Dirigido pelo brasileiro Thales Banzai, 'Antônio Odisseia' terá première mundial no Slamdance Film Festival
| Divulgação | 5 pra 2 |
• Por Alisson Santos
O cinema brasileiro marca presença em um dos festivais mais importantes do circuito independente internacional. Antônio Odisseia, primeiro longa-metragem do diretor brasileiro Thales Banzai, terá sua première mundial no Slamdance Film Festival, evento dedicado a filmes de estreia, curtas e produções de baixo orçamento ainda sem distribuição comercial. A edição deste ano acontece entre os dias 19 e 25 de fevereiro, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Selecionado entre mais de 10 mil títulos inscritos, o longa é uma coprodução entre Brasil e EUA e se apresenta como uma viagem delirante e existencial conduzida por dois amigos em uma metrópole surreal, onde o cotidiano se mistura ao delírio e a realidade parece sempre prestes a desabar. No elenco, o filme é estrelado por Kelson Succi, Iraci Estrela e Sandro Guerra, e conta ainda com participações especiais de nomes emblemáticos como Antônio Pitanga, Leci Brandão, Luiz Bertazzo e a saudosa Teuda Bara, em um de seus últimos trabalhos no cinema.
A trama acompanha Antônio, um jovem preto que trabalha em um boteco de beira de estrada e vive preso àquele lugar por conta de uma dívida impossível de pagar com Seu Cássio, um velho vigarista violento que controla tudo ao redor. A rotina sufocante do protagonista é interrompida quando Ivone, sua melhor amiga, reaparece de surpresa com um plano; assaltar o boteco e roubar armas e uma nova droga traficada na região. Como Antônio conhece cada canto do local e sabe onde Seu Cássio esconde o “produto”, ele se torna peça central do golpe.
O assalto dá certo, mas a história se recusa a seguir por caminhos previsíveis. Em vez de venderem a droga e fugirem com o dinheiro, Antônio e Ivone decidem consumi-la por completo, mergulhando em uma jornada interior em busca de Deus. A partir daí, o filme se transforma em uma odisseia psicológica e espiritual, repleta de armadilhas, memórias traumáticas e encontros improváveis — incluindo um embate direto com Deus, que precisa justificar a Antônio por que a vida deles é como é.
Antônio Odisseia nasceu de um argumento desenvolvido por Thales Banzai e Kelson Succi, que também assina o roteiro e interpreta o personagem-título. Segundo o diretor, o longa é um filme que “não anda por caminhos certos” e “corre para enaltecer a dúvida”. A obra carrega inquietações compartilhadas por dois artistas de origens muito diferentes; Banzai, branco, de classe média, vindo do interior do Paraná; e Succi, preto, cria do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
A proposta estética e narrativa dialoga diretamente com o cinema brasileiro mais provocativo das décadas de 60 e 70, evocando o espírito underground de Rogério Sganzerla e os temas sociais de Glauber Rocha. Ambientado em uma cidade que se parece com São Paulo, mas nunca se confirma como tal, o longa constrói um espaço urbano simbólico e distorcido, funcionando como extensão da mente do protagonista e ampliando o tom surreal da narrativa.
A produção reúne ainda nomes de peso na equipe técnica. A narração é de Chico César, a música original é assinada por Kiko Dinucci, com arranjos de Arthur Verocai, e vocais de Leci Brandão e Elisa Pieruccini. O filme tem fotografia de Camila Cornelsen, direção de arte de Lucas Mariano, figurino de Vinny Araújo e montagem do próprio Thales Banzai. A duração é de 105 minutos.
| O diretor Thales Banzai |
Thales Banzai, que hoje vive em Los Angeles “com o coração no Brasil”, tem trajetória marcada pela produção independente e pela experimentação. Seus trabalhos anteriores vão de curtas filmados em VHS e projetos ligados ao skate até documentários e produções exibidas em festivais nacionais e internacionais, além de lançamentos no canal Nowness. Entre seus créditos está o documentário Duas Mulheres, Duas Vidas, Uma Luta, sobre Elza Soares e a judoca Rafaela Silva, que alcançou milhões de visualizações no YouTube, e o longa documental Favela é Moda, vencedor do Festival do Rio 2019, no qual atuou como produtor associado.
| O protagonista e roteirista Kelson Succi |
Já Kelson Succi, além de protagonizar o filme, carrega uma trajetória artística multifacetada como ator, poeta, dramaturgo e diretor. Nascido no Complexo do Alemão, ele foi premiado no Cannes Lions 2019 com Bluesman, de Baco Exu do Blues, e idealizou o espetáculo Cuidado com Neguin, criado a partir do desejo de protagonizar uma história “preta, potente e bela”. O artista também venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival Saindo da Gaveta pelo longa Selvagem (2019) e participou de projetos performáticos e audiovisuais que dialogam com crítica social e memória coletiva.
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