Conto | A Última Noite Antes do Eco

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Eles se amaram como quem encontra um espelho numa casa abandonada.

Não era falta de conexão — ao contrário. Quando se tocavam, o mundo parecia alinhar os ossos. O sexo não era fuga nem exagero; era silêncio compartilhado, respiração sincronizada, a rara sensação de estar exatamente onde se deveria estar. Mas fora da cama havia o ruído. Um ruído constante, invisível, crescendo entre eles como mofo nas paredes.

Ambos eram ansiosos. Não do tipo barulhento — eram ansiedades educadas, quase gentis. Ela temia o futuro como quem escuta passos atrás da porta. Ele revivia o passado como quem lê cartas que nunca deveriam ter sido abertas de novo. Nenhum dos dois fazia isso por maldade. Era só o jeito como o mundo lhes habitava por dentro.

Foi então que a casa começou a mudar.

No início, eram detalhes; o corredor parecia mais longo à noite, o relógio atrasava apenas quando discutiam, e o espelho do quarto não refletia exatamente o mesmo instante. Às vezes, quando ela sorria, o reflexo demorava um segundo a acompanhar — como se estivesse cansado.

Eles perceberam tarde demais que a casa se alimentava de expectativas não ditas.

Havia algo ali, mas não era um monstro. Era um Lugar Sensível — um tipo raro de construção encantada que reage às emoções humanas. As paredes absorviam o medo de abandono, o chão rangia com pensamentos repetidos, e o teto se curvava levemente toda vez que um dos dois imaginava o fim.

À noite, quando se abraçavam, sombras suaves se acomodavam ao redor da cama, não para assustar, mas para ouvir. As sombras cochichavam possibilidades:
"E se isso acabar?"
"E se já tiver acabado?"

O terror não vinha de gritos, mas da antecipação.

Certa madrugada, ele acordou com a sensação de que alguém estava sentado entre eles. Não havia ninguém — apenas um espaço frio, denso, como um intervalo. Ela acordou também, ofegante, dizendo que sonhara com uma porta que só se abria por dentro, mas não tinha maçaneta.

Foi quando entenderam.

A casa não queria separá-los. Ela apenas materializava o que eles já traziam; o medo de não serem suficientes, o pavor de falhar, a urgência de controlar o que só existe enquanto é vivido. O amor estava ali, inteiro. O problema era o tempo — sempre correndo à frente deles, sempre cobrando decisões que ainda não sabiam tomar.

Na última noite juntos, fizeram amor como quem se despede de um idioma. Não houve desespero, apenas melancolia. As sombras se afastaram, respeitosas. O espelho, finalmente, refletiu sem atraso.

Quando ele saiu, a casa encolheu. Não por raiva, mas por luto.

Anos depois, dizem que a casa ainda existe, escondida entre ruas comuns. Não assombra quem entra. Apenas amplifica. Casais que passam por lá sentem um frio estranho no peito — não de medo, mas de reconhecimento. Alguns vão embora de mãos dadas. Outros, sozinhos.

Porque nem todo terror nasce da ausência de amor.

Às vezes, ele nasce justamente do contrário; de amar profundamente e ainda assim não conseguir ficar.

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