Crítica | Corrida dos Bichos - Tem boas ideias, mas tropeça em um roteiro desorganizado e cansativo.

Divulgação | Prime Video

• Por Alisson Santos 

Existe um filme muito mais interessante escondido dentro de Corrida dos Bichos. O problema é que, durante suas mais de duas horas, ele aparece apenas ocasionalmente. A ambição visual, o conceito de transformar o jogo do bicho em uma competição mortal e a possibilidade de construir uma distopia genuinamente brasileira estão presentes, mas acabam soterrados por um roteiro estruturalmente confuso, personagens pouco desenvolvidos e uma necessidade constante de explicar um universo que raramente ganha profundidade.

Dirigido por Ernesto Solis, Rodrigo Pesavento e Fernando Meirelles, o longa parte de uma ideia bastante promissora. Em um Rio de Janeiro devastado por uma catástrofe ambiental e dividido socialmente, pessoas das classes mais pobres são utilizadas como competidores em uma corrida mortal controlada pelos chamados Jogadores. Mano (Matheus Abreu), líder de uma resistência contra esse sistema, acaba obrigado a participar quando sua irmã é oferecida como garantia de uma aposta.

No papel, há material suficiente para discutir desigualdade, exploração, espetacularização da violência, vício em apostas e o abismo entre quem transforma vidas em números e quem precisa colocar a própria vida em risco para sobreviver. Corrida dos Bichos quer falar sobre praticamente tudo isso. O problema é que raramente consegue organizar essas ideias em uma narrativa realmente coesa.

O roteiro parece constantemente dividido entre apresentar seu mundo, explicar as regras da competição, desenvolver Mano, introduzir uma quantidade enorme de personagens, construir a relação entre corredores e apostadores e preparar a próxima sequência de ação. Poucos desses elementos recebem tempo suficiente para amadurecer.

É um problema estrutural que se torna ainda mais evidente conforme novos personagens, conflitos e conceitos são apresentados. O filme frequentemente introduz algo aparentemente importante para abandoná-lo pouco depois ou resolvê-lo de maneira apressada. Em vez de uma progressão dramática natural, há uma sensação de blocos narrativos conectados pela necessidade de levar Mano até a próxima corrida.

As próprias relações entre os personagens sofrem com isso. A motivação central envolvendo Mano e sua irmã deveria representar o coração emocional da história, mas o roteiro está tão preocupado com a construção daquele universo que a relação nunca alcança o peso necessário para sustentar tudo o que acontece ao redor dela. Outros vínculos também surgem rapidamente e exigem do espectador um envolvimento emocional que o filme ainda não conquistou. O resultado é curioso; existe muito acontecendo, mas pouco realmente importa.

Essa sensação prejudica principalmente as sequências de ação. Tecnicamente, elas estão entre os elementos mais competentes da produção. Há uma fisicalidade interessante no uso do parkour e na maneira como os competidores atravessam aquele Rio destruído. O problema é que ação sem investimento dramático eventualmente vira apenas movimento. Depois de algumas corridas, a estrutura começa a se repetir. Corre. Escapa. Luta. Alguém explica alguma regra. Surge um novo obstáculo. Corre novamente. E o impacto diminui.

Outro elemento particularmente incômodo é a narração das corridas feita por Anitta. A cantora interpreta uma espécie de celebridade daquele universo, responsável por transformar a competição em espetáculo. A ideia faz sentido dentro da proposta; aquele horror precisa de uma voz que o venda como entretenimento. Na prática, porém, a execução se torna rapidamente cansativa.

Divulgação | Prime Video

A narração tenta transmitir energia o tempo inteiro, comentando acontecimentos e reforçando a grandiosidade das provas justamente nos momentos em que as imagens poderiam falar por conta própria. Em vez de aumentar a tensão, muitas intervenções acabam disputando atenção com a própria ação. Quanto mais intensa deveria ser uma sequência, mais a narração parece sentir necessidade de lembrar o espectador de que aquilo é intenso.

Há também um excesso de exposição. Corrida dos Bichos frequentemente não confia nas próprias imagens. Conceitos que poderiam ser compreendidos pelo cenário, pelo comportamento dos personagens ou pelas regras da competição são verbalizados. A desigualdade precisa ser explicada. A crueldade do sistema precisa ser reforçada. As motivações precisam ser reiteradas. É como se o filme estivesse constantemente preocupado com a possibilidade de o espectador não compreender seu universo. E isso é especialmente frustrante porque visualmente há ideias muito melhores do que aquelas presentes nos diálogos.

A reconstrução distópica do Rio de Janeiro talvez seja o aspecto mais interessante da produção. Existe personalidade nos cenários, na apropriação de símbolos brasileiros e principalmente na decisão de utilizar o jogo do bicho como fundamento daquele sistema. Só que um universo interessante não substitui uma boa dramaturgia.

O filme apresenta inúmeras possibilidades e desenvolve poucas. O jogo do bicho, por exemplo, poderia servir para construir uma mitologia própria muito mais elaborada, explorando superstição, números, animais, sorte e a relação histórica dos brasileiros com apostas informais. Muitas vezes, entretanto, esses elementos parecem mais decoração temática do que partes fundamentais da narrativa.

O mesmo acontece com sua crítica social. A metáfora é tão evidente que quase não existe espaço para interpretação; ricos transformam pobres em peças de um jogo enquanto assistem ao sofrimento de uma posição privilegiada. A mensagem é válida, mas o filme insiste tanto nela que acaba simplificando aquilo que poderia ser mais complexo. Não existe muita ambiguidade naquele sistema porque praticamente todos já ocupam funções previamente determinadas; exploradores, explorados, rebeldes ou participantes.

Até mesmo o grande elenco acaba prejudicado pela quantidade de personagens. Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Silvero Pereira, João Guilherme e tantos outros aparecem dentro de uma história que parece querer aproveitar todos, mas não encontra espaço dramático para fazê-lo. Alguns personagens despertam curiosidade apenas para desaparecerem ou permanecerem presos a funções muito específicas do roteiro. Matheus Abreu consegue trazer intensidade física a Mano, mas também precisa lutar contra um protagonista escrito de maneira excessivamente funcional. Sabemos o que ele quer, sabemos contra o que luta e entendemos sua motivação. O que falta é descobrir quem ele é além dessas informações.

E esse talvez seja o principal problema de Corrida dos Bichos; quase tudo está a serviço do conceito. Personagens existem para movimentar a história. Diálogos existem para explicar o universo. A narração existe para reforçar o espetáculo. As corridas existem para entregar ação. A crítica social existe de maneira tão evidente que frequentemente parece sublinhada. Poucas coisas simplesmente respiram. Com 124 minutos, o longa paradoxalmente consegue parecer cheio demais e desenvolvido de menos. Há excesso de personagens, conceitos e acontecimentos, mas falta profundidade justamente onde ela seria mais necessária.

Não se trata de falta de ambição. Talvez seja exatamente o contrário. Corrida dos Bichos quer construir uma franquia antes de conseguir construir completamente seu primeiro filme. Existe uma mitologia esperando para ser explorada, um mundo maior sugerido ao redor dos personagens e inúmeras ideias lançadas para o espectador. Mas a necessidade de estabelecer tudo isso transforma a narrativa em uma espécie de longa apresentação daquele universo.

A ficção científica brasileira merece produções desse tamanho. Merece orçamento, cenas de ação ambiciosas, mundos futuristas e liberdade para disputar espaço com grandes produções estrangeiras. E justamente por isso não basta elogiar Corrida dos Bichos simplesmente por existir.

Corrida dos Bichos está disponível no Prime Video 

Avaliação - 4/10

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