Crítica | O Fim da Rua - Transforma dinossauros e conflitos familiares em uma aventura irresistível.
| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
• Por Alisson Santos
Durante anos, a franquia Jurassic World tentou recuperar a combinação de aventura, fascínio e tensão que transformou o primeiro Jurassic Park em um clássico. O Fim da Rua consegue se aproximar muito mais desse espírito sem precisar copiar diretamente o filme de Steven Spielberg. David Robert Mitchell entende que dinossauros se tornam verdadeiramente assustadores quando são inseridos em espaços comuns, próximos e aparentemente seguros. Em vez de grandes parques ou laboratórios futuristas, aqui as criaturas invadem quintais, atravessam jardins e transformam uma pacata vizinhança dos anos 80 em um território de sobrevivência.
A premissa acompanha a família Platt, formada por Denise, Greg e seus dois filhos adolescentes. Eles já enfrentam problemas domésticos quando um misterioso evento cósmico transporta toda a Rua Oak para um lugar desconhecido, habitado por criaturas pré-históricas. A ideia nasceu de uma imagem imaginada pelo próprio Mitchell; um dinossauro surgindo em um cenário suburbano. O diretor cita como referências produções como Além da Imaginação, Poltergeist e Sinais, influências mais apropriadas para compreender o filme do que uma comparação exclusiva com Jurassic Park.
O resultado é uma aventura que parece saída da fase mais inspirada da Amblin, mas com uma agressividade que impede o longa de se transformar apenas em um exercício nostálgico. A ambientação oitentista não existe somente para espalhar objetos antigos, músicas conhecidas ou referências fáceis. Mitchell recupera principalmente a maneira como aquele cinema construía suas histórias; crianças e adultos dividindo o protagonismo, conflitos familiares tratados com sinceridade e o extraordinário invadindo uma rotina reconhecível.
O filme demora um pouco para revelar completamente seu jogo. Antes do caos, acompanha a família e estabelece os ressentimentos acumulados entre seus integrantes. Essa introdução pode parecer convencional, mas cumpre uma função importante; quando os personagens começam a correr, gritar e lutar pela própria vida, existe alguma coisa emocionalmente concreta em risco. Não se trata apenas de descobrir quem será devorado, mas de observar pessoas que já estavam se afastando serem obrigadas a confiar umas nas outras.
Anne Hathaway é quem melhor sustenta essa dimensão dramática. Denise não aparece apenas como a mãe responsável por proteger os filhos ou como mais uma heroína invencível de blockbuster. Hathaway interpreta o medo de maneira física, deixando transparecer o desespero mesmo quando a personagem precisa tomar decisões rápidas. Sua atuação faz com que algumas situações completamente absurdas mantenham uma surpreendente sensação de urgência. Ewan McGregor funciona melhor quando Greg abandona a passividade inicial e começa a participar ativamente da luta pela sobrevivência, embora sua presença seja um pouco menos intensa do que a de Hathaway.
Maisy Stella também ganha espaço para construir uma adolescente que não serve somente como fonte de problemas para os pais. A relação entre os filhos e os adultos ajuda a impedir que o drama familiar seja uma simples desculpa narrativa. Nem todos os diálogos escapam das fórmulas do gênero, principalmente quando os personagens precisam verbalizar sentimentos que o filme já havia demonstrado, mas o elenco trata o material com seriedade suficiente para que essas fragilidades não derrubem a experiência.
É quando os dinossauros finalmente entram em cena que O Fim da Rua encontra sua melhor forma. Mitchell filma as criaturas como ameaças imprevisíveis, explorando o contraste entre seus corpos gigantescos e a arquitetura doméstica. Cercas, garagens, quartos e corredores deixam de representar proteção e se transformam em armadilhas. Algumas sequências lembram uma versão prolongada da perseguição na cozinha de Jurassic Park; o perigo não está apenas no tamanho dos animais, mas na possibilidade de eles aparecerem atrás de qualquer porta ou janela.
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| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
A direção combina suspense, ação e ocasionais imagens violentas sem suavizar excessivamente os ataques. O longa utiliza bem o limite da classificação indicativa para recuperar certa crueldade que costuma faltar às aventuras familiares contemporâneas. Os sustos não dependem somente de explosões sonoras. Mitchell trabalha a profundidade dos enquadramentos, os espaços vazios e a expectativa de que alguma coisa possa surgir ao fundo.
A fotografia de Michael Gioulakis contribui decisivamente para essa atmosfera. Os enquadramentos com foco dividido e as composições que posicionam ameaças em diferentes planos não representam apenas uma homenagem estética ao cinema dos anos 70 e 80. Eles mantêm o espectador atento a todo o quadro, como se os personagens nunca estivessem completamente sozinhos. A trilha de Michael Giacchino, por sua vez, abraça o sentimento aventuresco e familiar, ainda que em certos momentos se aproxime demais do estilo consagrado por John Williams.
O humor também funciona porque não transforma os personagens em máquinas de produzir piadas. Pequenos momentos envolvendo o cachorro Starbuck — facilmente um dos integrantes mais carismáticos da família — e um detalhe recorrente com pizza aliviam a tensão sem destruir a ameaça. Esse equilíbrio permite que o filme seja divertido e assustador dentro da mesma sequência, qualidade rara em blockbusters que frequentemente interrompem qualquer emoção com uma frase espirituosa.
Nem todas as respostas oferecidas pela trama são igualmente convincentes. O mistério envolvendo o evento cósmico é mais interessante quando permanece inexplicável, e algumas soluções do terceiro ato são convenientes demais. O roteiro também trabalha com arquétipos familiares bastante conhecidos e resolve certos conflitos com uma facilidade incompatível com o peso atribuído a eles no início. Ainda assim, essas limitações são compensadas pelo ritmo e pela clareza com que Mitchell organiza a aventura.
O Fim da Rua poderia facilmente ter sido apenas mais um produto nostálgico produzido por J.J. Abrams, interessado em reproduzir uma ideia romantizada do cinema oitentista. Mas David Robert Mitchell encontra uma personalidade própria dentro dessa tradição. Seu filme leva a situação a sério, permite que os dinossauros sejam novamente assustadores e conserva uma deliciosa energia aventuresca.
É como se Jurassic World tivesse finalmente entregado aquilo que prometeu durante três filmes: uma aventura pré-histórica divertida, tensa e emocional, capaz de respeitar o perigo representado por suas criaturas sem abandonar o encantamento. O Fim da Rua não reinventa o cinema de dinossauros, mas lembra por que ele pode ser tão empolgante. Entre bons sustos, perseguições muito bem construídas e uma família pela qual vale a pena torcer, surge um dos entretenimentos mais agradáveis do ano — uma produção com sabor de Spielberg, mas dentes suficientemente afiados para não viver apenas da nostalgia.
O Fim da Rua estreia amanhã nos cinemas.
Avaliação - 8/10

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