Crítica | A Casa do Dragão - 3ª temporada corrige parte dos erros da segunda, mas ainda sofre com algumas escolhas.

Divulgação | HBO

• Por Alisson Santos 

Foram necessárias três temporadas para que A Casa do Dragão finalmente chegasse à guerra que estava anunciando desde seus primeiros episódios. Depois de um segundo ano que transformou a espera pela Dança dos Dragões em um exercício de paciência, a terceira temporada entende que já não existe espaço para recuar. O conflito deixa de ser uma ameaça distante, os exércitos começam a se movimentar de verdade e os dragões finalmente são utilizados como aquilo que sempre representaram; armas de destruição em massa nas mãos de uma família incapaz de controlar os próprios ressentimentos.

O resultado é facilmente a temporada mais grandiosa da série até agora. Mas também uma das mais interessantes justamente porque, em seus melhores momentos, A Casa do Dragão não trata essa grandiosidade como celebração. A guerra aqui é espetacular de assistir e horrível de testemunhar.

A diferença em relação à segunda temporada é perceptível desde os primeiros episódios. Aquela sensação de que todos estavam permanentemente se preparando para alguma coisa dá lugar a uma narrativa em que decisões finalmente possuem consequências imediatas. A Batalha da Goela estabelece isso de maneira brutal logo no início, enquanto os conflitos posteriores aumentam progressivamente a dimensão da guerra até a Batalha de Tumbleton, que transforma o último episódio em uma demonstração aterrorizante do que acontece quando dragões deixam de funcionar como instrumentos de intimidação e passam efetivamente a ser utilizados no campo de batalha.

É impressionante tecnicamente, evidentemente. Poucas produções televisivas conseguem trabalhar nessa escala. Mas reduzir a qualidade da temporada às batalhas seria ignorar justamente aquilo que torna seus melhores episódios tão eficientes. O verdadeiro espetáculo está nas pessoas que provocaram tudo aquilo.

Rhaenyra é o exemplo mais evidente. Se durante boa parte da série a personagem foi construída como uma contraposição relativamente mais razoável aos Verdes, a terceira temporada começa a desmontar essa segurança. Emma D'Arcy conduz uma transformação fascinante porque não existe exatamente um momento no qual Rhaenyra "se torna" outra pessoa. O processo é gradual. A cada perda, traição e vitória, torna-se um pouco mais difícil distinguir sua convicção de sua obsessão.

E a profecia assume papel fundamental nisso. Quando Rhaenyra passa a enxergar sua reivindicação não apenas como direito político, mas como parte de algo maior do que ela própria, suas decisões ganham uma justificativa quase religiosa. Existe uma diferença perigosa entre alguém acreditar que merece governar e acreditar que precisa governar para salvar o mundo. A temporada entende essa diferença.

É justamente aí que Emma D'Arcy entrega alguns de seus melhores momentos na série. Rhaenyra continua sendo capaz de demonstrar afeto, insegurança e sofrimento, mas existe uma rigidez crescente em sua maneira de ocupar os espaços. Aos poucos, aquela princesa que desejava reconhecimento passa a se comportar como alguém convencida de que a História já escolheu seu lugar nela. Do outro lado da guerra, Aemond passa por processo semelhante.

Ewan Mitchell continua utilizando a presença física do personagem de maneira excepcional. Aemond sempre cultivou a imagem de alguém absolutamente seguro de si, mas a terceira temporada encontra maneiras de revelar o medo existente por trás dessa construção. Governar na ausência de Aegon oferece exatamente aquilo que ele acreditava desejar e, ao mesmo tempo, demonstra que possuir Vhagar não significa possuir controle. Aegon, aliás, permanece um dos personagens mais interessantes da adaptação.

Tom Glynn-Carney consegue fazer algo particularmente difícil; encontrar humanidade em um homem que a própria série nunca tenta transformar artificialmente em alguém bom. Aegon é egoísta, cruel, infantil e frequentemente patético. Ainda assim, existe uma vulnerabilidade genuína nele. Depois das consequências de Rook's Rest, o personagem se torna quase uma representação física da destruição provocada pela própria família. É uma das grandes virtudes de A Casa do Dragão; quando o roteiro confia na ambiguidade moral de seus personagens, a série cresce enormemente.

Divulgação | HBO

Daemon também finalmente consegue escapar do purgatório narrativo de Harrenhal que consumiu boa parte de seu arco anterior. Matt Smith continua extremamente confortável interpretando um homem cuja imprevisibilidade pode ser simultaneamente fascinante e repulsiva. Mas desta vez suas ações possuem novamente impacto direto sobre o conflito. O problema é que nem todos recebem desenvolvimento equivalente.

Alicent talvez seja a personagem que mais evidencia as dificuldades do roteiro em lidar com a transformação da história. Olivia Cooke continua excelente, mas a personagem parece cada vez mais deslocada dentro de uma guerra que já ultrapassou sua capacidade de interferência. A série ainda insiste em preservar sua centralidade dramática, especialmente sua ligação com Rhaenyra, mesmo quando os acontecimentos ao redor das duas sugerem que outras relações deveriam assumir maior importância. É uma consequência de uma escolha feita desde a primeira temporada; transformar Rhaenyra e Alicent no eixo emocional de toda a adaptação. Funcionou extraordinariamente bem no início. Agora começa a cobrar seu preço.

