais direta com quem já tem algum interesse pelo universo do automobilismo ou pela própria corrida de Le Mans. Para esse público, cada detalhe da pista, cada estratégia de box e cada mudança de ritmo da prova carregam tensão e significado. Já para espectadores casuais que buscam uma narrativa mais convencional ou personagens mais desenvolvidos, a experiência pode parecer distante ou até contemplativa demais.
Ainda assim, existe algo fascinante na forma como o longa tenta acessar a dimensão psicológica do piloto. Dirigir em alta velocidade por horas seguidas exige uma concentração quase sobre-humana. O cansaço se acumula, a visão se torna mais difícil durante a noite, a tensão aumenta a cada ultrapassagem. O filme observa esses momentos de desgaste com um olhar quase clínico. Aos poucos, o espectador percebe que o verdadeiro adversário do piloto não é apenas o carro ao lado, mas o próprio limite humano.
Essa abordagem transforma a corrida em algo próximo de um estudo sobre obsessão. O automobilismo aparece não apenas como esporte, mas como uma forma extrema de dedicação. Para alcançar aquele nível de desempenho, é preciso aceitar um grau de risco e desgaste que beira o irracional. O filme parece interessado justamente nesse ponto em que paixão e perigo se confundem.
Como experiência cinematográfica, o resultado é singular dentro do panorama nacional. O cinema brasileiro costuma se destacar pela força de seus dramas humanos e sociais, mas raramente investe em espetáculos técnicos dessa magnitude. Nesse sentido, o projeto demonstra que é possível ampliar as ambições formais da produção nacional sem abandonar uma identidade própria.
Talvez o maior mérito de 2DIE4: 24 Horas no Limite seja justamente esse; sua ambição é difícil de ignorar. Ao transformar uma corrida real em experiência sensorial e reflexão sobre limites humanos, a obra se coloca em um espaço raro entre documentário esportivo e cinema experimental. No fim, o filme deixa uma sensação curiosa. Não se trata apenas de assistir a uma corrida, mas de sentir o peso físico e mental que ela impõe. Quando os motores finalmente silenciam, o espectador percebe que também percorreu um pequeno percurso de resistência dentro da sala de cinema. E talvez seja exatamente essa a intenção dos diretores; mostrar que, no limite entre homem e máquina, a velocidade pode se transformar em linguagem cinematográfica.
2DIE4: 24 Horas no Limite estreia em 30 de abril nos cinemas.
Avaliação - 7/10
Quero muito assistir.
ResponderExcluirGostei da crítica.
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