Crítica | A Sombra do Meu Pai - Propõe uma experiência sensorial e emocional que reflete a complexidade de viver em um contexto onde tudo parece instável.

Divulgação | Filmes da Mostra

• Por Alisson Santos

Em A Sombra do Meu Pai, o diretor Akinola Davies Jr. constrói um filme que parece menos interessado em narrar uma história no sentido clássico e mais em capturar um estado de existência. É um cinema que observa antes de explicar, que se aproxima dos corpos e dos espaços como quem tenta preservar algo que está prestes a desaparecer. O resultado é uma obra que se sustenta na delicadeza do olhar, mas que também flerta com uma certa dispersão narrativa.

Ambientado na Nigéria dos anos 90, em meio a um cenário político instável, o filme acompanha um pai e seus dois filhos em uma jornada aparentemente simples; atravessar a cidade para resolver uma pendência financeira. No entanto, essa premissa se desdobra em múltiplas camadas. O deslocamento físico se torna também um deslocamento emocional e social. A cidade não é apenas cenário, mas uma força que pressiona, molda e, em certa medida, ameaça os personagens.

O que mais impressiona, desde os primeiros minutos, é a construção visual. Davies Jr. demonstra um rigor estético raro para um longa de estreia. Cada enquadramento parece calculado para sugerir mais do que mostra. Há uma atenção quase obsessiva ao cotidiano; crianças brincando, ruas congestionadas, corpos comprimidos em transportes improvisados. Nada disso é tratado como exotismo ou denúncia explícita. Pelo contrário, o filme se recusa a didatizar a precariedade. Ele a naturaliza, e é justamente nesse gesto que reside sua potência política.

A relação entre o pai, interpretado com intensidade contida por Ṣọpẹ́ Dìrísù, e os filhos é o eixo emocional da narrativa. Não se trata de uma relação construída por grandes declarações ou conflitos explícitos. O afeto aqui é duro, quase silencioso. Existe na forma como ele conduz os meninos pela cidade, na maneira como tenta protegê-los sem saber exatamente de quê. É um amor que carrega cansaço, ausência e responsabilidade. Um amor que, como o próprio filme sugere, é atravessado pelas condições materiais da existência.

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Os dois garotos trazem uma energia espontânea que contrasta com o peso do mundo adulto. A dinâmica entre eles tem algo de muito verdadeiro, ainda que o filme, em certos momentos, pareça evitar aprofundar esse vínculo. Há uma escolha clara por não romantizar a infância. Eles brigam, provocam, existem de forma crua. Mas talvez falte um momento de respiro que permita ao espectador acessar um afeto mais evidente entre eles.

Politicamente, o filme é sutil, mas nunca neutro. A presença de forças militares, a burocracia sufocante e a sensação constante de instabilidade criam um pano de fundo opressivo. No entanto, nada é sublinhado. Não há discursos inflamados nem cenas de confronto direto. O que há é um sistema que falha em silêncio, que se manifesta na dificuldade de receber um pagamento, no transporte precário, na tensão que paira sobre cada deslocamento. É um tipo de abordagem que confia na inteligência do espectador e evita cair em simplificações.

Ao mesmo tempo, essa escolha estética e narrativa cobra um preço. A estrutura do filme é deliberadamente fragmentada, quase episódica, o que pode gerar uma sensação de falta de progressão. Quando o desfecho finalmente chega, ele surge de maneira abrupta, como se pertencesse a outro ritmo, a outra lógica interna. Não é necessariamente um problema de coerência, mas de construção. Falta ao final o mesmo cuidado paciente que define o restante da obra.

Ainda assim, é impossível ignorar a força do conjunto. A Sombra do Meu Pai é um filme que se infiltra aos poucos, que permanece mais pelas imagens do que pelos eventos. Ele não busca respostas nem oferece resoluções fáceis. Em vez disso, propõe uma experiência sensorial e emocional que reflete a complexidade de viver em um contexto onde tudo parece instável.

Davies Jr. demonstra um controle impressionante da linguagem cinematográfica, especialmente na forma como articula espaço, tempo e silêncio. Se o filme por vezes se perde na própria contemplação, também é nesse mesmo gesto que encontra sua identidade. É um trabalho que revela um cineasta atento ao mundo e interessado em traduzi-lo com honestidade, mesmo que isso signifique abrir mão de convenções narrativas mais confortáveis.

A Sombra do Meu Pai estreia em 30 de abril nos cinemas.

Avaliação - 8/10

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