Thales Banzai revela bastidores de 'Antônio Odisseia' e antecipa novo projeto em papo exclusivo

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Se o cinema brasileiro contemporâneo muitas vezes caminha sobre ovos ao retratar a marginalidade, buscando um didatismo seguro, Antônio Odisseia prefere correr descalço no asfalto quente. O filme, que vem acumulando elogios pela sua estética radical e narrativa visceral, não nasceu de um planeamento de estúdio, mas de uma necessidade vital.

Em conversa exclusiva com o MDH Entretenimento, o diretor Thales Banzai detalhou os bastidores desta produção que mistura espiritualidade, fuga e colapso urbano, e que já desperta comparações inevitáveis com o Cinema Novo de Glauber Rocha.

A URGÊNCIA DO ENCONTRO 

Curiosamente, a química explosiva que vemos na tela nasceu de uma conexão remota. Banzai revela que o projeto foi gestado no "rabicho da pandemia", numa altura em que ele e o protagonista/roteirista Kelson Succi nem sequer se conheciam pessoalmente.

"A gente não se via muito representado no que estava sendo feito, talvez hoje, num grande universo de streaming", desabafa Thales. "Óbvio que tem muitas coisas que a gente gosta, mas não necessariamente seriam as coisas que a gente faria." Dessa insatisfação partilhada via Zoom, nasceu um roteiro híbrido. Kelson, com a sua bagagem teatral, e Thales, com o olhar cinematográfico, construíram uma narrativa que foge do naturalismo excessivo que dominou a última década do cinema nacional. O resultado é um filme que Banzai define como uma obra de "urgência": "Era o filme que tinha de acontecer, do jeito certo."

PRETO, BRANCO E GUERRILHA: UMA ESTÉTICA DE SOBREVIVÊNCIA 

Uma das marcas registradas de Antônio Odisseia é a sua fotografia em preto e branco. Embora a crítica especializada tenha traçado paralelos com o expressionismo e o Cinema Novo, Thales é pragmático; a escolha foi, antes de tudo, uma solução inteligente de produção.

Com um orçamento apertado e um cronograma insano de apenas 17 diárias, a equipa precisava de agilidade. "O preto e branco facilita muito... a gente consegue trazer um valor de produção para o filme muito maior do que se a gente estivesse com esse mesmo orçamento tentando fazer um filme a cores", explica o diretor.

A ausência de cor permitiu filmar "na boca do lixo, com a câmara na mão, no meio da rua", sem a necessidade de equipamentos de luz pesados. Thales conta ainda que resistiu à tentação de usar "truques baratos", como misturar cenas coloridas e P&B para diferenciar estados de consciência. A viagem de Antônio é desenhada pela luz, não pela saturação.

DESCONSTRUINDO O "DROGADO DE NOVELA"

O filme brilha ao recusar o olhar vitimista sobre seus personagens. Antônio (Succi) começa a trama sem energia para lutar, paralisado pela dureza da vida. A virada acontece com a chegada de Ive, interpretada brilhantemente por Iraci Estrela.
Banzai recorda o processo de casting e como Iraci salvou a personagem do clichê.
 
Enquanto outras atrizes traziam uma carga pesada e dramática para o papel da usuária de drogas — "quase como se fosse uma série da Globo", brinca o diretor —, Iraci trouxe o deboche, a leveza e uma "loucura" que serviu de contraponto perfeito para a densidade de Antônio.

"Quando a gente assistiu ao teste dela, ficámos em choque. Falámos: 'Caralho, é ela", relembra Thales.

A BENÇÃO DE LECI BRANDÃO 

O coração emocional dos bastidores, no entanto, pertence a Leci Brandão. A lendária sambista e política aceitou o convite para uma participação que Thales define como fundamental, ligada à memória afetiva do protagonista.

A dedicação de Leci deixou a equipa boquiaberta. Segundo o diretor, a artista chegou ao set às 8 da manhã para filmar, logo após ter realizado um show na Virada Cultural que durou até às 3 da madrugada. "Ela tinha mais energia que qualquer um de nós ali no set", conta Thales, admirado.
Ao ver a sua cena finalizada, Leci emocionou-se profundamente, conectando a ficção com as memórias da sua própria mãe — um momento que Thales descreve como um dos mais gratificantes de todo o processo.

EXCLUSIVO: O FUTURO É "SELVA"

Ao final da conversa, Thales Banzai presenteou o público do MDH com um spoiler exclusivo do seu próximo passo no cinema. O diretor já está nos estágios iniciais do desenvolvimento do projeto "Selva". Baseado numa história em quadrinhos criada por ele em parceria com roteiristas da Turma da Mônica, "Selva" será uma obra de ficção científica ambientada numa metrópole pós-apocalíptica e decaída.

Mantendo a fidelidade à sua estética, o projeto também será em preto e branco.
A estrutura narrativa promete ser ousada; um filme episódico, na veia do aclamado Relatos Selvagens ou do western dos irmãos Coen, The Ballad of Buster Scruggs. "É um projeto que se comunica com o Antônio, mas numa outra realidade", adianta.

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