Crítica | A Última Casa - Transforma o lar em prisão, mas se perde ao prolongar seu mistério.

Divulgação | Netflix

• Por Alisson Santos 

Poucas coisas são tão angustiantes quanto perceber que o lugar criado para oferecer segurança se tornou uma prisão. A Última Casa parte justamente dessa inversão para construir um thriller de ficção científica claustrofóbico, no qual o medo nasce menos daquilo que pode estar do lado de fora e mais da impossibilidade de compreender o que está acontecendo. Sob a direção de Louis Leterrier, o filme encontra seus melhores momentos quando explora essa incerteza e permite que Wagner Moura e Greta Lee carreguem emocionalmente uma premissa simples, mas bastante eficiente.

A história acompanha Jason e Ann, um casal que vive com os dois filhos e vê sua rotina ser interrompida quando a família percebe que não consegue mais deixar a própria residência. Sem uma explicação evidente e praticamente isolados do mundo exterior, eles precisam entender as novas regras daquela realidade enquanto enfrentam uma questão ainda mais imediata; como sobreviver caso ninguém apareça para ajudá-los?

É uma situação que Leterrier apresenta com inteligência. O diretor, acostumado a produções de escala muito maior, encontra tensão justamente na limitação física. Portas, janelas e corredores deixam de ser elementos banais para se tornarem lembretes constantes de que não existe uma saída. A casa permanece a mesma, mas a maneira como os personagens e o espectador passam a enxergá-la muda completamente.

Nos primeiros momentos, A Última Casa entende que aquilo que não podemos ver costuma ser mais inquietante do que qualquer ameaça mostrada diretamente. As perguntas se acumulam rapidamente. O fenômeno está restrito àquela residência? Existe mais alguém passando pela mesma situação? O que aconteceu com o restante do mundo? Há realmente alguma coisa esperando do lado de fora? O roteiro resiste inicialmente à tentação de responder e deixa a paranoia preencher os espaços vazios.

Há também uma inevitável associação com a experiência do isolamento vivida durante a pandemia. Não se trata de uma representação direta daquele período, mas da recuperação de sensações bastante familiares; a perda da percepção do tempo, a repetição dos dias, a ansiedade diante de um mundo inacessível e a necessidade de estabelecer uma normalidade artificial enquanto algo incompreensível acontece além das paredes. Pequenos acontecimentos domésticos passam a assumir proporções enormes porque aquele espaço limitado se transforma em todo o universo disponível para os personagens.

É nesse terreno que Wagner Moura e Greta Lee se tornam fundamentais. Moura interpreta Jason como alguém que tenta assumir a responsabilidade de encontrar respostas mesmo quando não possui nenhuma. Existe uma inquietação crescente em sua atuação, especialmente quando a necessidade de demonstrar controle começa a entrar em conflito com uma realidade sobre a qual ele não exerce poder algum. Greta Lee encontra uma abordagem mais contida para Ann e trabalha muito bem os momentos em que o desgaste psicológico começa a aparecer nos gestos e silêncios.

Divulgação | Netflix

A química entre os dois permite que o filme funcione também como drama familiar. O confinamento não cria necessariamente todos os problemas daquela relação, mas amplia tensões que poderiam permanecer escondidas em circunstâncias normais. Quando não existe trabalho, escola, rua ou qualquer outro espaço para onde fugir, os personagens são obrigados a conviver integralmente não apenas uns com os outros, mas com aquilo que evitavam enfrentar.

A presença dos filhos amplia essa responsabilidade. Jason e Ann não podem simplesmente entrar em desespero porque precisam preservar alguma sensação de estabilidade. Refeições, brincadeiras, conversas e tarefas domésticas passam a funcionar como mecanismos de resistência. Manter uma rotina significa provar que aquela situação ainda não conseguiu destruir completamente a vida que existia antes.

