Crítica | A Sapatona Galáctica - Flerta com o nonsense, com o humor ácido e com uma irreverência quase anárquica, mas nunca perde completamente a mão a ponto de virar um compilado de esquetes.

Divulgação | Synapse Distribution

• Por Alisson Santos 

A Sapatona Galáctica é daqueles filmes que chegam com cara de piada, estética de delírio pop e título impossível de ignorar, mas que, aos poucos, vão revelando uma intenção muito mais afiada do que a simples vontade de chocar ou fazer graça. Dirigido e roteirizado por Leela Varghese, essa animação adulta se apoia numa premissa aparentemente absurda — uma princesa lésbica no espaço em uma missão emocionalmente desastrosa — para construir uma animação que mistura aventura sci-fi, comédia debochada e um coração surpreendentemente vulnerável.

A história acompanha Saira, uma princesa espacial que não tem nada da imponência clássica do arquétipo. Ela é insegura, fechada, emocionalmente desajeitada e, por isso mesmo, extremamente humana. Quando a trama a empurra para uma jornada de resgate envolvendo a ex-namorada, Kiki, o filme faz algo esperto; ele transforma o que poderia ser apenas uma missão de ação em uma metáfora bastante direta sobre amadurecimento afetivo. A galáxia aqui não é só cenário; ela funciona como extensão do caos interno da protagonista. É como se o roteiro dissesse o tempo todo que atravessar o universo é fácil — difícil mesmo é atravessar a si mesma.

O grande mérito da direção de Varghese está no controle do tom. A Sapatona Galáctica flerta com o nonsense, com o humor ácido e com uma irreverência quase anárquica, mas nunca perde completamente a mão a ponto de virar um compilado de esquetes. Mesmo quando o filme se entrega a piadas mais escancaradas ou a situações propositalmente caricatas, existe uma linha emocional sustentando tudo. Isso é especialmente importante porque, em animações com essa proposta, é comum que a representatividade vire apenas um “selo” ou uma estética. Aqui, não. A sexualidade e a identidade dos personagens não são um detalhe decorativo; são parte do motor dramático, do tipo de ferida emocional que move escolhas, diálogos e silêncios.

O roteiro tem um senso de humor que sabe onde quer chegar. Ele brinca com estereótipos e com as convenções de ópera espacial, mas sem parecer um filme que só existe para satirizar. É mais interessante do que isso; ele usa o universo da ficção científica para desmontar normas e expectativas sociais, especialmente aquelas ligadas a relacionamentos, performance emocional e pertencimento. Existe um componente de crítica cultural no modo como certos grupos são retratados, e embora isso possa soar exagerado para alguns espectadores, o filme não tenta ser neutro. Ele tem lado, tem voz e tem personalidade, e isso dá força à experiência.

Visualmente, o longa abraça uma estética vibrante, com cores que parecem gritar o tempo inteiro. Não é uma animação que busca realismo, nem tenta competir com os grandes estúdios em sofisticação técnica. O charme está justamente no estilo; uma mistura de traço indie com exagero pop, como se o filme tivesse sido feito com energia de fanzine, mas com consciência cinematográfica. A direção de arte transforma o espaço em um playground emocional, onde cada planeta, cada nave e cada figura secundária parece existir para amplificar o tom de estranheza e liberdade que o filme defende.

Divulgação | Synapse Distribution

Se existe um ponto em que A Sapatona Galáctica perde um pouco de potência, é na pressa. O filme é relativamente curto e, por isso, algumas ideias e personagens secundários passam rápido demais. Há um universo ali que poderia ser mais explorado, com mais tempo para respirar, para criar camadas, para tornar certos conflitos menos imediatos. Em alguns momentos, parece que o roteiro está tão interessado em manter o ritmo e em não deixar a energia cair que ele sacrifica oportunidades de aprofundamento. Isso não chega a comprometer a experiência, mas deixa a sensação de que o longa poderia ser ainda mais marcante se tivesse mais espaço para desenvolver suas próprias invenções.

Ainda assim, o saldo é extremamente positivo. O filme se destaca por conseguir ser engraçado sem ser vazio, político sem ser panfletário o tempo todo, e emocional sem virar melodrama. No fim, A Sapatona Galáctica funciona como uma animação que entende que representatividade não é só presença — é perspectiva. E a perspectiva de Leela Varghese é clara; contar uma história sobre amor, insegurança, desejo e pertencimento com liberdade estética, humor corajoso e uma honestidade emocional que raramente aparece em narrativas do gênero.

É um filme que pode parecer pequeno para quem espera uma epopeia espacial tradicional, mas que se torna grande justamente por não ter medo de ser estranho, íntimo e barulhento ao mesmo tempo. E, no panorama atual do cinema de animação, isso por si só já é um feito.

Estreia com exclusividade em salas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais neste 12 de fevereiro. A distribuição é da Synapse Distribution.

Avaliação - 6/10

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