Crítica | Moana - Consegue reproduzir a superfície de uma grande aventura, mas esquece que era o coração navegando por trás dela que tornava tudo inesquecível.

Divulgação | Walt Disney Studios

• Por Alisson Santos 

A Disney construiu parte da sua história através da capacidade de transformar fantasia em sentimentos universais. Durante décadas, suas animações não foram lembradas apenas pela beleza visual ou pelas músicas marcantes, mas pela forma como conseguiam criar mundos onde cada elemento parecia existir por uma razão emocional. Esse talvez seja justamente o maior desafio enfrentado pelas recentes adaptações em live-action do estúdio; entender que recriar uma imagem não significa necessariamente recuperar aquilo que fez uma história funcionar.

Esse problema fica ainda mais evidente em Moana, uma nova versão de uma animação lançada há apenas uma década e que ainda permanece extremamente viva no imaginário popular. Diferente de clássicos mais antigos, onde uma releitura pode encontrar novas camadas através do tempo, aqui existe uma pergunta inevitável acompanhando toda a experiência; por que essa versão precisava existir? Infelizmente, o filme dirigido por Thomas Kail parece nunca encontrar uma resposta convincente.

A jornada continua sendo conhecida. Moana (Catherine Lagaʻaia) é uma jovem destinada a ultrapassar os limites impostos por sua ilha, descobrir o passado explorador de seu povo e restaurar uma conexão perdida entre humanidade e natureza ao lado do semideus Maui (Dwayne Johnson). É uma história poderosa sobre identidade, pertencimento e coragem para seguir um caminho próprio. Porém, curiosamente, é justamente essa essência que parece enfraquecida na transição para o live-action.

O maior problema não está em repetir a estrutura do original, afinal adaptações naturalmente carregam elementos reconhecíveis. O problema surge quando essa repetição parece mais preocupada em reproduzir momentos icônicos do que entender por que eles eram especiais. Diversas cenas aparecem quase como uma lista de lembranças obrigatórias; o primeiro contato de Moana com o oceano, sua descoberta sobre seus ancestrais navegadores, os conflitos com sua responsabilidade como futura líder. Tudo está visualmente presente, mas falta o encantamento que dava vida a esses acontecimentos. É tudo extremamente mecânico, cru.

A animação de 2016 funcionava porque acompanhávamos uma personagem em construção. Moana tinha dúvidas, inseguranças e precisava descobrir que ser escolhida pelo oceano não significava estar pronta para sua missão. Havia uma jornada interna tão importante quanto a aventura externa.

Na nova versão, essa transformação perde força. Catherine Lagaʻaia entrega dedicação ao papel e consegue transmitir doçura em alguns momentos, mas o roteiro parece interessado demais em colocá-la como uma heroína predestinada desde o início. Com menos conflitos e menos espaço para vulnerabilidade, sua evolução perde impacto. O resultado é uma protagonista que atravessa desafios sem que eles pareçam realmente modificar quem ela é.

O mesmo acontece com Maui. Dwayne Johnson retorna ao personagem que ajudou a eternizar na animação, agora em carne e osso, mas algo se perde nesse processo. A versão original funcionava justamente pelo contraste; atrás da arrogância exagerada existia uma figura quebrada, abandonada e desesperada por aprovação. Seu humor escondia insegurança, e sua jornada de redenção era um dos pontos emocionais mais fortes do filme.

Aqui, apesar do esforço evidente de Johnson, Maui parece uma versão reduzida de si mesmo. As piadas continuam, as poses heroicas continuam, mas falta a energia imprevisível e principalmente a profundidade emocional. É curioso perceber que o mesmo ator responsável por dar tanta personalidade ao personagem anteriormente encontra dificuldades para recuperar aquela mesma magia, mostrando como parte do encanto estava também na liberdade oferecida pela animação.

Divulgação | Walt Disney Studios

Visualmente, Moana também enfrenta um obstáculo complicado; transformar um dos universos mais coloridos e expressivos da Disney em algo realista sem perder sua identidade. A natureza, o oceano e a cultura polinésia eram praticamente personagens no filme original. Cada onda, cada movimento e cada detalhe carregavam personalidade.

No live-action, existem momentos bonitos, especialmente nas paisagens naturais, mas raramente existe aquela sensação de descoberta. A busca por realismo acaba limitando aquilo que antes parecia infinito. O oceano, que deveria transmitir mistério e magia, muitas vezes parece apenas um elemento visual ao redor dos personagens. A grandiosidade continua lá, mas a conexão emocional diminui.

O mesmo acontece nas sequências musicais. As canções continuam sendo fortes porque nasceram de uma base excelente, mas a nova interpretação raramente encontra algo diferente para justificar sua existência. Os grandes números musicais parecem presos entre homenagear o passado e tentar criar algo próprio, sem conseguir atingir completamente nenhum dos dois objetivos.

A nova música “Along the Way”, de Lin-Manuel Miranda, tenta construir uma ponte emocional entre versões e gerações, especialmente pela participação de Auliʻi Cravalho, voz original de Moana na animação. É uma ideia bonita no conceito, mas que dentro do filme soa mais como uma homenagem planejada do que como um momento naturalmente necessário para a narrativa. E esse acaba sendo o grande resumo desta nova Moana; tudo parece extremamente sem alma. 

Existe respeito pelo material original, existe investimento, existe carinho pela cultura apresentada, mas falta espontaneidade. Falta aquela sensação de estar conhecendo algo mágico pela primeira vez. A versão de 2016 era sobre uma jovem navegando rumo ao desconhecido; ironicamente, o remake parece ter medo de sair da segurança da própria ilha.

Moana não é uma adaptação sem qualidades. Há beleza em algumas imagens, talento em seu elenco e momentos onde a força da história original ainda consegue atravessar as limitações da nova versão. Porém, seus melhores instantes acontecem justamente quando lembramos do quanto aquela jornada já funcionava antes. Você já viu isso aqui antes… e feito melhor.

No fim, o filme representa o maior dilema dos live-actions recentes da Disney; recriar uma obra amada pode despertar nostalgia, mas nostalgia sozinha não substitui identidade. O filme consegue reproduzir a superfície de uma grande aventura, mas esquece que era o coração navegando por trás dela que tornava tudo inesquecível.

Moana estreia hoje nos cinemas.

Avaliação - 4/10

Comentários

  1. Lauane Silva8/7/26

    Previsível, é a sensação que passa no trailer. Acho que era muito cedo para um live-action dessa animação, principalmente com o 2 saindo recentemente.

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  2. Pedro Henrique8/7/26

    Bem feito. Live-action de animação da Disney é fazer o público de otário. Aliás, eles só fazem porque o público é otário.

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  3. Pedro Henrique8/7/26

    Bem feito. Live-action de animação da Disney é fazer o público de otário. Aliás, eles só fazem porque o público é otário.

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  4. Everton Pereira8/7/26

    E vai flopar em.... Pré-vendas ruins em quase todos os mercados

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  5. Michele Lima8/7/26

    Não tinha chances desse filme ser bom.

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  6. Sabrina Gomes9/7/26

    Por que isso existe? Foi minha pergunta ontem assistindo. Porque fica replicando tudo enquadramento, diálogo, tudo, por que eu quero ver o mesmo filme?

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