Crítica | A Queda 2: No Limite - Transforma a vertigem em espetáculo, mas perde o equilíbrio no caminho.
| Divulgação | Paris Filmes |
• Por Alisson Santos
Existe algo eficiente na premissa de A Queda; colocar personagens a centenas de metros do chão e obrigá-los a permanecer ali enquanto todas as possibilidades de sobrevivência desaparecem pouco a pouco. O primeiro filme, lançado em 2022, entendia que não precisava de uma mitologia elaborada para provocar desconforto. Bastava uma estrutura enferrujada, um espaço aberto demais e a câmera lembrando constantemente ao espectador o tamanho do vazio abaixo. A Queda 2: No Limite tenta reproduzir essa sensação, mas descobre rapidamente que aumentar a altura não significa necessariamente aumentar a tensão.
Dirigido pelos irmãos Peter e Michael Spierig, o longa acompanha Jax Hunter (Harriet Slater), irmã de Shiloh, personagem que esteve no centro do primeiro filme, e Luce (Arsema Thomas), amiga da falecida. Ainda lidando com a perda de Shiloh, Jax acaba convencida a viajar para a Tailândia para realizar uma das aventuras que fazia parte da chamada “Fuck-It List” da irmã; atravessar a perigosa Death Dragon Trail, uma passagem de madeira instalada nas encostas do Monte Kwan.
A escolha do local é uma das decisões mais acertadas da continuação. Enquanto o filme anterior transformava uma torre de televisão abandonada em uma prisão vertical, aqui a ameaça está espalhada por uma montanha inteira. As tábuas estreitas, os precipícios e a instabilidade da estrutura criam uma geografia naturalmente hostil. Quando uma sequência de acontecimentos transforma a caminhada em uma luta pela sobrevivência, o filme encontra aquilo que sabe fazer melhor; colocar o espectador diante do abismo.
A fotografia aproveita bem essa dimensão. Os enquadramentos alternam planos abertos, que revelam a pequenez das personagens diante da paisagem, com imagens mais fechadas que exploram o desconforto físico de cada movimento. Em determinados momentos, basta uma personagem olhar para baixo para que a cena funcione. É justamente nessas situações que A Queda 2 demonstra que ainda existe força na simplicidade da franquia.
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O problema aparece quando o roteiro precisa fazer algo além de colocar suas protagonistas em perigo. Jax e Luce deveriam ser o coração emocional da história, mas o desenvolvimento das duas é irregular. Harriet Slater transmite convincentemente o medo e a insegurança de Jax, enquanto Arsema Thomas traz uma energia diferente para Luce, estabelecendo uma dinâmica de contraste entre as duas. As atrizes, porém, frequentemente parecem ter mais material para interpretar do que o próprio roteiro consegue oferecer.
A relação entre elas é construída principalmente a partir da memória de Shiloh e de revelações sobre o passado. A intenção é clara, transformar a escalada em uma espécie de processo de luto, no qual Jax precisa confrontar não apenas seu medo das alturas, mas também a imagem idealizada que construiu da irmã. A ideia poderia render um drama interessante sobre culpa, perda e a dificuldade de continuar vivendo depois de uma tragédia. Entretanto, o filme explica demais aquilo que poderia simplesmente mostrar.
Os flashbacks envolvendo Jax e Shiloh ajudam a compreender a relação entre as duas, mas aparecem com frequência suficiente para interromper o ritmo da aventura. Em vez de aprofundar organicamente a personagem, algumas dessas lembranças acabam funcionando como lembretes constantes de que Jax precisa superar seus medos. O recurso se torna repetitivo justamente porque o próprio filme insiste em verbalizar a transformação que deveria estar acontecendo diante da câmera.
Esse problema se torna ainda mais evidente quando o suspense começa a depender de reviravoltas. A Queda 2 parece acreditar que uma situação extrema precisa obrigatoriamente vir acompanhada de uma grande revelação. O resultado é uma sucessão de informações que tenta ampliar a história para além do simples thriller de sobrevivência. Algumas delas conseguem mudar momentaneamente a percepção do espectador sobre o que está acontecendo; outras parecem existir apenas para prolongar a narrativa.
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Quanto mais o roteiro tenta adicionar camadas à história, menos interessante se torna a situação fundamental. Duas pessoas estão presas em um lugar perigosíssimo. Elas precisam encontrar uma maneira de sair. Essa premissa já é suficiente. O filme não precisava transformar cada novo acontecimento em uma oportunidade para uma explicação ou uma reviravolta.
Ainda assim, seria injusto dizer que A Queda 2 não funciona como entretenimento. Funciona — especialmente quando abandona o drama expositivo e simplesmente coloca suas personagens em risco. Há sequências genuinamente desconfortáveis, principalmente quando a fragilidade da estrutura fica evidente. O som das madeiras, o vento, a chuva e a distância do chão contribuem para criar uma sensação física de perigo. Mesmo sabendo que o filme trabalha com exageros, existe uma eficácia quase instintiva nesses momentos. O espectador entende imediatamente o que está em jogo.
A questão é que essa tensão não se mantém durante toda a duração. O longa alterna momentos de suspense legítimo com passagens em que a lógica dos acontecimentos começa a exigir uma dose considerável de boa vontade. Algumas decisões das personagens também parecem determinadas mais pela necessidade de fazer a trama avançar do que por um comportamento plausível. Essa diferença entre espetáculo e narrativa é o principal problema de A Queda 2. Visualmente, o filme sabe exatamente o que quer provocar. Dramaticamente, nem sempre sabe por que aquelas personagens deveriam importar tanto para nós.
A Queda 2 estreia em 1° de outubro nos cinemas.
Avaliação - 5/10
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