Crítica | O Senhor dos Mortos - Ele é, frequentemente, mais interessante de ser discutido do que de ser assistido.
| Divulgação | CineSesc |
• Por Alisson Santos
Poucos cineastas possuem uma filmografia tão coerente — e ao mesmo tempo tão inquieta — quanto a de David Cronenberg. Desde os anos 1980, o diretor canadense construiu uma obra marcada por obsessões muito específicas; o corpo humano como território de mutação, o desejo como força destrutiva e a tecnologia como extensão perturbadora da mente e da carne. Em clássicos como Videodrome, A Mosca e Crash: Estranhos Prazeres, Cronenberg parecia fascinado pela ideia de que o corpo não é algo estável — mas um sistema em constante transformação.
Em O Senhor dos Mortos, no entanto, esse fascínio retorna sob uma perspectiva mais íntima e silenciosa. O horror já não está exatamente na mutação da carne, mas naquilo que acontece depois dela; a decomposição, o luto e a incapacidade humana de aceitar o desaparecimento.
A premissa do filme é tipicamente cronenberguiana — estranha, provocadora e carregada de implicações filosóficas. O protagonista Karsh, interpretado por Vincent Cassel, é um empresário que, devastado pela morte da esposa Becca (vivida por Diane Kruger), desenvolve uma tecnologia chamada GraveTech. O sistema permite que familiares acompanhem, em tempo real, a decomposição dos corpos enterrados por meio de mortalhas digitais e câmeras instaladas nos túmulos.
A ideia é perturbadora — e profundamente coerente com o universo do diretor. Se o cinema de Cronenberg sempre tratou o corpo como uma interface entre o humano e o tecnológico, aqui ele simplesmente estende essa lógica para além da vida. O problema é que, apesar da força conceitual, o filme raramente consegue transformar essa premissa em uma experiência dramática realmente envolvente.
Existe algo fascinante na forma como O Senhor dos Mortos tenta imaginar o luto na era dos dados. Em um mundo onde cada momento da vida pode ser registrado, compartilhado e arquivado, Cronenberg propõe uma pergunta incômoda; por que a morte deveria permanecer invisível? Karsh responde a essa pergunta com uma solução radical. Ao permitir que familiares observem a decomposição de seus entes queridos, ele transforma o processo natural da morte em algo monitorável — quase um serviço digital.
Essa ideia abre um campo enorme de reflexão. O filme sugere que até o luto pode ser transformado em produto. O cemitério da GraveTech funciona menos como um espaço sagrado e mais como uma espécie de plataforma tecnológica da morte, onde corpos viram conteúdo e a decomposição se torna algo observável. É uma proposta inquietante, especialmente porque parece cada vez menos absurda. Em uma cultura obcecada por registro e vigilância, a morte talvez seja apenas o último território ainda não totalmente colonizado pela tecnologia. O filme acerta quando se aproxima dessas reflexões. Infelizmente, ele passa grande parte do tempo se afastando delas.
A trama ganha contornos de thriller quando vários túmulos do cemitério tecnológico são vandalizados, incluindo o de Becca. A partir daí, o filme introduz elementos de conspiração envolvendo espionagem industrial, hackers e interesses corporativos. Em teoria, essa linha narrativa poderia acrescentar tensão ao filme. Na prática, porém, ela acaba diluindo o impacto da ideia central.
| Divulgação | CineSesc |
Cronenberg parece menos interessado em desenvolver o suspense do que em explorar diálogos carregados de reflexões filosóficas sobre tecnologia, privacidade e mortalidade. O resultado é um filme que frequentemente parece mais um ensaio conceitual do que uma narrativa cinematográfica plenamente desenvolvida. Há longas sequências em que personagens discutem ideias em vez de vivê-las. E, aos poucos, a sensação se instala; a premissa do filme continua mais provocadora do que o próprio filme.
Um dos elementos mais curiosos da história surge quando Karsh se aproxima de Terry, a irmã gêmea de sua falecida esposa — também interpretada por Diane Kruger. Esse detalhe cria uma dimensão psicológica potencialmente perturbadora. A presença da gêmea sugere a possibilidade de uma substituição impossível; uma tentativa desesperada de reconstruir o amor perdido através de uma duplicação imperfeita.
Cronenberg já explorou inúmeras vezes a relação entre desejo e destruição. Aqui, o tema retorna de forma mais melancólica do que visceral. O relacionamento entre Karsh e Terry carrega um desconforto constante, como se o protagonista estivesse tentando ressuscitar o passado por meio de uma simulação emocional. No entanto, mesmo essa dinâmica nunca alcança a intensidade dramática que poderia ter. Ela permanece estranhamente distante, mesmo com envolvimento explicitamente sexual.
Visualmente, o filme segue uma estética minimalista. A fotografia privilegia ambientes limpos, metálicos e frios. O cemitério tecnológico parece mais um laboratório do que um espaço de descanso eterno. Essa escolha dialoga bem com o tema do filme; a morte observada como experimento. Mas o estilo austero também contribui para uma sensação de distanciamento emocional. Diferentemente de obras como A Mosca, em que o horror físico era acompanhado por uma forte tragédia humana, aqui tudo parece excessivamente controlado.
Talvez o aspecto mais frustrante de O Senhor dos Mortos seja justamente perceber o potencial da ideia que ele carrega. Poucos cineastas seriam capazes de imaginar algo tão provocador quanto transformar o processo de decomposição em um serviço tecnológico. Mas o filme nunca encontra o equilíbrio entre reflexão filosófica e narrativa dramática. Ele é, frequentemente, mais interessante de ser discutido do que de ser assistido.
Cronenberg continua sendo um diretor fascinante, capaz de levantar perguntas que poucos filmes sequer ousariam formular. E a obra também carrega uma dimensão pessoal importante, já que o cineasta escreveu o roteiro após a morte de sua esposa, o que dá ao filme uma camada autobiográfica evidente. Isso, no entanto, não salva o filme de ser frio, disperso e estranhamente inerte.
O Senhor dos Mortos terá uma sessão na Mostra Farol, do CineSesc, no dia 21 de março (sábado), às 20h.
Avaliação - 5/10
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