Entrevista | Mariana Rondón, diretora de 'Zafari', afirma que o filme fala das consequências do populismo e alerta: "O resultado do populismo, para mim, é enganar o outro. Fazer o outro acreditar. Transformar a política, que deveria ser um fato cívico, em atos de fé. E isso está crescendo muito."

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

A cineasta venezuelana Mariana Rondón, reconhecida internacionalmente por filmes como Pelo Malo — vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián — e Postales de Leningrado, volta ao centro das discussões do cinema latino-americano com Zafari, obra que circulou por festivais e agora chega aos cinemas brasileiros com uma visão poderosa sobre crise, sobrevivência e os instintos humanos mais básicos.

Distópico e profundamente simbólico, Zafari coloca sua protagonista e o ambiente ao redor em um universo onde a escassez de comida, água e energia vira metáfora do colapso social e moral. A partir da chegada de um hipopótamo — um animal que guarda aquilo que os outros já perderam; o essencial — Rondón constrói uma imagem inquietante de uma comunidade no limite da animalização.

Conversamos com a diretora sobre o processo criativo, as decisões narrativas e o significado do filme no contexto do cinema contemporâneo da América Latina.

1. A escassez no filme — comida, água, energia — remete a vivências reais da Venezuela, mas nunca é situada historicamente. Você queria proteger o filme do tempo ou evitar que ele fosse lido apenas como comentário político imediato?

Mariana Rondón:
Sim, claro. A escassez de comida, água e energia remete diretamente a circunstâncias absolutamente reais da Venezuela. Mas as razões para eu não situar a história explicitamente no país são várias.

Primeiro, porque eu queria que a leitura fosse maior, mais universal, e que também pudesse se aplicar a outros lugares no futuro. Eu acredito que o filme fala sobre as consequências dos populismos, e estamos vivendo um mundo profundamente populista. Não acho que os venezuelanos serão os únicos a passar por isso.

E existe outro motivo importante; eu também queria me proteger da censura tão forte na Venezuela, e conseguir distribuir o filme lá.

2. Em contextos de crise prolongada como o venezuelano, a ética se torna negociável. Foi importante mostrar personagens que não são monstros, mas pessoas adaptadas à escassez?

Mariana Rondón:
Sim. Para mim, um dos pontos centrais do filme era justamente essa pergunta; se você é capaz de tomar uma decisão ética — e o quanto isso importa.

É isso que a personagem Anna tenta fazer: não se juntar à barbárie. Porque o mais fácil é se juntar. É o caminho mais simples.

Com fome, não é exatamente “adaptação”. É uma luta quase animal. Você passa a funcionar como um animal; satisfazer sua própria necessidade, e pronto.

Eu queria mostrar como, quando você é submetido a níveis extremos de escassez e sofrimento, o individualismo se torna brutal. Cada um tenta resolver o seu, e já não consegue encarar o outro.

E mesmo personagens brutais — como Edgar, que é alguém que ninguém gosta — eu sempre defendi muito. Porque ele está quebrado. Ele está tão destruído que já não tem paz consigo mesmo. E, além disso, ele tem muito medo.

Eu sempre digo que Edgar carrega todos os meus medos. Talvez seja o personagem que mais tem de mim, justamente porque ele tem medo demais — como eu.

3. O filme evita explicações políticas diretas, mas provoca um desconforto quase físico no espectador. Você vê o cinema como algo que deve ser sentido no corpo antes de ser compreendido racionalmente?

Mariana Rondón:
O tema da Venezuela é tão polêmico e tão difícil que, em outros países, muita gente ligada à esquerda simplesmente não acredita quando alguém conta o que realmente acontece lá.

E eu acho que eu me lancei a fazer esse filme — que é profundamente incômodo — justamente para que quem assistisse pudesse sentir no corpo o que acontece quando você não tem luz, quando você não tem água.

Eu queria que você quase sentisse o cheiro daqueles corpos que já não conseguem tomar banho. Queria que você sentisse a sensação do estômago quando se está com fome.

Porque isso te distancia das consignas políticas, dos dogmas e de qualquer explicação intelectual. Isso te coloca no lugar físico daquela experiência.

4. O prédio funciona como um organismo que se esvazia lentamente. Você pensou esse espaço como um personagem vivo, capaz de adoecer e morrer?

Mariana Rondón:
Para mim, como caraquenha, a arquitetura é muito importante. Caracas é uma cidade onde o modernismo arquitetônico chegou com muita força e energia — em grande parte porque havia dinheiro e uma escola de arquitetura que conseguiu se nutrir do melhor do mundo.

Foi assim que a influência de Le Corbusier chegou à Venezuela. E o ponto de partida dessa arquitetura era a igualdade, a utopia da cidade para o proletariado.

Então, para mim, a arquitetura é essencial porque fala de algo maravilhoso, mas também da fratura, do quiebre, da perda das utopias. A utopia foi para o inferno. Não sobreviveu.

E o prédio do filme foi literalmente construído a partir de retalhos; a parte externa é da República Dominicana; o interior do apartamento veio de casas modernistas nos arredores de Lima; os corredores pertencem a outro edifício, também em Lima. Eu construí esse espaço cinematograficamente para que ele representasse esse modernismo quebrado, decadente, como símbolo do colapso das utopias.