Há também personagens secundários que continuam recebendo menos atenção do que deveriam. A Casa do Dragão possui um elenco enorme, mas frequentemente parece interessada apenas por uma pequena parcela dele. Isso enfraquece algumas mortes, traições e mudanças de aliança que poderiam ter impacto emocional ainda maior. É nesse aspecto que a comparação inevitável com Game of Thrones continua desfavorável.

A série original possuía uma habilidade extraordinária de fazer um personagem aparentemente secundário ganhar personalidade em poucas cenas. A Casa do Dragão nem sempre consegue fazer o mesmo. Existem nomes, casas e soldados importantes para a mecânica da guerra que permanecem mais próximos de peças de tabuleiro do que de pessoas. Curiosamente, essa limitação também expõe uma das contradições da temporada.

O terceiro ano é muito mais movimentado que o segundo, mas ainda existem momentos em que a narrativa parece estranhamente lenta. O problema nunca foi simplesmente a ausência de batalhas. Game of Thrones construiu alguns de seus melhores episódios colocando personagens em salas para conversar. A diferença está na sensação de progressão.

Quando A Casa do Dragão repete discussões sobre legitimidade, cautela e estratégias que já foram estabelecidas anteriormente, a série volta a apresentar aquela sensação de movimento sem deslocamento que prejudicou sua segunda temporada. Felizmente, isso acontece com frequência muito menor agora.

As alterações em relação a Fogo & Sangue também atingem outro patamar. Rhaena e Roubovelha, mudanças envolvendo Criston Cole e Aemond, o caminho percorrido por Aegon, acontecimentos relacionados a Helaena e Maelor, a presença de Daemon em Tumbleton e a maneira como a série trabalha Hugh e Ulf deixam evidente que Ryan Condal não pretende tratar o livro como um roteiro rígido. 

Divulgação | HBO

Essa liberdade não deveria ser um problema por princípio. Fogo & Sangue é apresentado como uma reconstrução histórica formada por relatos frequentemente contraditórios, oferecendo justamente um espaço enorme para interpretação. A questão é outra; as mudanças precisam funcionar dentro da história que a televisão decidiu contar.

Algumas funcionam muito bem porque acrescentam motivações onde o livro propositalmente deixa dúvidas. Outras parecem determinadas pela necessidade de manter determinados personagens no centro da narrativa. E existem escolhas que provavelmente continuarão dividindo leitores justamente porque alteram relações de causa e consequência importantes da obra de George R.R. Martin.

Mas existe uma ideia que a temporada preserva perfeitamente do universo criado pelo autor; ninguém realmente vence uma guerra como essa. É provavelmente sua maior qualidade. Quanto mais a temporada avança, menos importante parece descobrir qual lado "merece" o Trono de Ferro. Pretos e Verdes acumulam cadáveres enquanto continuam justificando atrocidades através de palavras como direito, dever, vingança e destino. 

Os dragões tornam essa contradição ainda mais evidente. Durante muito tempo, eles foram símbolos de poder. Nesta temporada tornam-se símbolos da estupidez de quem acredita ser capaz de controlar esse poder. Quando dois dragões entram numa batalha, não existe precisão militar possível. Há fogo, cidades destruídas, soldados carbonizados e pessoas que sequer sabem exatamente por que estão morrendo.

Tumbleton representa a conclusão perfeita dessa ideia. O episódio final não funciona apenas porque entrega a escala que muitos esperavam da Dança dos Dragões. Funciona porque o espetáculo começa a assumir características de pesadelo. Alianças desmoronam, ambições individuais se sobrepõem às estratégias dos líderes e criaturas capazes de decidir uma guerra em minutos tornam qualquer tentativa de controle quase absurda. A violência deixa de representar poder e passa a representar caos. É aí que a terceira temporada finalmente encontra aquilo que A Casa do Dragão parecia buscar desde 2022.

Não é simplesmente Game of Thrones com mais dragões. É uma tragédia sobre uma família que possui poder suficiente para transformar seus conflitos particulares em catástrofes históricas. E existe algo profundamente irônico no fato de a melhor temporada da série até agora também servir como prova dos problemas da anterior. Grande parte dos acontecimentos mais aguardados poderia ter começado antes. A segunda temporada terminou exatamente quando parecia pronta para alcançar seu clímax, fazendo com que o terceiro ano herdasse recompensas dramáticas que estavam sendo preparadas havia muito tempo. 

Por outro lado, essa longa preparação também faz com que algumas dessas consequências sejam particularmente dolorosas. A guerra finalmente começou. E depois de três temporadas observando essas pessoas cometerem pequenos erros, alimentarem ressentimentos, confundirem orgulho com dever e transmitirem seus traumas para a geração seguinte, assistir Westeros queimando deixa de ser simplesmente entretenimento espetacular.

A terceira temporada de A Casa do Dragão já está disponível na HBO Max.

Avaliação - 7/10

Comentários