Crítica | EPIC: Elvis Presley in Concert - Antes de ser lenda, ele era palco — e naquele palco, ainda é rei.
| Divulgação | Universal Pictures |
• Por Alisson Santos
Em EPIC: Elvis Presley in Concert, dirigido por Baz Luhrmann, o passado não é apenas revisitado — é reencenado como espetáculo sensorial. O filme não tenta recontar a ascensão e a queda de Elvis Presley, tampouco mergulhar nas zonas mais exploradas de sua decadência. Ao contrário; escolhe o auge. E ao escolher o auge, escolhe também o mito.
Construído a partir de imagens raras dos arquivos de Graceland e gravações das apresentações de 1970 no International Hotel, em Las Vegas, EPIC abandona a estrutura convencional do documentário biográfico e assume a forma de uma experiência quase imersiva. Nos primeiros minutos, ouvimos Elvis prometendo contar “seu lado da história”. Mas Luhrmann não está interessado numa narrativa linear. O que ele oferece é algo mais próximo de uma combustão artística; fragmentos de filmes, ecos do período no exército, relances de bastidores e, principalmente, palco. Muito palco.
A partir do momento em que o filme abandona qualquer pretensão cronológica e mergulha nos ensaios e nas apresentações, ele encontra sua verdadeira pulsação. Não há cabeças falantes, nem especialistas dissecando o fenômeno cultural. O que há é Elvis trabalhando. Concentrado. Exigente. No controle. Aos 35 anos, ele surge não como caricatura, mas como artesão obsessivo do próprio espetáculo.
A montagem — conduzida com precisão quase musical — intercala trechos de performances no palco com momentos íntimos de ensaio. Quando “Hound Dog” explode, não é apenas nostalgia; é potência física. Em seguida, a vulnerabilidade de “Are You Lonesome Tonight?” expõe uma delicadeza que frequentemente se perde sob a iconografia do macacão branco. E então ele muda o clima de novo, como quem entende intuitivamente a respiração da plateia.
| Divulgação | Universal Pictures |
Luhrmann, conhecido por excessos estilizados em obras como Moulin Rouge: Amor em Vermelho e O Grande Gatsby, aqui surpreende ao permitir que o material respire. Há energia, sim — mas há também respeito. A tecnologia de restauração (com colaboração da equipe de Peter Jackson) não transforma o passado em algo artificialmente polido; ela o torna vívido. O grão, o suor, os olhares cúmplices entre músicos — tudo permanece.
O aspecto mais fascinante é perceber como EPIC reconstrói Elvis como presença. Não como escândalo, não como vítima, não como mártir pop. Apenas como artista. O filme deliberadamente evita drogas, ganho de peso, tragédias. Para alguns, essa escolha pode soar como higienização histórica. Para outros, como um gesto de justiça; permitir que o público veja o músico antes do colapso.
O resultado é um híbrido que funciona melhor como concerto cinematográfico do que como documentário tradicional. Na tela grande, com som de alta definição, a experiência se aproxima do ritual. Não é apenas assistir a Elvis — é ser atravessado por ele. A câmera captura seu humor autodepreciativo, seu carisma quase elétrico, mas também sua disciplina. Ele sabia o que queria entregar. E entregava.
EPIC não tenta converter céticos por meio de argumentos. Ele seduz pela performance. Ao final dos 90 minutos, a pergunta que permanece não é se Elvis foi importante — isso já está dado na história cultural do século XX — mas como é possível que aquela energia ainda atravesse décadas com tamanha força. Talvez seja essa a maior conquista do filme; lembrar que, antes de ser lenda, ele era palco. E naquele palco, ainda é rei.
EPIC: Elvis Presley in Concert está disponível nos cinemas.
Avaliação - 9/10
Um verdadeiro espetáculo.
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