Entrevista | Johanna Moder, diretora de 'Mother’s Baby': "Meu filme tenta olhar para coisas que as pessoas não gostam de encarar."

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

A diretora austríaca Johanna Moder construiu ao longo da última década uma filmografia marcada por inquietações psicológicas e personagens em crise com o próprio tempo. Depois de chamar atenção com High Performance (2014), vencedor do prêmio do público no Festival Max Ophüls, e de consolidar seu nome no circuito europeu com Once Were Rebels (2019), a cineasta retorna agora com um projeto ainda mais ambicioso; Mother’s Baby, um thriller psicológico que mergulha nas zonas mais ambíguas da maternidade e já está disponível nos cinemas com distribuição da Autoral Filmes.

Coprodução entre Áustria, Alemanha e Suíça, o filme acompanha Julia, uma respeitada maestrina de 40 anos que, após anos tentando engravidar, finalmente consegue ter um filho por meio de um tratamento em uma clínica de fertilidade. O que deveria ser a realização de um sonho, porém, se transforma em um pesadelo psicológico quando o parto ocorre de forma traumática e o bebê é retirado imediatamente para “tratamento”. Quando finalmente reencontra o recém-nascido, Julia passa a sentir um distanciamento perturbador — e começa a questionar se aquela criança realmente é sua.

O longa transforma o medo e a ansiedade da maternidade em um thriller de atmosfera fria e inquietante, explorando temas como depressão pós-parto, expectativas sociais em torno da maternidade e a fragilidade da percepção humana diante de situações extremas. 

Em conversa sobre o filme com a MDH Entretenimento, Moder refletiu sobre as ambiguidades narrativas da obra, a construção psicológica da protagonista e as questões políticas e sociais que atravessam a história.

1. Mother’s Baby navega constantemente entre percepção e realidade. Em que estágio do desenvolvimento você decidiu que a ambiguidade seria a espinha dorsal estrutural do filme? Houve alguma versão mais explícita da história?

Johanna Moder:
Eu sempre tive uma visão muito clara dessa história em mente. À medida que o roteiro foi se desenvolvendo, percebi que ele também poderia ser lido de uma maneira completamente diferente. Então passamos a apoiar essa interpretação alternativa durante o processo de desenvolvimento e a intensificamos ainda mais na edição. Sentimos que era mais interessante que a história pudesse ser interpretada de tantas maneiras diferentes. Suspeito que isso aconteça porque as pessoas só conseguem ver aquilo que já conhecem.

2. O filme aborda depressão pós-parto e a idealização social da maternidade, mas evita uma abordagem didática ou clínica. Como você equilibrou o realismo psicológico com a tensão de gênero?

Johanna Moder:
Como eu queria contar essa história exatamente dessa forma desde o início, não me preocupei com gênero ou classificação. Segui minha própria estrutura interna, contando uma história sobre um sentimento que até então eu não havia conseguido nomear. Para mim, foi uma consequência necessária das minhas próprias experiências, permitindo que eu classificasse melhor minha própria história emocionalmente sem precisar contar uma história autobiográfica. Acima de tudo, eu queria transformar esse sentimento, esse estado, em um filme.

3. Julia é uma maestrina — alguém profissionalmente treinado para controlar ritmo, harmonia e tempo. Em que medida a profissão dela foi concebida como uma metáfora para a perda de controle que ela experimenta após o parto?

Johanna Moder:
Boa pergunta. Quando pensei na profissão dela, minha principal preocupação era que ela tivesse uma carreira pela qual fosse apaixonada e na qual encontrasse realização. Isso significa que ela tinha um grande controle sobre um conjunto musical, mas perde o controle em casa. Isso também é reforçado pela música, da qual ela perde o contato ao longo da história e precisa redescobrir por si mesma, de uma forma nova e diferente — assim como sua vida após dar à luz.

4. A atmosfera visual parece deliberadamente fria e clínica. Você pode falar sobre sua colaboração com o diretor de fotografia na construção dessa distância emocional? Você queria que o público se sentisse isolado junto com Julia?

Johanna Moder:
Robert Oberrainer, meu diretor de fotografia, e meu diretor de arte Hannes Salat criaram esse mundo comigo. Nos inspiramos em lojas modernas para bebês, que vendem uma atmosfera acolhedora e idílica para uma fase da vida que geralmente é o oposto disso: caos, vômito de bebê no sofá, pouco sono e pouco descanso. Ao mesmo tempo, também nos inspiramos em aquários. Julia e Georg praticamente vivem em um aquário; não há lugar para se refugiar. Eles estão à mercê de si mesmos em todos os lugares.

