Conto | A Mãe dos Sonhos e da Carne

Divulgação | MDH Entretenimento 

• Por Alisson Santos 

Lucas sempre acreditou que Lira era apenas intensa. Nunca desconfiou — nem em seus devaneios mais sombrios — que ela pudesse ser habitável. Habitada. Ou pior; ser apenas a porta por onde algo muito mais antigo o observava.

Lira era emoção viva. Chorava por migalhas, tremia diante de silêncios, mergulhava em ciúmes como quem mergulha em água fervente. Tinha medo do abandono como outros têm medo do fogo. E Lucas, tolo e apaixonado, entrou no relacionamento como quem entra num templo que não conhece; ajoelhando-se sem entender o que cultua.

Mas as primeiras semanas… ah, as primeiras semanas eram um encantamento.

Ela o beijava como quem precisasse dele para existir. Dormia agarrada ao corpo dele como se fosse uma âncora. E à noite, sempre à noite, dizia que sonhava com “uma mulher enorme, muito linda”, que a abraçava por trás e a acalmava enquanto ela dormia.

— Ela me protege — dizia Lira, com um sorriso sereno demais para alguém tão frágil.

Lucas ria. Atribuía tudo ao emocional dela.
Não sabia que certas presenças não são metáforas. São parasitas.

Os sinais vieram devagar.

Às 23h em ponto, todos os dias, Lira ligava. Não antes, não depois. E se ele demorasse a atender, ela já aparecia com olhos estourados de choro, repetindo que sentia “um peso na cama, como se alguém se deitasse ao lado dela”.

Ao fundo, o quarto parecia sempre escuro demais. E a sombra na parede… não era só maior que Lira. Era curvada, como se observasse a tela. Respirava.

Aos poucos, Lucas começou a notar movimentos. Pequenos tremores. Ondulações na escuridão atrás dela. E um brilho opaco onde deveriam haver olhos — como uma criatura treinando a habilidade de imitar a forma humana.

Lira não percebia. Estava sempre ocupada demais sentindo medo, ansiedade, ciúmes, raiva. E todas essas emoções, Lucas notou depois, faziam a sombra engordar.

Na madrugada de um domingo, a presença invadiu o sono dele.

Ele sonhou com o quarto de Lira.
A cama estava molhada — não de água, mas de uma substância negra, viscosa, pulsante.
No centro da cama, Lira estava pequena, com as mãos tapando os ouvidos.

E por trás dela…

A coisa.

Uma mulher gigantesca, sinuosa, feita de carne escurecida, brilhante como resina. Os cabelos escorriam até o chão, mas cada fio se mexia sozinho, como serpentes esperando um comando. Os seios eram enormes, fartos, porém preenchidos por uma escuridão palpitante. E entre as pernas… algo se movia, latejava, respirava. Como se houvesse mais de uma vida ali dentro.

A criatura o fitou com olhos vazios e profundos.

E sussurrou para Lira:

— Ele precisa se doar mais. Ele ainda não abriu o peito. Exija. Tome. Recolha o que for seu.

Lira repetiu, como uma boneca quebrada:

— Você não se doa. Você não me dá tudo. Você precisa sofrer por mim.

Lucas acordou arfando, com a sensação de dedos longos arranhando sua espinha.

Ele não contou nada. Talvez porque, no fundo, já temia que ela dissesse; “Você está me abandonando porque tem medo.”

E ele tinha.
Mas não dela.

As cobranças de Lira se tornaram um ritual.
Mensagens constantes. Crises de ciúme que começavam sem motivo e terminavam sempre com ela dizendo que ia morrer sozinha. Chamadas de vídeo que exigiam confissões, promessas, submissões.

E a sombra...

Começou a aparecer no quarto dele.

Primeiro como um borrão. Depois como uma mancha na porta do guarda-roupa. Até que, numa noite, ele viu — pelo reflexo do celular — uma figura feminina enorme parada atrás dele, arqueando-se como uma aranha.

A respiração dela fazia o ar vibrar.

Era quente.
Era úmida.
Era… sexual.

O cheiro que a acompanhava era doce demais, quase intoxicante.Um cheiro de corpo, desejo e apodrecimento.

O fim veio com uma frase.

Lira, empapuçada de choro e raiva, gritou:

— Você me causa isso! Você desperta o pior em mim! Você me destrói!

E atrás dela, Lucas viu a sombra abrir o corpo.
Literalmente. Como se rasgasse o próprio tórax para expor uma boca enorme, cheia de dentes longos e molhados. A sombra bebeu algo do ar — algo que Lucas só percebeu depois; bebeu a dor de Lira, como leite quente.

A criatura se alimentava de instabilidade.
De dependência.
De drama.
De culpa.

Era uma súcubo. Mas não daquelas dos livros, cheias de sedução elegante. Era um bicho primitivo. Fome pura em forma de mulher.

Lira chamou Lucas para conversar dois dias depois.

O apartamento estava escuro, silencioso, impregnado daquele cheiro doce.

Ela estava sentada na cama, com uma tranquilidade impossível.

— Lucas… esse relacionamento não me faz bem. Eu preciso me cuidar.

Ele engoliu o próprio nome junto com o ar.

— Eu fiz tudo por você…

— Eu sei — ela disse, com um vazio infantil. — Só que eu continuo vazia. Nada me preenche.

Ele quis abraçá-la.
Mas ouviu algo atrás de si.

Um roçar.
Um estalo molhado.
Uma respiração… satisfeita.

Virou devagar.

E viu.

A súcubo estava a um palmo do seu rosto.

Agora ela tinha feições mais claras.
Tinha boca. Tinha fendas por onde saíam vapores quentes. Tinha seios que subiam e desciam com respirações famintas. E quando abriu as coxas, Lucas viu dezenas de olhos pequenos, brilhando como larvas recém-nascidas.

Era bela de um jeito profano, animalesco, grotescamente maternal.

Uma voz rouca invadiu a cabeça dele:

— Você a nutriu… por mim. Agora é a sua vez de ser nutrido.
A carne que sofre é a mais doce.
E você tem tanto.
Tanto…

Lira saiu do quarto.
Não olhou para trás.

A porta se fechou.
E o quarto se tornou útero.

Escuro.
Quente.
Profano.

A súcubo o abraçou com braços longos demais, trazidos diretamente do fundo dos sonhos masculinos — onde o desejo e o horror são a mesma coisa.

Lucas tentou correr.
Foi inútil.

Ela grudou na pele dele como ventosas.
Beijou seu pescoço com uma língua bifurcada.
E sussurrou:

— Você é meu agora.
Meu alimento.
Meu filho.
Minha cama.

Ele sentiu o corpo fraquejar, como se a energia fosse drenada pelos poros. Sentiu a mente pesar, como se sonhos fossem sugados. Sentiu o desejo virar medo, e o medo virar prazer, e o prazer virar dor, e tudo se misturar num caldo profano que entrava pelos ossos.

A última coisa que ouviu naquele quarto foi uma risada baixa e materna, como o ronronar de uma besta satisfeita.

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