Polifemo muito além de 'A Odisseia'

Divulgação | Universal Pictures

• Por Alisson Santos 

Um ponto importante, e frequentemente simplificado pela cultura popular, é que os ciclopes da mitologia grega não pertencem necessariamente a uma única tradição. Na Teogonia, de Hesíodo, aparecem Brontes, Estéropes e Arges, ciclopes primordiais filhos de Urano e Gaia. Eles são figuras divinas ligadas à forja e ao poder dos deuses, responsáveis por entregar a Zeus o raio e o trovão durante a luta contra os Titãs. Polifemo pertence a outra tradição.

Ele é apresentado como filho de Poseidon e da ninfa Toosa, descendente de Fórcis. Portanto, não deve ser simplesmente colocado no mesmo grupo genealógico dos três ciclopes hesiódicos. Essa distinção revela algo essencial sobre a mitologia grega; não existia uma única versão perfeitamente organizada de seu universo. Diferentes autores, regiões e períodos preservaram tradições que podiam coexistir ou até se contradizer.

UM FILHO DE POSEIDON 

A ascendência de Polifemo ajuda a explicar sua natureza extraordinária. Seu pai, Poseidon, não governava apenas os mares. Era também associado aos terremotos, cavalos e às forças violentas e imprevisíveis da natureza. Sua mãe, Toosa, era uma ninfa marinha ligada à descendência de Fórcis, uma antiga divindade do mar frequentemente associada genealogicamente a criaturas monstruosas da mitologia. Polifemo nasce, portanto, dentro de uma linhagem profundamente conectada ao mundo primordial e selvagem. Essa genealogia é importante porque o coloca em uma posição diferente dos monstros que simplesmente existem para serem derrotados por heróis. Polifemo possui ascendência divina e está integrado a uma ampla rede mitológica.

O POLIFEMO DE HOMERO É APENAS UMA DE SUAS FACES 

Foi A Odisseia que eternizou sua imagem como o gigantesco pastor antropófago enfrentado por Odisseu. Mas Polifemo não ficou preso à narrativa homérica. Ao longo dos séculos, poetas gregos e romanos reinventaram radicalmente o personagem. E é justamente aí que sua mitologia se torna particularmente interessante. O monstro brutal começa a ganhar sentimentos. Polifemo se apaixona. Canta. Sofre rejeição. Demonstra ciúmes. Em determinadas obras, chega até a provocar certa compaixão. Essa transformação faz dele um excelente exemplo de como personagens mitológicos gregos não possuíam uma personalidade fixa e imutável.

POLIFEMO APAIXONADO POR GALATEIA 

Uma das tradições mais importantes fora da narrativa de Odisseu envolve Galateia, uma das Nereidas, ninfas marinhas filhas de Nereu e Dóris. Polifemo apaixona-se profundamente por ela. O poeta helenístico Teócrito, no século III a.C., apresenta uma versão surpreendente do ciclope em seu Idílio XI. Em vez do monstro aterrorizante conhecido pela tradição homérica, encontramos um Polifemo jovem e apaixonado, tentando aliviar seu sofrimento amoroso através da música. Ele canta para Galateia. Lamenta sua aparência. Tenta convencê-la de suas qualidades. Nesse contexto, o personagem ganha uma dimensão quase cômica e melancólica. É uma transformação extraordinária; o mesmo nome associado a uma das criaturas mais violentas da tradição épica torna-se protagonista de uma história sobre amor não correspondido.

O TRIÂNGULO ENTRE POLIFEMO, GALATEIA E ÁCIS

Polifemo lançando uma rocha contra Ácis, pintura de Annibale Carracci (1560–1609)

A tradição ganhou contornos ainda mais dramáticos posteriormente. Na versão eternizada por Ovídio, nas Metamorfoses, Galateia ama o jovem Ácis, enquanto Polifemo deseja Galateia. O ciclope aparece novamente apaixonado, chegando a cantar sobre seus sentimentos e tentar conquistar a nereida. Mas quando descobre os amantes juntos, o amor transforma-se em ciúme e violência. Polifemo lança uma enorme pedra contra Ácis e o mata. Galateia, devastada, transforma o sangue do jovem em um rio. Essa história tornou-se uma das representações mais famosas de Polifemo fora da tradição homérica e inspirou inúmeras pinturas, esculturas, poemas e composições musicais séculos depois. Aqui, Polifemo não é simplesmente um monstro. Ele representa uma combinação muito mais contraditória de desejo, rejeição, brutalidade e incapacidade de controlar as próprias paixões.

POLIFEMO MUDOU CONFORME A MITOLOGIA ERA RECONTADA 

É justamente essa evolução que torna o personagem tão interessante. Em Homero, Polifemo representa uma existência afastada das normas da sociedade humana. Em Teócrito, pode ser um amante rejeitado e até vulnerável. Em Ovídio, torna-se uma figura simultaneamente apaixonada e terrivelmente violenta. Não existe necessariamente um “Polifemo verdadeiro” entre essas versões. Todas fazem parte da tradição construída em torno do personagem. A mitologia greco-romana funcionava dessa maneira; personagens eram constantemente reinterpretados. Cada poeta podia enfatizar características diferentes, adaptar genealogias e transformar histórias anteriores.

NEM TODOS OS CICLOPES ERAM MONSTROS 

A própria palavra “ciclope” também exige cuidado. Na tradição de Hesíodo, Brontes, Estéropes e Arges são seres cósmicos poderosos. Eles ajudam Zeus fornecendo suas armas durante a guerra contra os Titãs. Em tradições posteriores, ciclopes também aparecem associados à forja de Hefesto, trabalhando como artesãos extraordinários. Já os ciclopes encontrados na tradição homérica são apresentados como pastores gigantes que vivem separadamente, sem instituições políticas semelhantes às das cidades gregas. Polifemo pertence principalmente a essa segunda tradição. Portanto, dizer simplesmente que “os ciclopes eram monstros gigantes de um olho” apaga uma mitologia muito mais complexa.

O ÚNICO OLHO TAMBÉM CARREGA UMA LONGA TRADIÇÃO VISUAL 

A característica mais famosa dos ciclopes é naturalmente o olho único. A própria etimologia tradicional de Kyklops costuma ser relacionada às palavras gregas kyklos (“círculo”) e ops (“olho” ou “face”), dando origem à interpretação de “olho redondo”. Ao longo da arte antiga, entretanto, as representações visuais dos ciclopes não foram completamente uniformes. Polifemo aparece em cerâmicas gregas muito antigas, especialmente em cenas relacionadas ao episódio de sua cegueira, demonstrando que sua iconografia já estava consolidada séculos antes das representações modernas. Com o tempo, o gigantesco olho central tornou-se sua característica visual definitiva.

Comentários

Postar um comentário