O problema é que A Última Casa eventualmente começa a sofrer com a própria estrutura. Uma premissa tão direta exige enorme precisão na administração do tempo e das informações. O público rapidamente entende quais são as grandes questões da história e passa a esperar pelo momento em que o filme avançará em direção às respostas. Com 110 minutos de duração, o roteiro demora mais do que deveria para realizar esse movimento.

O segundo ato é particularmente prejudicado por essa escolha. Situações semelhantes começam a se repetir, conflitos são prolongados e a sensação de estagnação deixa de funcionar exclusivamente como ferramenta narrativa. É possível compreender a intenção de fazer o espectador experimentar parte da exaustão daqueles personagens, mas existe uma diferença delicada entre transmitir confinamento e tornar a própria narrativa confinada.

Ainda assim, o mistério consegue manter interesse porque a ameaça permanece indefinida durante boa parte da história. O problema maior surge quando o roteiro decide revelar suas cartas. Quanto mais A Última Casa explica o fenômeno, menos fascinante ele se torna.

Não é necessariamente porque as respostas sejam ruins, mas porque o desconhecido construído anteriormente permite imaginar possibilidades mais assustadoras e interessantes. O longa funciona melhor quando existe uma porta fechada entre os personagens e a verdade. Ao atravessá-la, entra em um território de ficção científica mais convencional e abandona parte da atmosfera que tornava sua proposta tão intrigante.

Divulgação | Netflix

O terceiro ato tenta aumentar a dimensão da história e relacionar o drama daquela família a ideias maiores sobre sobrevivência, comportamento humano e convivência. Há conceitos interessantes nessa mudança, mas a execução não possui a mesma força da simplicidade inicial. Leterrier parece sentir necessidade de ampliar uma história que funcionava justamente porque era pequena. O que havia de assustador naquela família cercada por quatro paredes perde impacto quando o filme passa a explicar o mundo ao redor dela.

Visualmente, porém, a limitação do cenário é aproveitada com competência. Conforme o tempo passa, a própria residência registra as consequências do isolamento. Objetos ganham novas funções, ambientes são adaptados e soluções improvisadas ajudam a comunicar aquilo que o roteiro nem sempre precisa verbalizar. A casa deixa de funcionar apenas como cenário e passa a refletir a transformação de seus moradores.

Existe uma ideia particularmente interessante nessa evolução; seres humanos possuem uma enorme capacidade de adaptação, inclusive diante do absurdo. Aquilo que inicialmente parece insuportável pode lentamente se transformar em rotina. E talvez seja justamente essa possibilidade que carregue o elemento mais inquietante da história. Depois de permanecer tanto tempo isolado, voltar ao mundo pode ser quase tão assustador quanto continuar preso.

A Última Casa tinha todos os elementos para ser um thriller mais curto, sufocante e direto. Uma duração mais enxuta provavelmente preservaria melhor a urgência da premissa e impediria que o mistério perdesse força antes da conclusão. O filme não consegue sustentar integralmente a tensão criada em seu excelente ponto de partida, e suas respostas são menos provocativas do que as perguntas que apresenta.

Mesmo assim, Wagner Moura e Greta Lee impedem que essas fragilidades comprometam completamente a experiência. Os dois dão peso humano a uma história que poderia facilmente depender apenas de seu conceito e fazem com que a preocupação com o destino daquela família permaneça mesmo quando a curiosidade pelo mistério começa a diminuir.

No fim, a ideia mais forte de A Última Casa não está necessariamente na explicação para o que mantém seus personagens presos, mas na transformação do próprio significado de lar. Um lugar pode continuar fisicamente igual e, ainda assim, deixar de representar aquilo que representava. Leterrier encontra um filme bastante interessante quando observa essa mudança. Pena que, ao tentar descobrir o que existe além das paredes, acabe deixando para trás parte do que tornava tão assustador permanecer dentro delas.

A Última Casa está disponível na Netflix.

Avaliação - 5/10

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