Crítica | O Testamento de Ann Lee - O resultado é um filme que provoca fascínio e estranhamento ao mesmo tempo, uma obra que se constrói menos como narrativa convencional e mais como um transe cinematográfico.

Divulgação | 20th Century Studios

• Por Alisson Santos 

O Testamento de Ann Lee, dirigido por Mona Fastvold e protagonizado por Amanda Seyfried, é um daqueles filmes raros que parecem existir fora das expectativas tradicionais do cinema contemporâneo. Trata-se de uma obra que não busca apenas narrar a trajetória histórica de uma personagem real, mas transformar essa trajetória em uma experiência sensorial, espiritual e quase ritualística. Inspirado na vida de Ann Lee, líder religiosa do século XVIII e fundadora do movimento Shaker, o longa se move entre biografia, musical e drama histórico, mas recusa a estabilidade de qualquer um desses gêneros. O resultado é um filme que provoca fascínio e estranhamento ao mesmo tempo, uma obra que se constrói menos como narrativa convencional e mais como um transe cinematográfico. 

Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que não pretende tratar sua protagonista de maneira simplificada. A Ann Lee que vemos em cena não é apenas uma líder espiritual, nem somente uma figura histórica reinterpretada pelo cinema. Ela surge como uma entidade complexa, formada pela mistura de sofrimento pessoal, fervor religioso e desejo radical de transformação social. A trajetória da personagem passa por uma sucessão de experiências traumáticas — incluindo perdas devastadoras e conflitos religiosos — que acabam moldando sua visão espiritual e sua liderança sobre a comunidade Shaker. A narrativa acompanha esse processo de maneira quase hipnótica, revelando como o sofrimento individual se converte em dogma coletivo, e como a fé pode nascer tanto da esperança quanto da dor.

O grande mérito do filme está em compreender que a história de Ann Lee não poderia ser contada de maneira convencional. Fastvold opta por transformar o filme em uma espécie de musical espiritual, onde música, canto e movimento são parte essencial da narrativa. Os rituais religiosos da comunidade Shaker são representados por coreografias e cânticos baseados em hinos reais da seita, criando sequências que oscilam entre o êxtase religioso e uma espécie de teatro corporal primitivo. Em muitos momentos, essas cenas parecem mais próximas de uma performance artística do que de um musical tradicional. Não há números grandiosos no sentido hollywoodiano; em vez disso, há uma corporalidade quase febril, como se cada gesto fosse uma tentativa de tocar o divino. Eu gosto particularmente dessas cenas porque elas conseguem transmitir algo que raramente aparece em filmes sobre religião; a dimensão física da fé. 

Essa abordagem estética faz com que o filme adquira uma atmosfera profundamente teatral e sensorial. A câmera parece observar os corpos em estado de devoção, registrando movimentos repetitivos, cantos coletivos e expressões que variam entre êxtase e sofrimento. O espectador é convidado a experimentar a espiritualidade daquela comunidade em vez de apenas compreendê-la racionalmente. Esse é talvez o gesto mais radical da diretora; não julgar aquela fé, mas permitir que ela se manifeste diante do público com toda sua intensidade. 

Grande parte dessa força vem da atuação de Amanda Seyfried. Em um papel que exige uma entrega emocional extrema, a atriz constrói uma personagem que nunca se reduz a caricatura. Sua Ann Lee oscila constantemente entre a fragilidade humana e uma presença quase profética. Há momentos em que ela parece apenas uma mulher devastada pelas perdas da vida; em outros, assume uma postura quase messiânica, como se estivesse realmente convencida de carregar uma missão divina. Seyfried canta, dança, grita e se contorce em cenas de intensidade quase desconfortável, transformando a performance em um verdadeiro ato de exposição emocional. 

Divulgação | 20th Century Studios

A direção de Fastvold reforça esse caráter quase litúrgico da obra. Filmado com uma abordagem visual que valoriza paisagens naturais, interiores austeros e a textura da luz sobre os corpos, o filme cria a sensação de que estamos observando uma comunidade isolada do mundo moderno. Há uma simplicidade estética que dialoga diretamente com os valores Shakers, conhecidos por sua busca por pureza espiritual, igualdade de gênero e vida comunitária baseada no trabalho e no celibato. 

Ao mesmo tempo, o filme não ignora o lado perturbador dessa história. Ao acompanhar o crescimento da comunidade Shaker e a devoção crescente em torno de Ann Lee — considerada por seus seguidores uma espécie de encarnação feminina de Cristo — o roteiro levanta questões inevitáveis sobre o poder dos líderes espirituais e sobre a natureza da fé coletiva. Em alguns momentos, a narrativa parece perguntar silenciosamente até que ponto a devoção é libertadora ou opressiva. A comunidade retratada pode ser vista tanto como uma utopia espiritual quanto como um ambiente de controle ideológico.

Esse equilíbrio entre fascínio e inquietação é o que torna o filme particularmente interessante. Fastvold evita o caminho mais fácil de retratar a religião como fanatismo puro ou como redenção absoluta. Em vez disso, ela observa aquele universo com uma curiosidade quase antropológica. O espectador nunca recebe respostas definitivas sobre quem Ann Lee realmente era; uma visionária, uma líder carismática, uma mulher traumatizada ou uma figura manipuladora. O filme prefere manter todas essas possibilidades coexistindo.

Essa escolha narrativa, contudo, também contribui para um dos problemas da obra; sua duração e ritmo irregular. Com cerca de duas horas e vinte minutos, o filme por vezes parece se alongar além do necessário. A repetição de certos rituais e momentos contemplativos pode provocar uma sensação de exaustão dramática. A experiência se tornou cansativa em determinados trechos, mesmo que o espetáculo visual e musical continue impressionante. Mas talvez essa lentidão faça parte da proposta. Afinal, o filme não quer apenas contar uma história; ele quer simular um processo de imersão espiritual. Assim como os próprios rituais religiosos, a narrativa exige tempo, repetição e paciência para produzir seu efeito. 

No fim, O Testamento de Ann Lee se revela uma obra singular dentro do cinema contemporâneo. Não é um filme fácil, nem particularmente preocupado em agradar grandes públicos. Sua força está justamente nessa ousadia de transformar uma história histórica em um espetáculo sensorial sobre fé, dor e comunidade. Entre momentos de beleza quase transcendental e passagens que beiram o desconforto emocional, o longa constrói um retrato complexo de uma mulher cuja vida continua ecoando séculos depois.

O Testamento de Ann Lee estreia em 12 de março nos cinemas.

Avaliação - 7/10

Comentários

  1. Mayara Duarte7/3/26

    Eu gostei, vi há algum tempo pela Netflix dos pobres kk Quem gosta de cinema mais contemplativo e experimental provavelmente vai se interessar, enquanto quem espera uma narrativa histórica mais tradicional talvez ache cansativo. É um cinema com viés autoral.

    ResponderExcluir

Postar um comentário