Crítica | Ruas da Glória - É um filme sobre pessoas que tentam sobreviver aos próprios abismos.

Divulgação | Retrato Filmes

• Por Alisson Santos 

Entre o romance obsessivo e o retrato social, Ruas da Glória, dirigido por Felipe Sholl, é um filme que opera na zona cinzenta entre desejo e autodestruição. O longa acompanha Gabriel, um jovem que, após uma perda devastadora, abandona sua vida anterior e se muda para o Rio de Janeiro. Lá, sua vida passa a orbitar Adriano, um misterioso garoto de programa que se torna objeto de fascínio — e, pouco a pouco, de ruína. Quando Adriano desaparece, Gabriel mergulha numa investigação que o leva ao coração da prostituição masculina e da noite carioca, numa trajetória que ameaça consumir sua própria identidade.

Mais do que um drama romântico ou um thriller urbano, o filme se constrói como uma descida emocional às zonas mais frágeis do afeto humano. Sholl parece interessado não apenas em narrar um relacionamento destrutivo, mas em explorar o vazio existencial que frequentemente o antecede. Desde suas primeiras cenas, Ruas da Glória deixa claro que não pretende romantizar o amor. Ao contrário; o que vemos é um tipo de paixão febril, quase compulsiva. Gabriel não se apaixona simplesmente por Adriano; ele projeta nele todas as suas carências, medos e fantasias.

Essa dinâmica transforma o romance em algo profundamente assimétrico. Adriano surge como uma figura enigmática, quase espectral — alguém que já parece viver no limite da própria dissolução. Gabriel, por outro lado, representa o olhar de quem chega; curioso, vulnerável e ainda incapaz de compreender as regras daquele submundo.

O resultado é um vínculo marcado por dependência emocional e idealização. Sholl constrói essa relação com uma intensidade física evidente; o filme investe em cenas sensoriais e carnais que transformam o desejo em um elemento narrativo central, como se o erotismo fosse também uma linguagem para falar de desespero e solidão. 

O cenário do filme — especialmente os bairros da Glória, Lapa e Cinelândia — não é apenas um pano de fundo, mas um personagem silencioso. O Rio retratado por Sholl está distante da iconografia turística. Não há cartões-postais, nem a estética solar da cidade vendida ao mundo. Em vez disso, vemos uma geografia emocional; bares escuros, apartamentos precários, ruas noturnas onde encontros e desaparecimentos parecem igualmente possíveis.

Essa escolha estética aproxima o filme de um tipo de realismo urbano que lembra certos dramas europeus contemporâneos. A câmera muitas vezes observa os personagens de perto, capturando seus gestos mais íntimos, como se estivéssemos testemunhando algo que deveria permanecer secreto. Há uma sensação constante de risco — não apenas físico, mas psicológico.

Grande parte da força do filme vem das performances. Caio Macedo constrói Gabriel como alguém que vive permanentemente no limiar entre ingenuidade e autodestruição. Seu personagem é impulsivo, vulnerável e profundamente solitário.

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Alejandro Claveaux, por sua vez, oferece a Adriano uma presença ambígua; sedutora e, ao mesmo tempo, devastada. Ele parece representar uma espécie de futuro possível para Gabriel — um espelho sombrio do que pode acontecer quando a vida se reduz à sobrevivência.

O roteiro também introduz figuras que ampliam o universo emocional do protagonista, como Mônica, dona de um bar e espécie de figura maternal improvisada. Personagens como ela reforçam uma das ideias mais fortes do filme; a noção de que, nas margens sociais, novas formas de família e pertencimento acabam surgindo.

Embora o filme seja frequentemente descrito como um drama LGBTQIA+, reduzir Ruas da Glória a essa etiqueta seria simplificar demais sua proposta. A narrativa está profundamente ligada ao tema do luto; Gabriel chega ao Rio tentando fugir da dor, mas acaba encontrando novas formas de sofrimento.

O que Sholl sugere é que muitas escolhas autodestrutivas não nascem da marginalidade em si, mas de feridas emocionais anteriores. O mergulho de Gabriel naquele universo não é apenas curiosidade ou desejo — é também uma tentativa desesperada de preencher um vazio. Nesse sentido, o filme fala menos sobre prostituição e mais sobre vulnerabilidade.

Se existe uma fragilidade em Ruas da Glória, ela talvez esteja na familiaridade de sua estrutura dramática. Histórias sobre jovens deslocados que se apaixonam em ambientes perigosos não são exatamente novas. Em alguns momentos, o roteiro parece caminhar por trilhas já conhecidas do cinema queer contemporâneo. Mas Sholl compensa essa previsibilidade com sensibilidade emocional. O filme funciona mais pela atmosfera e pela intensidade dos sentimentos do que por reviravoltas narrativas.

Ruas da Glória é um filme sobre pessoas que tentam sobreviver aos próprios abismos. Felipe Sholl constrói um drama íntimo, muitas vezes doloroso, que transforma a noite carioca em palco para uma reflexão sobre desejo, perda e identidade. Não é uma obra confortável — nem pretende ser. O longa prefere mostrar como o amor pode ser, ao mesmo tempo, salvação e precipício. E talvez seja justamente essa ambiguidade que torna o filme tão perturbador; porque, no fundo, Ruas da Glória sugere que todos nós somos capazes de nos perder por amor — apenas mudam as ruas onde isso acontece.

Ruas da Glória estreia em 02 de abril nos cinemas.

Avaliação - 8/10

Comentários

  1. Heitor Trindade17/3/26

    Achei essa crítica bem interessante porque dá para perceber que quem escreveu realmente tentou entender o filme além da superfície. Não fica só falando da história, mas tenta entrar no clima emocional do que o filme parece propor. A ideia de que Ruas da Glória é mais sobre pessoas lidando com os próprios vazios do que sobre prostituição ou romance em si parece uma leitura bem acertada.

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  2. Osmar Cardoso20/3/26

    Ótima crítica.

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