Crítica | Mortal Kombat 2 - O filme funciona justamente porque entende seus próprios limites e potencializa suas qualidades ao máximo.
| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
• Por Alisson Santos
O cinema baseado em videogames passou anos tentando descobrir como adaptar universos conhecidos sem transformá-los em produtos genéricos, assépticos e incapazes de compreender aquilo que tornava os jogos tão populares. Com Mortal Kombat, isso sempre foi ainda mais complicado, porque estamos falando de uma franquia construída sobre exagero, violência gráfica, personagens caricatos e um senso quase operístico de brutalidade. Não basta apenas colocar lutadores em tela; é preciso abraçar o caos, o absurdo e a energia quase adolescente que sempre fizeram parte da identidade da saga. E é justamente aí que Mortal Kombat 2 surpreende.
Dirigido novamente por Simon McQuoid, o longa parece entender perfeitamente as críticas direcionadas ao filme de 2021. A sensação é de que esta sequência foi concebida como uma resposta direta aos fãs; um pedido silencioso de desculpas por ter segurado justamente aquilo que o público mais queria ver. Aqui, não existe vergonha do material original. Pelo contrário; Mortal Kombat 2 mergulha de cabeça na essência da franquia e transforma isso em sua maior qualidade.
Desde os primeiros minutos, fica evidente que o filme possui uma preocupação quase obsessiva em colocar seus personagens em rota de colisão o mais rápido possível. O roteiro escrito por Jeremy Slater jamais tenta esconder sua simplicidade narrativa. Existe uma história, claro, mas ela funciona muito mais como uma ponte entre uma luta e outra do que como um verdadeiro motor dramático. Há uma quantidade considerável de exposição, diálogos excessivamente explicativos e algumas interações que beiram o brega — algo que, curiosamente, acaba funcionando dentro da proposta exagerada do universo. O filme sabe exatamente o que ele é. E talvez esse seja seu maior triunfo.
Ao invés de desperdiçar tempo tentando construir profundidade psicológica que claramente não conseguiria sustentar, Mortal Kombat 2 abraça sua natureza pulp, barulhenta e quase cartunesca. O resultado é um blockbuster que possui ritmo frenético o tempo inteiro. Mesmo com quase duas horas de duração, a narrativa avança numa velocidade impressionante, principalmente porque existe sempre a expectativa da próxima luta, do próximo confronto ou do próximo Fatality. E quando as lutas finalmente acontecem, o filme entrega absolutamente tudo o que promete.
A coreografia é, sem exagero, o coração pulsante da experiência. Diferente de muitos blockbusters modernos que escondem limitações através de cortes rápidos e câmeras tremidas, Mortal Kombat 2 possui clareza visual. O espectador consegue acompanhar cada golpe, cada movimento e cada poder sendo utilizado. Existe um prazer genuíno em observar esses personagens icônicos reproduzindo ataques clássicos diretamente dos jogos, sem que isso pareça apenas uma checklist de referências.
| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
Os combates possuem peso, impacto e brutalidade. Aqui, o sangue jorra sem pudor, ossos são destruídos e corpos são mutilados com uma criatividade quase grotesca. Ainda assim, o filme raramente transforma isso em violência vazia. Os Fatalities funcionam porque existe construção em torno deles; há uma sensação de recompensa narrativa dentro daquela carnificina absurda.
E talvez essa seja a grande diferença entre Mortal Kombat 2 e suas outras adaptações; o filme entende que violência, dentro desse universo, não é apenas choque gratuito. Ela faz parte da linguagem da franquia. Faz parte da identidade visual, da estética e até do humor sombrio que sempre acompanharam a saga desde os arcades dos anos 90.
O elenco também parece muito mais confortável dentro desse universo desta vez. Karl Urban incorpora Johnny Cage com exatamente o tipo de arrogância debochada que o personagem exige. Existe carisma, timing cômico e uma energia de astro decadente que encaixa perfeitamente com a proposta do filme. Já Adeline Rudolph consegue trazer presença para Kitana, mesmo dentro de um roteiro que raramente oferece profundidade emocional real aos personagens.
Mas quem realmente domina a tela é Martyn Ford como Shao Kahn. O personagem surge quase como uma entidade monstruosa, carregando um senso constante de ameaça física. Seu tamanho, sua presença e sua brutalidade fazem dele exatamente aquilo que os fãs esperavam ver há anos. Toda vez que aparece em cena, o filme ganha uma dimensão maior, mais pesada e intimidadora. Mas talvez o maior acerto dessa sequência seja deixar Cole Young, personagem original criado para o filme de 2021, praticamente de escanteio. É até satisfatório perceber que os envolvidos aprenderam, ao menos minimamente, com os erros do longa anterior.
Visualmente, Mortal Kombat 2 também impressiona bastante. Os cenários possuem personalidade, os figurinos abraçam completamente o exagero fantástico da franquia e existe uma direção de arte que finalmente entende como transportar aquele universo para o live-action sem descaracterizá-lo. Os reinos, arenas e ambientes carregam um aspecto quase fantástico, como se o filme tivesse encontrado equilíbrio entre videogame, fantasia sombria e cinema de artes marciais. O CGI e o trabalho de maquiagem funcionam muito bem na maior parte do tempo. Existem alguns momentos pontuais em que os efeitos incomodam um pouco, mas, no geral, o resultado é mais do que satisfatório.
| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
Além disso, as referências aos jogos estão espalhadas por toda parte, mas sem transformar o longa em um desfile desesperado de fanservice. Os easter eggs surgem de maneira orgânica, como pequenos presentes para fãs antigos, sem interromper a narrativa o tempo inteiro para apontar “olha essa referência”. Existe respeito pela história da franquia, mas também uma preocupação em tornar esse universo acessível para novos espectadores.
Claro, Mortal Kombat 2 está longe de ser um grande filme no sentido tradicional. O roteiro é superficial, muitos personagens acabam subaproveitados e falta densidade dramática em praticamente toda a narrativa. Em diversos momentos, o longa parece mais interessado em acelerar até a próxima luta do que em desenvolver relações ou conflitos de maneira mais complexa. Mas talvez exigir isso de Mortal Kombat seja não compreender sua essência.
O filme funciona justamente porque entende seus próprios limites e potencializa suas qualidades ao máximo. Ele não tenta ser uma reflexão filosófica, um drama psicológico ou uma desconstrução sofisticada do gênero. É um espetáculo violento, exagerado e extremamente divertido, feito claramente para pessoas que possuem carinho genuíno pela franquia.
No fim, Mortal Kombat 2 entrega exatamente aquilo que os fãs queriam desde o início; o torneio, os personagens clássicos, os Fatalities brutais e a sensação de estar assistindo a uma adaptação que finalmente não tem vergonha de ser Mortal Kombat. E honestamente? Depois de tantos anos de adaptações mornas do jogo, isso já vale muito.
Mortal Kombat 2 estreia amanhã nos cinemas.
Avaliação - 7/10
HYPEI DEMAIS!
ResponderExcluirTodo mundo falando que é melhor que o primeiro, isso já me dá um alívio.
ResponderExcluirA parte do Cole Young já me animou 😂🙏
ResponderExcluirAnálise completamente pés no chão, parabéns.
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