Curta brasileiro resgata as vozes femininas de Serra Pelada no Panorama Latino da 35ª edição do Festival Curta Cinema – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro

Divulgação | Minotauro Produções

• Por Alisson Santos 

A história de Serra Pelada, frequentemente lembrada pelas imagens icônicas de milhares de homens escavando um imenso buraco de terra na Amazônia brasileira, ganha agora um novo ponto de vista no curta-metragem Serra Pelada: A Terra Não é dos Homens, dirigido por Babi Fontana e Victor Costa. O documentário estreia no Panorama Latino da 35ª edição do Festival Curta Cinema – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, um dos mais tradicionais eventos dedicados ao curta-metragem no Brasil.

A exibição acontece no dia 31 de março, às 15h, no Estação Net Rio, com entrada gratuita mediante retirada de ingressos uma hora antes da sessão.

Com cerca de 20 minutos de duração, o filme propõe uma revisão histórica ao colocar no centro da narrativa as mulheres da Vila de Serra Pelada, no Pará — personagens quase sempre ausentes das representações clássicas do maior garimpo a céu aberto do mundo.

UMA HISTÓRIA CONTADA PELAS MULHERES

Durante décadas, o imaginário sobre Serra Pelada foi construído a partir da figura masculina do garimpeiro — homens cobertos de lama, disputando espaço em encostas íngremes em busca de ouro. O curta de Fontana e Costa busca tensionar essa narrativa ao reunir depoimentos de moradoras entre 18 e 90 anos, que relatam suas experiências na região.

Entre as participantes estão Noemia Alves dos Santos, Juraci Claudino de Sousa, Maria Helena Santos (Baixinha), Maria Raimunda Moraes, Maria Mery da Silva Gomes (Meire), Meiriane da Silva Gomes, Luzandira de Sousa (Dica), Idalina Cardozo da Silva, Maria Isabela da Silva Nascimento e Francisca Lima Mesquita (Fran).

Essas vozes revelam uma dimensão pouco registrada da história local; a ocupação feminina e o cotidiano das mulheres em um território historicamente marcado pela exploração mineral e pela exclusão de gênero.

Até 1986, a presença feminina no antigo garimpo era proibida. Naquele período, Serra Pelada vivia o auge da atividade e chegou a reunir mais de 80 mil garimpeiros, tornando-se um símbolo global da corrida pelo ouro.

UM RETRATO FILMADO EM DOIS TEMPOS

O documentário foi construído a partir de uma abordagem temporal particular; as filmagens ocorreram em dois momentos distintos, 2018 e 2024.

Nas primeiras gravações, os relatos resgatam memórias da época em que a proibição da entrada de mulheres foi encerrada e também do declínio do garimpo manual, oficialmente proibido em 1991.

Já o retorno da equipe em 2024 encontra um cenário diferente. Com o tema do garimpo novamente presente no debate público brasileiro, as entrevistadas refletem sobre como o passado ainda molda a identidade da comunidade e sobre os desafios atuais da região.

O resultado é um retrato que mistura memória, transformação social e reflexão histórica sobre um território que permanece profundamente marcado por sua origem extrativista.

UM DOCUMENTÁRIO SOBRE MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E TERRITÓRIO 

Para os diretores, o projeto nasce da necessidade de recontar a história de Serra Pelada sob uma perspectiva que raramente ganhou espaço nas narrativas oficiais.

Segundo Babi Fontana e Victor Costa, durante muito tempo as histórias sobre o garimpo foram contadas exclusivamente a partir da experiência masculina. O documentário surge justamente da tentativa de acompanhar como a presença das mulheres alterou o imaginário desse território ao longo do tempo.

Além do conteúdo histórico e social, o curta também foi produzido com recursos completos de acessibilidade, e será exibido no festival com legendas em português e inglês, ampliando seu alcance para públicos diversos.

CINEMA COMO REESCRITA DA MEMÓRIA 

Produzido pela Minotauro Produções e realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo de Campinas, o filme reforça um movimento crescente do documentário brasileiro contemporâneo; revisitar narrativas consolidadas para revelar vozes esquecidas.

Ao trazer à tona relatos íntimos e geracionais das mulheres que viveram — e continuam vivendo — Serra Pelada: A Terra Não é dos Homens propõe não apenas um resgate histórico, mas também uma reflexão sobre pertencimento, gênero e permanência em territórios moldados pela exploração econômica.

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