5. Vejo muitos ecos de "O Bebê de Rosemary", mas seu filme parece menos interessado no horror externo e mais em uma implosão interna. Você vê seu trabalho como uma resposta contemporânea a esse tipo de narrativa ou como algo que segue outra direção?

Johanna Moder:
"O Bebê de Rosemary" foi um modelo de narrativa de horror extremamente bem-sucedida e sutil. Embora eu nunca tenha definido explicitamente meu filme como um filme de terror, e sim como uma história de horror em torno do parto.

6. Marie Leuenberger entrega uma atuação extremamente contida e interna. Qual foi sua abordagem de direção com ela? Você se concentrou mais no silêncio e nas nuances físicas do que no diálogo?

Johanna Moder:
Acho que Marie Leuenberger incorpora tanto força quanto fragilidade como atriz. Considero esse contraste muito fascinante. Foi assim que imaginei Julia. Não conversamos muito sobre o conteúdo das cenas; Marie já me conhecia e conhecia minha história pessoal. Então ela experimentou as cenas à sua própria maneira e fez a personagem se tornar dela. Sempre acho muito enriquecedor quando atores encontram sua própria abordagem para um personagem. Esse novo impulso geralmente vai além da minha própria imaginação.

7. O marido e o médico nunca são abertamente vilões, mas também nunca parecem totalmente confiáveis. Você estava explorando intencionalmente como as experiências das mulheres — especialmente em contextos médicos — muitas vezes são invalidadas de forma sutil, em vez de serem abertamente descartadas?

Johanna Moder:
Sim, esse é um tema importante. E acredito que ele afeta todos nós em algum momento, porque todos estaremos à mercê desse ambiente médico em algum ponto da vida. Meu filme trata de como mães grávidas são tratadas e também dos muitos comentários e frases frequentemente ofensivos — muitas vezes não intencionais — que você nunca esquece, mas que fazem você questionar a si mesma como pessoa, como mãe ou como mulher. Claramente, é necessária mais sensibilidade ou educação nesse campo, embora muito já tenha sido feito nos últimos anos, pelo menos na Áustria.

8. Há uma crítica silenciosa, mas persistente, às instituições — sistemas médicos, estruturas familiares e até narrativas culturais sobre maternidade. Você considera Mother’s Baby um filme político em algum sentido?

Johanna Moder:
Os temas que me interessam e que quero explorar nos meus filmes são sempre políticos no sentido mais amplo. Tento olhar para coisas que as pessoas não gostam de encarar, seja porque são dolorosas ou porque até agora não havia uma linguagem para descrevê-las.

9. Como uma cineasta explorando ansiedade e paranoia materna, você sentiu algum tipo de expectativa específica de produtores, festivais ou críticos sobre como a história “deveria” ser contada?

Johanna Moder:
Sim, surpreendentemente — mas apenas depois que o filme ficou pronto. Foram principalmente críticos homens que questionaram o final, desejando um desfecho diferente para a história. Ou interpretando o final de uma maneira diferente da que eu pretendia. Mas, como eu queria contar a história exatamente dessa forma e de nenhuma outra, sinto que fui justificada e a contaria da mesma maneira novamente.

Comentários

  1. Moisés Trindade5/3/26

    Excelente entrevista! As perguntas são muito bem pensadas e mostram um olhar atento para o filme além da superfície. Em vez de ficar apenas no básico, a conversa explora temas interessantes como a ambiguidade da história, a construção psicológica da protagonista e até as escolhas visuais do longa. Outro ponto muito positivo é como as perguntas dão espaço para a diretora Johanna Moder falar com profundidade sobre o processo criativo de Mother’s Baby. Isso deixa a leitura fluida e realmente interessante para quem gosta de cinema e quer entender melhor as intenções por trás do filme. Parabéns!

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  2. Tiago Pires5/3/26

    Cara, que entrevista boa de ler. Eu nem conhecia a Johanna Moder, mas fiquei bem curioso com esse filme. A forma como ela fala da maternidade como algo meio perturbador e cheio de dúvidas parece fugir muito daquele discurso idealizado que a gente sempre vê.

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  3. Renata Piracelli6/3/26

    Achei a entrevista bem interessante. Mesmo sem conhecer muito o trabalho da diretora, deu para entender melhor a proposta de Mother’s Baby e como o filme parece explorar esse lado mais inquietante da maternidade, fugindo daquele retrato idealizado que a gente costuma ver no cinema. Irei adicionar na minha lista.

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