Crítica | Caminhos do Crime - É um daqueles filmes que lembram como o gênero pode ser simples na estrutura e, ainda assim, extremamente prazeroso quando feito com competência.

Divulgação | Sony Pictures

• Por Alisson Santos 

Caminhos do Crime é daqueles thrillers policiais que parecem cada vez mais raros no cinema atual. Existe uma sensação de que o gênero, especialmente quando feito com orçamento médio e voltado para um público adulto, perdeu espaço com o avanço de produções gigantescas ou filmes pensados para funcionar rápido no streaming. Ainda surgem histórias de crime e assalto o tempo todo, mas poucas conseguem recuperar aquela atmosfera clássica dos anos 90, em que estilo, tensão e personagens importavam tanto quanto a ação. O filme de Bart Layton acerta justamente por entender esse espírito e abraçar suas referências sem virar uma cópia.

A influência de Michael Mann é evidente, principalmente na forma como Los Angeles é filmada e na maneira como o longa constrói seu jogo de gato e rato. A cidade aparece como um organismo vivo, feito de luzes, asfalto, reflexos e velocidade. Desde o início, a direção aposta em um visual limpo e elegante, com movimentos de câmera bem calculados e um senso de ritmo que faz o filme fluir com naturalidade ao longo de mais de duas horas. Layton evita o exagero estilístico e aposta em precisão. Cada plano parece ter uma intenção, e isso ajuda a criar uma experiência envolvente, que nunca soa genérica.

No centro da trama está Mike Davis, vivido por Chris Hemsworth. Ele é um ladrão meticuloso, que atua seguindo um conjunto rígido de regras enquanto executa roubos na rodovia 101. O personagem tem uma ética própria, faz de tudo para não ser rastreado, usa truques de hacking para localizar mercadorias e, acima de tudo, se recusa a machucar qualquer pessoa. Essa característica é importante porque coloca o filme num território moral interessante. Mike não é um herói, mas também não é tratado como um vilão simples. Ele é alguém tentando manter um limite dentro de uma vida construída no crime.

Depois de um roubo de diamantes marcado por momentos de tensão, ele decide recuar e planejar um último grande trabalho. É nesse ponto que a narrativa ganha uma camada mais humana com a entrada de Sharon, interpretada por Halle Berry. Sharon é corretora de seguros e enfrenta um sistema que tenta descartá-la por causa da idade, como se sua experiência fosse um problema. O filme trata esse conflito com seriedade, e a personagem se torna mais do que um elemento funcional da trama. Quando ela decide ajudar Mike como colaboradora infiltrada, a história deixa de ser apenas sobre roubo e perseguição e passa a ser também sobre ressentimento, sobrevivência e escolhas feitas quando alguém chega ao limite.

Enquanto isso, a polícia de Los Angeles aperta o cerco, liderada pelo detetive Lubesnick, papel de Mark Ruffalo. Ruffalo traz para o personagem um tipo de obstinação que combina com o tom do filme. Lubesnick não é romantizado como herói e nem transformado em vilão, mas aparece como alguém movido por uma necessidade quase pessoal de encerrar o caso. A presença dele dá ao filme o clássico duelo de vontades que define o gênero. A situação se complica ainda mais com a entrada de Ormon, um motoqueiro imprevisível vivido por Barry Keoghan, que funciona como a peça caótica dentro de uma história em que todos os outros tentam operar com algum tipo de código.

Divulgação | Sony Pictures

O que sustenta Caminhos do Crime é o equilíbrio entre ação e construção dramática. O filme entrega assaltos bem coreografados, perseguições de carro e moto intensas e cenas de tensão que funcionam mais pelo controle do que pelo barulho. Há uma sensação física nas sequências de velocidade, reforçada por escolhas de câmera que colocam o espectador dentro da ação sem recorrer a truques fáceis. A trilha sonora de sintetizador também ajuda a criar uma atmosfera pulsante, lembrando os thrillers clássicos sem soar datada.

Além da ação, o longa se destaca pelo cuidado visual. Reflexos em vidros, retrovisores e superfícies metálicas aparecem com frequência e funcionam como um recurso discreto para reforçar os conflitos internos dos personagens. O filme não insiste nesse simbolismo de forma óbvia, mas usa a linguagem cinematográfica para sugerir que todos ali estão lidando com versões distorcidas de si mesmos e com limites que podem ser quebrados a qualquer momento.

As atuações ajudam muito a manter o filme sólido. Hemsworth entrega um protagonista convincente, com um mistério que se revela aos poucos. Ruffalo segura bem o papel do detetive persistente, e Keoghan dá ao seu personagem uma energia instável que aumenta a sensação de perigo. Mas Halle Berry é o grande destaque. Ela dá densidade real a Sharon, e existe um monólogo perto do final que se impõe como o momento mais forte do filme, não por exagero dramático, mas porque carrega verdade e peso emocional.

Ainda assim, há uma pequena sensação de excesso. O filme apresenta personagens e subtramas que parecem prometer mais do que conseguem desenvolver. Alguns coadjuvantes, como os interpretados por Monica Barbaro e Corey Hawkins, estão presentes e têm importância funcional, mas não recebem o aprofundamento que o universo sugeriria. Isso não chega a prejudicar a experiência, mas deixa a impressão de que a história poderia ser ainda mais rica se tivesse feito escolhas mais concentradas.

No fim, Caminhos do Crime funciona muito bem como um thriller policial clássico, com estilo, ritmo e tensão. Mesmo partindo de uma premissa que claramente dialoga com obras anteriores, o filme encontra força na execução. Ele homenageia o cinema de Mann e Soderbergh sem se tornar derivativo, entrega cenas de ação eficientes, personagens interessantes e um clima urbano que prende do começo ao fim. É um daqueles filmes que lembram como o gênero pode ser simples na estrutura e, ainda assim, extremamente prazeroso quando feito com competência.

Caminhos do Crime estreia amanhã nos cinemas.

Avaliação - 8/10

Comentários