Crítica | A Mensageira - Um filme que prefere observar antes de explicar e que encontra, nos pequenos silêncios entre as palavras, a verdadeira força de sua história.

Divulgação | Filmes do Estação

• Por Alisson Santos 

Existe um tipo de cinema que parece sussurrar para o espectador em vez de tentar convencê-lo. Um cinema que não se sustenta em grandes reviravoltas narrativas ou em acontecimentos espetaculares, mas em atmosferas, silêncios e pequenos deslocamentos na percepção da realidade. A Mensageira, dirigido por Iván Fund, pertence exatamente a essa tradição delicada do cinema contemplativo latino-americano. Trata-se de um filme que prefere observar a vida com paciência antes de explicá-la — e que encontra, nesse gesto, sua força dramática.

Premiado com o Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim, o longa se constrói a partir de uma premissa simples, mas carregada de estranheza. A história acompanha Anika, uma menina que supostamente possui um dom peculiar; ela afirma ser capaz de escutar e traduzir aquilo que os animais querem dizer. O que poderia soar como uma fantasia infantil ganha rapidamente contornos ambíguos quando percebemos que os adultos ao redor da garota transformam essa habilidade em um pequeno negócio itinerante. Pessoas passam a procurar a menina na esperança de que ela possa intermediar um diálogo impossível entre humanos e seus animais, enquanto os responsáveis por Anika organizam essa dinâmica como um meio de sobrevivência.

Iván Fund constrói o filme justamente nesse espaço de dúvida. Em nenhum momento a narrativa confirma se o dom da garota é real, imaginado ou simplesmente encenado. Essa suspensão constante da certeza é o que move a experiência do espectador. Quanto mais acompanhamos a jornada da personagem, mais nos perguntamos se estamos diante de um milagre silencioso ou de um mecanismo de exploração cuidadosamente mantido pelos adultos. A beleza do filme está justamente em nunca resolver essa tensão.

Visualmente, A Mensageira reforça essa atmosfera de estranhamento através de sua fotografia em preto e branco, que imprime às imagens uma qualidade quase atemporal. As paisagens rurais que cercam os personagens parecem suspensas em uma espécie de presente indefinido, como se estivéssemos observando um mundo que existe à margem da modernidade. A câmera de Fund trabalha com enorme paciência, registrando pequenos gestos, olhares e deslocamentos com uma atenção quase documental. Há momentos em que a narrativa parece simplesmente parar para observar Anika interagir com o ambiente ao redor, como se o filme estivesse tentando capturar algo extremamente frágil antes que desapareça.

Essa escolha estética reforça uma sensação constante de itinerância. Os personagens parecem sempre em movimento, transitando entre lugares que nunca se tornam verdadeiramente permanentes. Essa vida provisória cria um pano de fundo silencioso para o conflito central da história; a forma como a infância pode ser apropriada e moldada pelas necessidades dos adultos.

Por trás do elemento fantástico, o filme revela um olhar profundamente humano — e por vezes desconfortável — sobre essa dinâmica. Anika não é tratada apenas como uma criança. Aos poucos, percebemos que ela se torna uma espécie de ferramenta dentro daquele pequeno ecossistema familiar. Seu suposto dom passa a sustentar economicamente os adultos ao seu redor, o que gera uma ambiguidade moral difícil de ignorar. Não sabemos se a menina acredita realmente no que faz ou se aprendeu a acreditar porque isso mantém a estrutura que a cerca funcionando.

Divulgação | Filmes do Estação

Essa indefinição transforma a personagem em algo simultaneamente mágico e trágico. Anika pode ser vista como alguém dotado de uma sensibilidade extraordinária ou como uma criança que foi levada a assumir um papel que talvez nem compreenda completamente. A atuação de Anika Bootz contribui decisivamente para esse efeito. Sua presença em cena é marcada por um minimalismo impressionante. Ela raramente verbaliza emoções de forma explícita, preferindo expressar estados internos através de silêncios e pequenos gestos. Essa economia dramática torna a personagem ainda mais enigmática, obrigando o espectador a preencher os espaços vazios da narrativa com suas próprias interpretações.

O elenco adulto acompanha esse registro naturalista, especialmente nas performances de Mara Bestelli e Marcelo Subiotto, que interpretam figuras ambíguas, simultaneamente protetoras e exploradoras. Fund evita julgamentos sobre esses personagens. Eles não aparecem como vilões claros, mas como indivíduos tentando sobreviver dentro de um sistema precário, onde até mesmo a inocência pode acabar se transformando em recurso.

Nesse sentido, o elemento fantástico do filme ganha uma dimensão simbólica poderosa. A capacidade de Anika de “ouvir” os animais pode ser interpretada de várias maneiras, mas talvez sua função mais interessante seja a de revelar um contraste silencioso entre dois mundos. Enquanto os adultos vivem presos a interesses, negociações e pequenas manipulações, os animais existem de forma direta, instintiva, sem disfarces. A garota surge então como uma espécie de ponte entre essas duas dimensões, alguém que parece compreender aquilo que os humanos já desaprenderam a escutar.

Essa abordagem faz com que A Mensageira se distancie deliberadamente de estruturas narrativas convencionais. O filme não se organiza em torno de grandes reviravoltas ou de um clímax tradicional. Em vez disso, Iván Fund constrói uma narrativa que se desenvolve como um fluxo de observações e encontros, permitindo que o espectador se aproxime gradualmente daquele universo. Para alguns, essa recusa de explicações claras pode soar frustrante. Para outros, é justamente o que transforma o longa em uma experiência cinematográfica singular.

Ao final, A Mensageira se revela menos interessado em responder perguntas do que em provocar um estado de contemplação. O filme parece sugerir que certos mistérios — especialmente aqueles ligados à infância, à imaginação e à empatia — talvez não devam ser completamente resolvidos. Nesse gesto, Iván Fund cria uma obra delicada, silenciosa e profundamente ambígua, que encontra beleza justamente naquilo que permanece indefinido. Em um cinema cada vez mais dominado por narrativas explícitas e respostas rápidas, A Mensageira surge como um raro exercício de escuta. Um filme que prefere observar antes de explicar e que encontra, nos pequenos silêncios entre as palavras, a verdadeira força de sua história.

A Mensageira estreia em 19 de março nos cinemas.

Avaliação - 7/10

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