Crítica | Isso Ainda Está de Pé? - É um filme para quem já amou, feriu e, ainda assim, ousou continuar acreditando que a vida pode, sim, estar — de algum modo inesperado — ainda de pé.
| Divulgação | 20th Century Studios |
• Por Alisson Santos
Isso Ainda Está de Pé? é uma obra que beira o contraditório; ao mesmo tempo em que se apresenta como uma comédia romântica leve, instaura uma reflexão madura sobre amor, identidade e reinvenção na meia-idade. Sob a direção sensível de Bradley Cooper, o filme foge do esperável e abraça uma sinceridade tranquila — discreta, mas profundamente humana — sobre o fim de um casamento e os caminhos inesperados que surgem depois dele.
No centro da história estão Alex (vivido por Will Arnett) e Tess (interpretada por Laura Dern), um casal que decide encarar o término de uma longa relação com honestidade e respeito, mas enfrenta a dolorosa tarefa de redefinir quem são sem perder o carinho um pelo outro. O ponto de partida — um homem que entra por acaso em um clube de comédia e se descobre comediante — poderia soar trivial ou forçado, mas o filme o usa como metáfora para algo mais profundo; o humor como linguagem emocional e a performance como caminho de autodescoberta.
Mais do que um romance sobre o fim de um casamento, Isso Ainda Está de Pé? mostra o processo de reaprender a existir fora de rótulos e expectativas. Alex não encontra simplesmente uma nova carreira; ele encontra uma forma de falar sobre sua própria vulnerabilidade. Esta transição de identidade, de marido, pai e profissional para algo indefinido, é capturada com uma honestidade desconcertante, e é aí que o filme mais acerta.
A direção de Cooper marca uma quebra com seus trabalhos anteriores (Nasce Uma Estrela, Maestro) ao adotar uma estética menos grandiosa e mais orgânica. A câmera se aproxima das personagens, privilegia longos takes em momentos íntimos e dá espaço para as nuances sutis de expressão, silêncio e descompasso — escolhas que sublinham um realismo quase documental.
O uso frequente de close-ups em cenas de stand-up é um destaque estilístico. Ele não só sublinha a ansiedade de Alex diante da plateia, mas também nos convida a sentir o que ele sente; a mistura de medo, desejo de aceitação e, paradoxalmente, uma sensação de pertencimento. Essa fluidez entre o interior e o exterior dos personagens é a força narrativa do filme.
| Divulgação | 20th Century Studios |
Will Arnett surpreende ao revelar nuances dramáticas que poucos esperariam dele. Seu Alex não é simplesmente um protagonista engraçado, mas um homem que descobre, no microfone de um clube de comédia, uma forma de externalizar emoções que ele nem sabia que tinha. A partir de uma noite impulsiva — ele apenas queria evitar pagar a entrada — começa a escrever suas próprias piadas e, com elas, a redescobrir partes enterradas de si mesmo. O humor, aqui, não é apenas uma ferramenta narrativa; é um ato de coragem, um grito de validação em meio ao vazio que a separação deixou.
Laura Dern, como Tess, entrega uma performance igualmente sensível, imprimindo à personagem um equilíbrio entre força e vulnerabilidade. Seu retrato de uma mulher que pondera os sacrifícios feitos ao longo do casamento — e que agora tenta reconstruir seus próprios sonhos — é uma das linhas emocionais mais convincentes do filme. A química entre Arnett e Dern não é explosiva nem apaixonada nos moldes hollywoodianos, mas visceralmente real; seu relacionamento parece gente de verdade, com familiaridade, fricção, ternura e memórias que nunca se apagam totalmente.
O restante do elenco, incluindo Cooper, cria uma atmosfera de familiaridade e amizade que serve tanto de alívio cômico quanto de espelho para o público. São figuras que conhecemos, que já fomos ou que observamos em círculos sociais reais.
Mas Isso Ainda Está de Pé? não é perfeito. O humor, por vezes, parece subestimado, reflexo do próprio texto, que trata a comédia mais como linguagem emocional do que como fonte de gargalhadas. Certas sequências também podem parecer arrastadas para quem busca ritmo mais ágil. Eu também sinto que algumas subtramas de apoio, embora bem-intencionadas, flertam com o exagero e distraem da jornada central.
Ainda assim, Isso Ainda Está de Pé? é um dos filmes mais honestos sobre amor e perda que o cinema recente nos ofereceu. Ele não é perfeito — mas é profundamente humano. É uma obra que respira intimidade e nos lembra que rir de nós mesmos pode ser tanto um gesto de coragem quanto de ternura. É um filme para quem já amou, feriu e, ainda assim, ousou continuar acreditando que a vida pode, sim, estar — de algum modo inesperado — ainda de pé.
Isso Ainda Está de Pé? estreia em 19 de fevereiro nos cinemas.
Avaliação - 7/10
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