Crítica | Uma Segunda Chance - O filme possui momentos genuinamente tocantes, especialmente quando se concentra na relação entre memória e perdão.
| Divulgação | Universal Pictures |
• Por Alisson Santos
A popularidade recente das adaptações literárias de Colleen Hoover no cinema consolidou um tipo específico de melodrama contemporâneo; histórias sobre erros irreparáveis, culpa persistente e a busca quase desesperada por redenção. Dentro desse movimento surge Uma Segunda Chance, dirigido por Vanessa Caswill, que tenta ir além do romance convencional e explorar as consequências emocionais de um passado impossível de apagar.
O filme acompanha Kenna Rowan, interpretada por Maika Monroe, uma jovem que retorna à sua cidade natal depois de passar quase sete anos na prisão por um erro trágico que causou a morte de seu namorado. Ao voltar para Wyoming, ela descobre que reconstruir a própria vida é muito mais difícil do que simplesmente recomeçar; sua filha, Diem, foi criada pelos avós paternos, que se recusam a permitir qualquer aproximação entre mãe e filha. Nesse cenário de rejeição e desconfiança, Kenna encontra apoio inesperado em Ledger, vivido por Tyriq Withers, um ex-jogador da NFL que mantém ligações profundas com a família da criança.
O ponto de partida da narrativa já indica que Uma Segunda Chance pretende operar mais como um drama sobre responsabilidade emocional do que como um romance tradicional. Diferentemente de outras adaptações da autora, nas quais o relacionamento amoroso costuma ocupar o centro da trama, aqui o verdadeiro conflito gira em torno da impossibilidade de apagar o passado. Kenna não luta apenas por afeto ou aceitação — ela tenta provar que ainda merece existir no mundo que ajudou a destruir.
Caswill constrói essa jornada utilizando uma estrutura fragmentada que alterna presente e memória. Flashbacks do relacionamento com Scotty (interpretado por Rudy Pankow) e lembranças do período na prisão surgem como fragmentos emocionais que ajudam a entender a culpa que define a protagonista. Essa abordagem reforça um dos temas centrais da obra; o passado não é apenas lembrado, ele continua moldando cada escolha no presente.
A atuação de Maika Monroe é, sem dúvida, o elemento mais consistente do filme. Conhecida por trabalhos principalmente no terror, a atriz traz para Kenna uma mistura convincente de fragilidade e resistência. Há uma contenção emocional em sua interpretação que impede a personagem de se tornar apenas uma figura melodramática. Kenna é alguém quebrada, mas não completamente destruída — e essa nuance sustenta boa parte do impacto dramático da narrativa.
O relacionamento entre Kenna e Ledger surge nesse contexto como um espaço de respiro emocional. O personagem de Withers não funciona exatamente como o tradicional “par romântico salvador”; ele é também alguém preso ao passado, dividido entre empatia e lealdade à família do amigo morto. O romance, portanto, não avança como uma história de amor idealizada, mas como um vínculo construído a partir de duas pessoas que carregam o mesmo trauma por motivos diferentes.
Mesmo assim, o filme enfrenta dificuldades claras quando tenta equilibrar seus elementos dramáticos. Depois de um primeiro ato relativamente poderoso, a narrativa passa a repetir conflitos já estabelecidos — especialmente no que diz respeito à rejeição social enfrentada por Kenna. O roteiro, escrito pela própria Hoover ao lado de Lauren Levine, parece frequentemente hesitar entre aprofundar o drama psicológico ou recorrer a soluções melodramáticas mais previsíveis.
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Essa indecisão afeta diretamente o ritmo da obra. Embora o filme tenha cerca de duas horas de duração, muitos de seus conflitos se resolvem de maneira rápida demais, enquanto outros são prolongados além do necessário. Em alguns momentos, a trama parece girar em círculos emocionais, repetindo as mesmas tensões sem necessariamente ampliar sua complexidade.
Ainda assim, seria injusto reduzir Uma Segunda Chance a apenas mais um melodrama formulaico. O filme possui momentos genuinamente tocantes, especialmente quando se concentra na relação entre memória e perdão. Há uma ideia interessante que atravessa toda a narrativa; a de que pedir perdão não significa necessariamente recebê-lo, e que algumas feridas permanecem abertas mesmo quando tentamos cicatrizá-las.
Visualmente, a direção aposta em uma estética de drama intimista. As paisagens da pequena cidade americana — filmadas com uma fotografia que privilegia tons frios e silenciosos — reforçam o isolamento da protagonista. A trilha sonora melancólica e a atmosfera contemplativa ajudam a criar uma sensação constante de saudade, como se o filme inteiro fosse atravessado por lembranças que insistem em permanecer vivas.
No panorama das adaptações recentes da autora, Uma Segunda Chance acaba ocupando um lugar curioso. Não possui o apelo romântico mais imediato de É Assim que Acaba, nem a intensidade dramática de Se Não Fosse Você. Ainda assim, encontra sua força justamente nas pequenas emoções. É até por isso foi a adaptação que eu mais gostei da autora.
Talvez o maior mérito do filme seja reconhecer que a ideia de “segunda chance” raramente é simples. O passado não desaparece, as perdas não se apagam e a culpa não se dissolve com facilidade. O que resta, muitas vezes, é apenas a tentativa — imperfeita, dolorosa e humana — de seguir em frente.
E é justamente nessa tentativa que Uma Segunda Chance encontra sua verdade emocional. Não é um filme perfeito, nem particularmente inovador, mas quando abandona as fórmulas mais previsíveis e se concentra na fragilidade de seus personagens, ele revela algo raro; a compreensão de que algumas histórias não são sobre recomeços grandiosos, mas sobre a difícil arte de aprender a viver com aquilo que não pode ser desfeito.
Uma Segunda Chance estreia em 19 de março nos cinemas.
Avaliação - 6/10
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