5. Zafari sugere que a barbárie não nasce do caos, mas se revela quando desaparece o conforto. Isso é uma visão pessimista da humanidade ou uma visão honesta?

Mariana Rondón:
Eu não concordo com essa formulação, porque comer não é conforto. Tomar banho não é conforto. Ter luz não é conforto. Isso é o básico. O mínimo para um ser humano contemporâneo existir — e para conseguir ser civilizado.

E se a pergunta é se eu sou pessimista; sim, eu sou absolutamente pessimista.

Mas eu também pensava em outras leituras. Por exemplo; como imaginar, em meio ao populismo, o “homem novo” marxista? Para mim, o homem novo é aquela criança que já não gesticula, que já não tem linguagem, porque perdeu até a capacidade de se comunicar.

E meu universo não é só a Venezuela. Hoje somos milhões de venezuelanos espalhados pelo mundo. E o que eu vejo é que o populismo — não importa se de direita, de esquerda, ou de qualquer tipo — está crescendo em todo lugar.

O resultado do populismo, para mim, é enganar o outro. Fazer o outro acreditar. Transformar a política, que deveria ser um fato cívico, em atos de fé. E isso está crescendo muito. Basta ver o que está acontecendo nos Estados Unidos. O que eu vejo lá não é tão distante do que vimos acontecer na Venezuela.

6. Em muitas distopias ainda existe algum tipo de redenção. Em Zafari, essa saída parece negada. Foi uma decisão consciente confrontar o espectador sem oferecer alívio?

Mariana Rondón:
Quando começamos a escrever Zafari, a partir da notícia de um hipopótamo encontrado esquartejado em um zoológico de Caracas, imaginamos essa distopia quase como uma comédia negra.

Mas, conforme fomos escrevendo e inventando o que acontecia com os animais, percebemos que a realidade era mais forte. Ela nos venceu.

Chegou um ponto em que o que a gente inventava parecia bobagem diante do que estava acontecendo de verdade. E, pessoalmente, eu comecei a sentir pudor na hora de filmar com tom de comédia.

Porque eram situações reais, acontecendo com pessoas reais. E talvez não fosse justo rir disso naquele momento.

O tom de comédia funciona quando há distância histórica — quando se fala de ditaduras, totalitarismos, anos depois. Mas Zafari falava do hoje. Do agora. E isso tornou tudo muito complexo.

Talvez em 10, 20, 30 anos a gente consiga falar dessa época de maneira mais otimista. Quem sabe rir, ironizar. Mas agora ainda está perto demais.

7. Existe alguma cena ou decisão narrativa que você sabia que dividiria o público e que, mesmo assim, manteve por ser essencial para a verdade do filme?

Mariana Rondón:
Sim. A cena final. Muita gente acha que ela poderia não estar no filme — inclusive pessoas da equipe. Mas, para mim, ela era fundamental.

Porque foi o ponto de partida dessa história. Era a pergunta central; como uma sociedade, um grupo humano, um país, uma cidade chegam a esse nível de circunstância? 

A grande aposta do filme foi contar esse percurso: como uma família, um prédio, um bairro — e, por consequência, como metáfora de um país — chega até esse lugar de barbárie.

8. O cinema latino-americano costuma ter uma identidade muito marcada, atravessada por contextos sociais e históricos. Como você vê hoje a diversidade estética e narrativa do cinema da região, além dos rótulos mais comuns?

Mariana Rondón:
Eu acho que o cinema latino-americano é forte e robusto há muito tempo, com grande capacidade de contar muitas coisas.

E contar contextos sociais, políticos e históricos é algo que todo cinema faz. Não é uma particularidade da América Latina. Talvez o cinema de estúdio de Hollywood menos, mas mesmo o cinema americano sempre contou seu contexto político e histórico. Então, nesse sentido, o cinema latino-americano é realmente forte. E também muito amplo.

Os países latino-americanos, especialmente os de língua espanhola, compartilham um idioma, mas são muito diferentes entre si. Não é a mesma coisa o Caribe e os Andes, ou a selva e as cidades. Existem muitas diferenças — e muitas formas de contar a nós mesmos.

Distribuído pela Vitrine Filmes, Zafari, sexto longa-metragem da cineasta venezuelana Mariana Rondón, chega aos cinemas brasileiros em 05 de fevereiro.

Comentários

  1. Leandro Medeiros4/2/26

    Nossa, entrevista muito boa, e o que mais me pegou foi como a Mariana fala de um jeito muito direto, sem aquele discurso “de festival” que parece pronto. A fala dela sobre populismo é fortíssima (“transformar a política em ato de fé”) e, pior: dá aquela sensação de que ela não tá falando só da Venezuela, tá falando do mundo inteiro mesmo. E o jeito que ela descreve a escassez como algo físico, quase sensorial, me deixou com muita vontade de ver o filme, parece daqueles que você sai do cinema meio em silêncio, pensando.

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  2. Lídia Duarte4/2/26

    Achei a entrevista muito interessante porque dá pra ver que a diretora fala com muita sinceridade, sem tentar deixar tudo bonito ou intelectual demais.

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  3. Felipe Kitai5/2/26

    Arrasaram!

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