Crítica | Um Zé Ninguém Contra Putin - É um filme simples, mas profundamente incômodo, porque revela como regimes políticos podem moldar narrativas e mentalidades de forma quase invisível.
| Divulgação | Filmelier+ |
• Por Alisson Santos
O documentário Um Zé Ninguém Contra Putin, dirigido por David Borenstein e Pavel Ilyich Talankin, é um daqueles filmes em que a força não está na grandiosidade das imagens, mas na simplicidade perturbadora de seu ponto de vista. Em vez de acompanhar diretamente os acontecimentos da guerra desencadeada pela Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o documentário escolhe observar um espaço muito mais banal — e justamente por isso mais revelador; uma escola no interior da Rússia.
O protagonista é Talankin, um professor e responsável por registrar em vídeo os eventos escolares de uma pequena cidade nos Urais. No início, o filme apresenta um cotidiano relativamente comum; alunos em atividades escolares, cerimônias institucionais e um professor que tenta manter um ambiente acolhedor para estudantes. Essa normalidade inicial é essencial, porque prepara o terreno para a transformação gradual que o documentário registra com precisão quase dolorosa.
Com o avanço da guerra e o fortalecimento da retórica nacionalista ligada ao governo de Vladimir Putin, a escola passa a se tornar um espaço de propaganda. Novas atividades patrióticas surgem, discursos oficiais passam a fazer parte da rotina e símbolos militares começam a ocupar um lugar central na formação dos estudantes. O que antes parecia um ambiente educativo se transforma lentamente em um espaço de mobilização ideológica.
A força do filme está justamente nesse registro paciente da mudança. Não há entrevistas formais nem uma estrutura tradicional de reportagem. Talankin simplesmente continua filmando aquilo que deveria registrar como parte do trabalho; assembleias, eventos patrióticos e atividades escolares. Aos poucos, esse material cotidiano passa a revelar algo muito mais inquietante — a normalização da propaganda e da guerra dentro de um ambiente voltado, em teoria, para a educação.
| Divulgação | Filmelier+ |
Cinematograficamente, o documentário é simples, às vezes até rudimentar. Muitas imagens têm a textura crua de gravações institucionais ou domésticas. Mas essa estética funciona a favor do filme. A sensação é a de assistir a um testemunho capturado de dentro do sistema, não a uma análise externa. O espectador percebe que aquelas imagens não foram pensadas inicialmente como denúncia, mas como registros banais de uma rotina escolar — e isso torna tudo mais perturbador.
Outro ponto interessante é que o filme evita transformar seu protagonista em um herói clássico. Talankin participa das atividades da escola, grava eventos que ajudam a sustentar a narrativa oficial e, ao mesmo tempo, acumula esse material com crescente desconforto. Essa ambiguidade moral torna o documentário mais humano. Ele não trata de resistência heroica, mas da dificuldade de manter a própria consciência dentro de um sistema que exige conformidade.
O resultado é um documentário silenciosamente inquietante. Em vez de explicar a guerra ou discutir estratégias políticas, Um Zé Ninguém Contra Putin mostra como conflitos geopolíticos se infiltram no cotidiano das pessoas comuns — especialmente na formação de crianças e adolescentes. Ao registrar a lenta transformação de uma escola em um espaço de propaganda, o filme sugere algo desconfortável; antes de serem travadas nos campos de batalha, muitas guerras começam a ser vencidas dentro das salas de aula.
É um filme simples, mas profundamente incômodo, porque revela como regimes políticos podem moldar narrativas e mentalidades de forma quase invisível. E justamente por acompanhar tudo a partir do olhar de um “zé ninguém”, alguém sem poder ou influência, o documentário acaba alcançando uma força dramática surpreendente.
O filme estreia com exclusividade na plataforma Filmelier+ no dia 26 de março.
Avaliação - 8/10
Comentários
Postar um comentário