Natália Maia reflete sobre sua estreia na direção com 'A Estranha Familiar': "A materialização de um desejo muito caro"
| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
A premiada roteirista Natália Maia, vencedora do Prêmio Grande Otelo pelo aclamado Pacarrete, conversou recentemente com o jornalista Alisson Santos, da MDH Entretenimento, para detalhar os bastidores de seu mais novo projeto; o longa-metragem A Estranha Familiar. O filme, um thriller político ambientado no interior do Ceará, marca sua estreia como diretora solo e investiga relações de poder, conflitos por justiça e laços familiares sob uma forte perspectiva feminina.
Durante a extensa e enriquecedora entrevista, Natália revisitou o longo caminho de desenvolvimento da obra, enalteceu a importância do fomento à cultura nacional e refletiu sobre a troca viva e pulsante com um elenco repleto de estrelas do audiovisual nordestino.
Abaixo, detalhamos os principais pontos e trechos da conversa, que evidenciam a paixão da cineasta pelo projeto.
A GÊNESE DO PROJETO E O PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
A concepção de A Estranha Familiar não aconteceu da noite para o dia. A diretora explicou que a semente do filme foi plantada há mais de oito anos, ganhando forma através de laboratórios de desenvolvimento fundamentais para sua carreira.
"Esse é um projeto que eu carrego desde 2018, assim, vem sendo desenvolvido desde 2018 (...) O desenvolvimento dele se deu dentro de um laboratório aqui do Ceará que chama laboratório Cena 15, o laboratório de cinema da escola Porto Iracema das Artes, que é um laboratório super importante para minha formação em cinema."
A cineasta fez questão de destacar que a materialização do longa é um reflexo direto do apoio de políticas públicas voltadas à democratização do audiovisual, em especial editais focados em mulheres cineastas:
"É muito curioso porque quando você é contemplado no edital, que é o caso desse filme que foi financiado por uma política pública para diretoras estreantes... tem esse valor enorme, né? O edital Ruth de Souza, esse lugar de valorizar e de fomentar mesmo projetos para que diretoras mulheres consigam fazer seus primeiros filmes."
O DESAFIO DA DIREÇÃO E A CONSTRUÇÃO COLETIVA COM O ELENCO
Assumir a cadeira de direção de um longa-metragem trouxe desafios inéditos, mas também uma sensação de realização indescritível para Natália. Segundo ela, ver a obra tomar forma no set de filmagem é uma experiência profundamente intensa:
"Realizar esse filme representa mesmo a materialização de um desejo muito caro de contar essa história, que é a história de A Estranha Familiar, de trazer também essas narrativas femininas para a tela e de fato dirigir um longa-metragem, que por si só é uma experiência muito transformadora."
O filme acompanha a jornada da juíza Lavínia, interpretada pela atriz Georgina Castro, que retorna à sua cidade natal e se vê no meio de um turbilhão político envolvendo sua irmã, uma radialista, e a prefeita local. Natália rasgou elogios à protagonista e ao elenco, destacando o ambiente de criação fluído no set:
"A gente teve com a Georgina, por exemplo, uma parceria muito grande de entrega, de contato mesmo com esse material. Georgina é uma atriz muito experiente, muito talentosa, muito concentrada, e ela trouxe tudo isso pra personagem... Ela elevou muito o texto, ela elevou as cenas."
Por acumular também a função de roteirista, a diretora revelou que permitiu que o texto respirasse e se moldasse aos atores durante os ensaios:
"Eu falei desde o começo: 'Eu tenho a felicidade aqui de ser roteirista também do projeto, então eu tenho como incorporar de maneira muito ativa no próprio roteiro o que a gente for descobrindo também em cena, nas falas. Se vocês sentirem que alguma coisa não tá cabendo, vamos tentar trazer, vamos tentar entender esses desenhos de cena'."
A CONSTRUÇÃO DA CIDADE FICTÍCIA E TEMÁTICAS UNIVERSAIS
A trama se passa em uma cidade interiorana que, embora fictícia na narrativa, carrega na tela a verdadeira essência das paisagens do estado do Ceará. A diretora compartilhou uma curiosidade de bastidor sobre a criação desse universo geográfico:
"Essa cidade fictícia ela foi composta por seis cidades diferentes. A gente filmou em seis cidades aqui do Ceará, incluindo Fortaleza, mas assim; Pacatuba, Itaitinga, Aquiraz, Caucaia, Maranguape... então é muito legal ver também essa relação com essas paisagens, tentar construir aí uma cidade a partir disso, foi um desafio massa."
Por fim, Natália refletiu sobre o peso da narrativa e como A Estranha Familiar consegue dialogar de maneira universal com o conturbado momento histórico e político contemporâneo:
"Fala realmente de questões super contemporâneas que a gente tá vivendo, não só no Nordeste, não só no Brasil, mas eu acho que nessa crise também mundial. A gente toca em certas questões que envolvem toda essa relação de poder, que eu acho que é bem pungente assim discutir."
Atualmente em fase de pós-produção e montagem, A Estranha Familiar ainda não possui data de estreia confirmada, mas já se consolida como uma das apostas promissoras do cinema cearense e nordestino para as telonas nos próximos meses.
Assista à entrevista completa no nosso canal do YouTube
É interessante ver como um projeto pode levar tantos anos para amadurecer até finalmente chegar às filmagens, e a forma como ela fala do desenvolvimento dentro dos laboratórios e do apoio das políticas públicas ajuda a entender melhor como esses filmes independentes conseguem existir.
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