Crítica | X-Men ’97 - Começou com ambição de um épico e terminou correndo para encaixar todas as peças antes dos créditos.
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• Por Alisson Santos
Atenção: o texto contém spoilers da segunda temporada de X-Men ’97.
A primeira temporada de X-Men ’97 compreendia que os melhores confrontos dos mutantes raramente são resolvidos apenas com golpes e rajadas de energia. A destruição de Genosha, o radicalismo de Magneto e a persistência quase irracional do sonho de Xavier formavam um conflito político, moral e afetivo. Cada batalha parecia consequência de uma ferida coletiva. A segunda temporada ainda possui essa inteligência, mas a emprega de maneira muito mais irregular; começa com ambição de um épico e termina correndo para encaixar todas as peças antes dos créditos.
O retorno parte de uma situação extremamente promissora. Os X-Men estão espalhados por diferentes períodos históricos, enquanto a ascensão de En Sabah Nur atravessa séculos e oferece uma nova perspectiva sobre Apocalipse. Em vez de apresentá-lo somente como um gigante azul interessado em dominar o mundo, a série procura entender como um homem escravizado, perseguido por sua aparência e moldado pela violência passou a acreditar que apenas os mais fortes merecem sobreviver.
Nos quatro primeiros episódios, essa abordagem funciona muito bem. A viagem pelo tempo não é apenas uma desculpa para mudar cenários, apresentar versões alternativas dos personagens ou espalhar referências aos quadrinhos. Ela permite que a temporada mostre a intolerância como uma estrutura histórica, anterior aos próprios X-Men. O discurso de Apocalipse surge como uma resposta monstruosa à opressão; se o mundo sempre escolheu quem merece viver, ele apenas reivindica para si o poder de realizar essa seleção.
Essa construção estabelece um antagonista capaz de desafiar Xavier em um nível ideológico. Ambos querem garantir o futuro dos mutantes, mas representam respostas opostas à perseguição. Xavier acredita na convivência, mesmo quando a realidade insiste em provar o quanto seu sonho pode ser ingênuo. Apocalipse transforma o trauma em doutrina e entende qualquer gesto de compaixão como fraqueza. Havia, portanto, material suficiente para que o confronto final entre os dois fosse mais do que uma troca de ameaças. O problema é que a série praticamente abandona Apocalipse justamente quando termina de torná-lo interessante.
Depois do quarto episódio, o vilão perde presença e deixa de funcionar como força dramática contínua. A temporada passa a acumular aventuras paralelas, reencontros, novos grupos, conspirações e participações especiais. Alguns desses desvios produzem bons episódios isolados, principalmente quando colocam os personagens diante das consequências emocionais da primeira temporada. Porém, eles enfraquecem a sensação de progressão. Quando Apocalipse retorna à linha de frente, parece ter saído de outra história que permaneceu pausada por semanas.
A relação dele com Candra, por exemplo, deveria aprofundar sua dimensão trágica, mas é apresentada tarde demais e com pouco espaço para amadurecer. O mesmo ocorre com seu plano envolvendo Gambit. A transformação de Remy no Cavaleiro da Morte carrega uma crueldade evidente; o homem que morreu protegendo Genosha retorna como instrumento de uma ideologia que despreza os considerados fracos. É uma imagem poderosa, sobretudo porque obriga Vampira a enfrentar novamente o trauma de sua perda. Entretanto, a temporada utiliza melhor o valor sentimental dessa situação do que suas implicações.
Esse desequilíbrio expõe o maior defeito de X-Men ’97, a série continua tentando adaptar décadas de quadrinhos na velocidade de uma montagem de melhores momentos. O ritmo acelerado já existia anteriormente, mas a primeira temporada tinha uma espinha dorsal clara. Genosha reorganizava todos os personagens e fazia as diferentes tramas convergirem. Na segunda, os acontecimentos se sucedem porque precisam conduzir a série até o próximo grande momento, não necessariamente porque um decorre do outro.
Ainda assim, o seriado continua sendo muito competente quando desacelera o suficiente para observar seus mutantes. Cable e Polaris estão entre os maiores beneficiados. Divididos entre laços familiares, convicções pessoais e a necessidade de impedir Apocalipse, ambos adicionam uma dor real ao conflito entre X-Men, X-Force e X-Factor. A luta do episódio final funciona nesse ponto, porque coloca antigos aliados em lados diferentes de uma decisão impossível; salvar Gambit ou matá-lo antes que Apocalipse possa vencer.
É nessa batalha que a temporada reencontra, por alguns minutos, aquilo que os X-Men representam. Não há uma separação confortável entre heróis e vilões. Existem pessoas feridas tomando decisões incompatíveis, embora todas acreditem estar evitando uma tragédia maior. Ver diferentes equipes mutantes atacando umas às outras ganha um peso adicional em um mundo no qual a relação entre humanos e mutantes já se encontra deteriorada. Enquanto os inimigos avançam politicamente, os perseguidos desperdiçam forças lutando entre si.
