(MOSTRA SP) Crítica | Uma História Sobre o Fogo - Não é um filme para todos os públicos, mas para quem se deixa arder junto dele, há uma experiência genuinamente espiritual.

Divulgação | Parallax Films

• Por Alisson Santos 

Uma História Sobre o Fogo é uma dessas obras que parecem emergir de um tempo fora do tempo — como se tivessem sido encontradas dentro de uma pintura antiga e trazidas à vida por um sopro de fogo e tinta. Dirigido por Li Wenyu e produzido pelo Shanghai Animation Film Studio, o filme toma como ponto de partida uma lenda da minoria Qiang e a transforma em uma fábula sobre origem, transformação e o preço do conhecimento. À primeira vista, pode parecer apenas mais uma animação sobre a jornada de um herói em busca do fogo, mas o que o filme entrega é algo mais denso; uma meditação visual sobre o que significa tornar-se humano.

A história acompanha Ran Bi Wa, um macaco criado entre humanos que parte em busca do “segredo do calor”, uma espécie de chama sagrada que representa tanto o fogo literal quanto o poder simbólico da consciência. Movido pelo amor por sua mãe humana, Awubaji, e pela necessidade de entender o mundo ao seu redor, ele se lança em uma travessia que o conduz ao topo da Montanha Sagrada. No caminho, conhece Doggie, um lobo que se torna seu companheiro de jornada, e enfrenta criaturas que parecem brotar dos próprios medos e lembranças da natureza. 

Visualmente, o filme é de uma beleza singular. Li Wenyu e sua equipe abraçam o estilo das pinturas chinesas tradicionais, especialmente a técnica ink wash, transformando o quadro em algo próximo de uma paisagem viva, fluida, como se cada rocha, névoa e folha se dissolvesse no papel. Essa estética antiga, trabalhada com a fluidez da animação contemporânea, cria uma atmosfera que se move entre o sonho e o mito. As cores são inicialmente suaves, dominadas por cinzas e azuis apagados, até que o fogo — elemento central da narrativa — começa a invadir a tela com tons de vermelho e dourado, dando ao filme um crescendo cromático que reflete o próprio percurso espiritual do protagonista.

A escolha de reduzir os diálogos e confiar no poder das imagens é arriscada e, em muitos momentos, recompensadora. O som do vento, o crepitar das chamas, os ruídos dos animais e o silêncio entre um passo e outro constroem uma paisagem sonora hipnótica, que convida o espectador à contemplação. No entanto, essa mesma escolha impõe um desafio; o ritmo, por vezes, se torna irregular, e a narrativa, fragmentada, exige uma disposição rara de quem assiste — a de aceitar a lentidão e preencher as lacunas deixadas pela simplicidade da trama. Não é um filme que explica; é um filme que sugere.

Há também um interesse profundo em explorar a fronteira entre o humano e o animal. Ran Bi Wa é, desde o início, uma criatura que não pertence completamente a lugar nenhum. Ele é o “outro” em qualquer ambiente — o macaco entre humanos, o humano entre macacos, o ser que se vê obrigado a queimar sua própria pele para encontrar uma identidade. Essa travessia entre estados é um espelho da condição humana universal; o constante desejo de ultrapassar fronteiras, mesmo quando o preço é a própria inocência. Nesse sentido, a chama que Ran Bi Wa rouba ou conquista não é apenas um símbolo de conhecimento, mas de perda — o fogo que ilumina também queima, e sua luz revela tanto a grandeza quanto a tragédia do que chamamos de humanidade.

Divulgação | Parallax Films

O lobo Doggie cumpre a função simbólica do amigo, do alter ego, do reflexo selvagem que acompanha Ran em sua transmutação. A amizade entre os dois é construída com sutileza, em olhares e gestos, sem sentimentalismo excessivo. Há momentos de ternura silenciosa, e outros de pura brutalidade natural. O filme não teme mostrar a violência do mundo — há sangue, há morte, há dor — e isso o distancia do imaginário infantil que costuma acompanhar as animações. Trata-se de uma obra de animação feita para adultos, ou ao menos para um público capaz de perceber a poesia e a ferocidade convivendo lado a lado.

A leitura simbólica do fogo é múltipla e profunda. Ele é o dom dos deuses, a centelha da vida, o motor do progresso e da destruição. É o fogo de Prometeu e, ao mesmo tempo, o fogo da alma que busca sentido. Ao final, quando Ran Bi Wa é consumido pelas chamas e renasce humano, há um desconforto evidente; a metamorfose não é gloriosa, é trágica. O corpo é queimado, a inocência é perdida, o animal é sacrificado para que o homem nasça. O filme, em sua sutileza poética, parece sugerir que toda civilização se ergue sobre uma ferida, sobre uma morte primitiva necessária para que o “eu” possa existir.

Mas nem tudo é perfeito. Apesar da força estética e do impacto simbólico, a narrativa de Uma História Sobre o Fogo carece de certa coesão dramática. Os capítulos da jornada são montados quase como vinhetas, o que confere uma estrutura mítica, mas também cria distâncias emocionais entre as partes. Há uma desconexão pontual entre o que se vê e o que se sente — como se o filme preferisse permanecer como pintura viva, ao invés de se entregar totalmente ao fluxo emocional do espectador. Ainda assim, é justamente essa hesitação entre arte e emoção que o torna peculiar, quase litúrgico.

Uma História Sobre o Fogo é, enfim, um poema visual sobre a dor de existir. É um daqueles raros filmes que parecem falar mais com o inconsciente do que com a mente racional. Sua beleza é tão etérea quanto o fogo que retrata; cintila, dança, desaparece, mas deixa uma marca. Não é um filme para todos os públicos — talvez muitos se percam em sua lentidão, em seu hermetismo poético, em sua recusa a explicar —, mas para quem se deixa arder junto dele, há uma experiência genuinamente espiritual.

O filme será exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com sessões marcadas para os dias 18, 22, 25 e 27 de outubro.

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