Crítica | Só Por Uma Noite - Sob uma embalagem moderna e provocadora, encontra-se uma visão bastante antiga do amor.
| Divulgação | Universal Pictures |
• Por Alisson Santos
A premissa de Só Por Uma Noite parece pronta para uma sátira provocadora; em um futuro próximo, o governo norte-americano proíbe relações sexuais antes do casamento, permitindo uma única janela anual de 12 horas na qual pessoas solteiras podem transar legalmente. É uma espécie de Uma Noite de Crime do sexo, ambientada em uma Nova York tomada por festas, propagandas oportunistas e solteiros tentando aproveitar cada segundo de liberdade. No meio desse caos, Allie e Owen, vividos por Monica Barbaro e Callum Turner, passam a noite se encontrando e se desencontrando enquanto procuram outras pessoas — e, inevitavelmente, descobrem uma conexão entre si. O problema é que o filme apresenta uma realidade autoritária cheia de implicações políticas, sociais e sexuais apenas para utilizá-la como decoração de uma comédia romântica extremamente convencional.
Dirigido por Will Gluck, de A Mentira e Todos Menos Você, a partir do roteiro original de Travis Braun, Só Por Uma Noite demonstra alguma criatividade nos detalhes periféricos. Empresas adaptaram campanhas publicitárias à noite de liberação; marcas comercializam o desejo reprimido; estabelecimentos transformam o evento em oportunidade de lucro; e até o trabalho de Allie, cantando jingles farmacêuticos inspirados em músicas conhecidas, rende algumas das piadas mais divertidas. Há uma boa ideia sobre como o capitalismo absorve até mesmo as restrições impostas pelo Estado, convertendo repressão em produto. O departamento de arte constrói uma cidade coberta por lembretes de que aquela sociedade não funciona como a nossa, porém, esses elementos acabam sendo mais interessantes do que a história principal.
O roteiro não consegue — ou simplesmente não deseja — enfrentar as perguntas que sua própria premissa provoca. Como uma lei tão radical foi aprovada? Por que uma população inteira aceitou receber sensores corporais capazes de monitorar suas atividades? O que exatamente o dispositivo identifica; alterações hormonais, níveis de dopamina, contato físico ou uma definição jurídica específica de sexo? Se o sistema é tão sofisticado a ponto de vigiar biologicamente cada cidadão, como determinadas pessoas afirmam que conseguem burlar as regras com tanta naturalidade? E por que quase não há revolta organizada em uma cidade como Nova York? São questões que poderiam parecer implicância caso a comédia romântica fosse irresistível, mas se tornam difíceis de ignorar porque o filme insiste em exibir o aparato repressivo enquanto foge das consequências dele.
Essa covardia também aparece na representação LGBTQIA+. A colega de apartamento de Allie, interpretada por Quintessa Swindell, ocupa essencialmente a função da amiga lésbica espirituosa que fornece roupas, conselhos e a dose de rebeldia necessária para movimentar a protagonista certinha. Em determinado momento, ela diz que aquela noite é “para os héteros” e sugere que pessoas queer já aprenderam a contornar as regras. A fala até poderia abrir uma discussão interessante sobre comunidades historicamente obrigadas a existir à margem de normas construídas para casais heterossexuais. No entanto, o filme não explica como essa resistência funciona diante da vigilância hormonal que estabeleceu nem demonstra interesse genuíno por sua experiência. A personagem, portanto, serve mais como muleta para a consciência supostamente transgressora de Allie do que como alguém com desejos e conflitos próprios.
| Divulgação | Universal Pictures |
A falta de ousadia fica ainda mais evidente porque, apesar de vendido como uma comédia sexual, Só Por Uma Noite é surpreendentemente pouco interessado em sexo. A decisão por si só não seria um problema — uma história sobre desejo não precisa necessariamente ser explícita —, mas combina com a postura geral da obra. O sexo aparece como um espetáculo caótico, ridículo ou vazio, enquanto a conexão romântica monogâmica é apresentada como alternativa moralmente superior. Em vez de questionar o puritanismo do governo, o desfecho acaba parcialmente validando sua lógica; talvez tanta liberdade não fosse boa mesmo; talvez todos devessem apenas procurar a pessoa certa.
Monica Barbaro é quem mantém o filme minimamente vivo. A atriz encontra simpatia e vulnerabilidade em Allie, além de possuir uma leveza naturalmente adequada ao gênero. É fácil desejar vê-la em outra comédia romântica, de preferência uma que lhe ofereça um parceiro e um roteiro à altura. Callum Turner, por outro lado, interpreta Owen com uma apatia que prejudica a evolução do casal. Como o filme tenta condensar uma dinâmica de inimigos a amantes em poucas horas, seria necessária uma química imediata e avassaladora para tornar a aproximação convincente. Ela nunca surge plenamente. Curiosamente, Allie demonstra uma conexão mais espontânea com o homem que conhece ao piano, mesmo que o roteiro rapidamente encontre uma maneira de descartá-lo para conduzi-la ao par previamente determinado.
Ainda existem momentos simpáticos, algumas piadas funcionam e Barbaro atravessa a noite com carisma suficiente para impedir um desastre completo. Mas o roteiro parece acreditar que o simples acúmulo de encontros e desencontros substitui o desenvolvimento da intimidade. Ao final, não compreendemos exatamente o que Allie e Owen enxergam um no outro além da obrigação estrutural de terminarem juntos.
Só Por Uma Noite poderia investigar repressão sexual, autonomia corporal, vigilância estatal, mercantilização do desejo e exclusão de pessoas queer. Também poderia ignorar quase tudo isso e ser simplesmente uma ótima comédia romântica. Ao tentar ocupar os dois espaços sem se comprometer verdadeiramente com nenhum, termina como uma obra sem coragem para encarar a distopia que inventou e sem química suficiente para fazê-la desaparecer.
Só Por Uma Noite estreia em 20 de agosto.
Avaliação - 5/10
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