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A animação também mantém a identidade visual responsável por distinguir a produção de boa parte do catálogo recente da Marvel. O seriado preserva a aparência de desenho exibido nas manhãs dos anos 90, mas utiliza movimentos de câmera, iluminação e coreografias que a produção original não poderia realizar. As lutas são rápidas, legíveis e cheias de combinações criativas de poderes. X-Force, X-Factor e os próprios X-Men recebem oportunidades para brilhar sem que as sequências se transformem apenas em um amontoado de luzes.
O final, porém, revela todas as limitações estruturais da temporada. Apocalipse retorna, domina Gambit e confronta Xavier, mas a batalha prometida durante todo o ano termina quase imediatamente. Vampira obtém poderes suficientes para derrotá-lo e se transforma em uma solução conveniente para um conflito que parecia exigir um preço muito maior. Visualmente, a cena impressiona; dramaticamente, funciona como um deus ex machina. O grande plano construído ao longo de milhares de anos termina reduzido a poucos minutos de combate.
A resolução também enfraquece o embate filosófico entre Xavier e Apocalipse. Charles afirma que os vínculos considerados uma fraqueza pelo adversário são justamente aquilo que garante a sobrevivência dos X-Men. A ideia resume perfeitamente a franquia; os mutantes não sobrevivem porque são individualmente mais fortes, mas porque formam uma comunidade. Entretanto, a temporada não oferece tempo suficiente para que essa resposta seja conquistada. Xavier não derrota a lógica de Apocalipse; ele apenas resiste até que Vampira chegue poderosa o bastante para encerrar a luta.
Paradoxalmente, é Noturno quem transforma essa conclusão apressada em algo emocionalmente significativo. Quando Vampira parece condenada a pagar o preço por ter salvado Remy, Kurt se oferece em seu lugar. Seu sacrifício não é somente uma tentativa de chocar o público. Ele encerra — ao menos aparentemente — a trajetória de um personagem cuja fé nunca foi apresentada como passividade. Noturno acredita na compaixão como uma ação radical. Ao entregar a própria vida pela irmã, ele responde a Apocalipse de maneira mais contundente do que qualquer discurso ou batalha; o mais forte não é aquele que sobrevive a qualquer custo, mas aquele que decide que outra pessoa merece continuar vivendo.
A morte é comovente porque respeita a essência de Kurt, mas também desperta certa desconfiança. X-Men ’97 ressuscitou Gambit pouco depois de transformar sua morte em um dos momentos mais marcantes da série. Em um universo de viagens temporais, entidades cósmicas e realidades alternativas, qualquer despedida pode ser revertida. Caso Noturno retorne rapidamente, a produção corre o risco de transformar o sacrifício em mais uma ferramenta temporária de comoção.
A redução para nove episódios ajuda a explicar a sensação de que falta um capítulo entre a preparação e a conclusão. O material disponível sobre o episódio originalmente planejado indica que a versão anterior incluiria elementos de Era do Apocalipse e prepararia Massacre, o que talvez tornasse a temporada ainda mais congestionada, em vez de resolver sua falta de foco. A decisão de eliminar esse capítulo, portanto, não é necessariamente o problema; o erro foi preservar histórias demais depois da redução. As mudanças realizadas nos roteiros da temporada e a existência de outros planos para o décimo episódio foram comentadas publicamente pelo antigo responsável da série.
A cena pós-créditos aponta para uma terceira temporada marcada pelo avanço institucional do preconceito. Graydon Creed assume a presidência dos Estados Unidos, enquanto Mística aparece infiltrada sob a identidade de Valerie Cooper. É uma promessa interessante porque pode devolver à produção sua característica mais forte; utilizar os absurdos dos quadrinhos para discutir o funcionamento real da intolerância. Em vez de outro vilão cósmico que ameaça destruir tudo, o próximo perigo pode vir de dentro do governo, legitimado pelo medo e pelo voto.
Se o primeiro ano provou que era possível atualizar um desenho clássico sem tratá-lo como relíquia, o segundo mostra os riscos de confundir velocidade com intensidade. X-Men ’97 ainda é uma das produções mais interessantes da Marvel, mas desta vez sua ambição ultrapassa o espaço disponível. A temporada começa perguntando como nasce um tirano e termina simplesmente derrotando-o. No caminho, encontra momentos excelentes; como conjunto, porém, sobrevive mais pela força de seus personagens do que pela coesão de sua narrativa.
A segunda temporada de X-Men '97 já está disponível no Disney+.
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