Crítica | Morte e Vida Madalena - Uma comédia sobre luto, maternidade, criação e a necessidade quase irracional de continuar fazendo cinema quando tudo parece conspirar contra.

Divulgação | Embaúba Filmes

• Por Alisson Santos 

Morte e Vida Madalena parte de uma situação que poderia facilmente render apenas uma comédia sobre os bastidores de uma produção cinematográfica, mas Guto Parente encontra nesse caos uma oportunidade para falar sobre luto, maternidade, criação e, principalmente, sobre a necessidade quase irracional de continuar fazendo cinema quando tudo parece conspirar contra isso.

No centro dessa bagunça está Madalena, interpretada por Noá Bonoba, uma produtora grávida de oito meses que tenta finalizar um filme de ficção científica escrito pelo pai recém-falecido. Quando o diretor e ex-marido desaparece, ela passa a carregar praticamente sozinha o peso de uma produção cheia de problemas. A premissa já estabelece um contraste interessante; enquanto uma nova vida está prestes a começar, Madalena precisa lidar com a ausência definitiva de alguém que acabou de perder.

É justamente nessa sobreposição de vida e morte que o filme encontra sua identidade. O título não está ali apenas como uma brincadeira com a conhecida expressão. A história inteira parece construída sobre essa contradição. Madalena está simultaneamente encerrando um ciclo e iniciando outro, tentando transformar o legado do pai em alguma coisa concreta enquanto seu próprio futuro se aproxima de uma mudança irreversível.

Parente utiliza o cinema dentro do cinema para transformar essa crise pessoal em uma espécie de extensão do próprio processo criativo. O set funciona quase como um organismo em colapso; falta dinheiro, as pessoas se desentendem, decisões precisam ser tomadas às pressas e cada pequeno problema ameaça interromper o projeto. Em vez de apresentar a produção cinematográfica como algo glamouroso, o filme abraça a precariedade, a improvisação e o absurdo que podem fazer parte do cinema independente brasileiro.

E há algo divertido nessa escolha porque Morte e Vida Madalena entende que o ridículo também pode existir ao lado da paixão. Os personagens não estão simplesmente enfrentando dificuldades; eles continuam tentando filmar mesmo quando a situação já parece completamente insustentável. O humor nasce justamente dessa persistência. É como se cada novo desastre fosse menos um motivo para desistir e mais uma razão para improvisar.

Noá Bonoba é fundamental para que essa mistura de caos e sensibilidade funcione. Madalena não é construída como uma personagem tradicional que controla perfeitamente a situação. Pelo contrário; ela frequentemente parece estar apenas tentando sobreviver ao próximo problema. A atriz consegue transmitir essa exaustão sem transformar a personagem em alguém permanentemente abatida, preservando uma energia que combina com a natureza imprevisível da história.

Divulgação | Embaúba Filmes

O filme também encontra uma maneira curiosa de falar sobre maternidade sem fazer dela simplesmente o destino da personagem. A gravidez está presente o tempo inteiro, mas Madalena não deixa de ser produtora, filha, mulher e profissional para se tornar apenas uma futura mãe. Sua gestação se transforma em parte da pressão temporal da narrativa; existe um filme que precisa ser terminado e existe uma criança prestes a nascer. Duas coisas completamente diferentes disputam o mesmo espaço na vida dela.

Essa ideia se conecta ao próprio tema do fazer cinematográfico. Produzir um filme também significa dar forma a algo que ainda não existe. Há planejamento, ansiedade, improviso e, eventualmente, o momento em que aquela criação precisa finalmente nascer. Parente aproxima esses dois processos sem transformar a metáfora em algo excessivamente explicativo.

Outro aspecto interessante é a forma como o longa parece compreender o cinema independente não apenas como cenário, mas como assunto. A precariedade deixa de ser um detalhe e passa a definir a experiência dos personagens. Isso dá ao filme uma dimensão metalinguística que vai além da simples história de "um filme sendo filmado". O que está em jogo é justamente a pergunta sobre por que alguém continua tentando criar quando seria muito mais fácil abandonar tudo.

Nem todas as escolhas têm o mesmo impacto. O ritmo irregular pode fazer algumas situações se estenderem mais do que deveriam, e determinadas passagens dependem bastante da disposição do espectador em embarcar no humor peculiar proposto por Parente. É uma comédia que não está interessada em transformar cada situação em uma piada convencional, preferindo encontrar graça no desconforto, no improviso e na sucessão de pequenos desastres. Isso pode tornar a experiência menos imediata para quem espera uma comédia mais tradicional. Por outro lado, é justamente essa personalidade que impede Morte e Vida Madalena de parecer apenas mais uma produção sobre os bastidores do cinema.

No fim, o filme é menos sobre conseguir terminar uma obra cinematográfica e mais sobre o que significa continuar criando enquanto a vida ao redor muda de maneira incontrolável. O set pode estar desmoronando, o diretor pode ter desaparecido e o orçamento pode não ser suficiente, mas Madalena continua andando para frente.

E talvez essa seja a maior graça do filme; Morte e Vida Madalena transforma o caos em método e a precariedade em combustível. É uma história sobre cinema, mas também sobre insistência. Sobre perder alguém e ainda assim precisar seguir vivendo. Sobre criar alguma coisa nova enquanto outra parte da sua vida chega ao fim. No meio de tantos problemas, Madalena simplesmente continua. E é nessa obstinação, muito mais do que nas situações absurdas do set, que o filme encontra sua humanidade.

Morte e Vida Madalena estreia amanhã nos cinemas.

Avaliação - 7/10

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