Conto | O Reino que Esqueceu o Sol

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Naquela noite, o vento trouxe cinzas.

Ninguém soube dizer de onde vinham.

Elas chegaram primeiro como pequenos pontos escuros suspensos acima da planície, quase imperceptíveis contra o céu sem estrelas. Depois começaram a cair. Sobre os ombros. Sobre os cabelos. Sobre os cobertores remendados. Sobre a terra seca ao redor da fogueira.

Eram vinte e três.

Pelo menos era esse o número contado naquela manhã.

Ninguém tinha certeza.

Alguns haviam desaparecido durante a última caminhada. Outros haviam surgido no caminho, magros demais para serem interrogados e assustados demais para fazer perguntas. Havia ainda aqueles que simplesmente acordavam certa manhã e descobriam que alguém ao lado já não respirava.

O grupo aprendera a não contar os mortos.

Contar mortos era uma maneira de criar esperança.

Se alguém dizia que eram vinte e três, significava que ainda existiam vinte e três pessoas.

Se dizia vinte e dois, alguém inevitavelmente perguntaria:

Quem falta?

E ninguém queria saber.

A planície permanecia silenciosa.

Não era o silêncio comum de uma noite sem vento. Era algo mais profundo, quase deliberado, como se o próprio mundo prendesse a respiração para não chamar atenção.

À distância, além das colinas negras, alguma coisa enorme atravessou o céu.

Não tinha asas.

Não precisava delas.

Seu corpo flutuava lentamente entre as nuvens, iluminado por relâmpagos vermelhos que riscavam o horizonte. Durante alguns segundos, sua silhueta pareceu uma montanha suspensa no ar.

Todos se abaixaram.

As crianças foram empurradas para baixo dos adultos.

A fogueira foi apagada com terra.

Ninguém respirou.

A coisa passou.

Só então Elias ergueu a cabeça.

Era o mais velho do grupo, embora ninguém soubesse exatamente sua idade. Ele dizia ter nascido antes da Grande Escuridão, mas aquela expressão podia significar qualquer coisa.

Havia quem afirmasse que tinha oitenta anos.

Outros juravam que tinha mais de cem.

Seu rosto parecia antigo demais para qualquer número.

— Podem acender.

Uma mulher soprou sobre as brasas.

A chama voltou.

Pequena.

Fraca.

Mas voltou.

Elias observou as cinzas que continuavam caindo.

Depois olhou para as pessoas reunidas ao redor do fogo.

— Hoje eu vou contar a história.

Ninguém perguntou qual.

Todos sabiam.

A história era a única coisa que possuíam que os monstros não podiam comer.

Elias respirou fundo.

— Antes da noite, existiam cidades.

Nara, sentada perto dele, ergueu os olhos.

Ela era pequena demais para carregar uma mochila sem arrastá-la pelo chão. Tinha nove anos, talvez dez, embora ninguém tivesse certeza. Naquele mundo, aniversários haviam se tornado uma espécie de luxo.

Elias continuou:

— Existiam estradas. Oceanos atravessados por navios. Montanhas cobertas de neve. Mercados onde as pessoas discutiam o preço do trigo. Crianças que corriam pelas ruas. Homens que reclamavam porque seus vizinhos faziam barulho demais.

Algumas pessoas sorriram.

Era difícil imaginar.

— Existia o banal — disse Elias. — E ninguém entendia o quanto o banal era precioso.

A fogueira estalou.

— Porque, quando o mundo acabou, ninguém sentiu falta dos milagres. Sentiram falta de água limpa. De pão quente. De uma cama. De uma janela com vidro. Do cheiro de chuva. De ouvir alguém dizer que amanhã seria um dia normal.

Nara apoiou o queixo nos joelhos.

— Como começou?

Elias olhou para ela.

— Com uma descoberta.

Chamaram aquilo de A Coroa.

Era uma estrutura encontrada enterrada nas profundezas do continente, construída por uma civilização anterior à própria humanidade.

Ninguém sabia quem a havia construído.

Ninguém sabia por que existia.

Só sabiam que, quando os primeiros pesquisadores tocaram nela, todos os relógios do mundo pararam ao mesmo tempo.

Às 3h17 da manhã.

Durante exatamente nove minutos.

Não importava se o relógio era mecânico, digital ou um simples relógio de pulso.

Todos pararam.

E depois voltaram.

Foi o primeiro sinal.

O segundo veio durante o sono.

Milhões de pessoas começaram a sonhar com o mesmo lugar.

Um vale.

Um rio branco.

Uma cidade dourada erguida ao redor de uma torre negra.

E, no centro da cidade, havia uma porta.

Uma porta que ninguém conseguia abrir.

Nos sonhos, uma voz dizia:

— Quando o céu perder seu nome, abra a porta.

Os governos tentaram esconder a descoberta.

Falharam.

Os religiosos disseram que era uma mensagem divina.

Os cientistas disseram que era uma reação neurológica coletiva.

Os fanáticos disseram que era um convite.

Então alguém abriu a porta.

Ninguém descobriu quem.

Alguns diziam que foi um pesquisador.

Outros diziam que foi um presidente.

Havia quem afirmasse que a própria porta escolhera ser aberta.

O que todos sabiam era o que aconteceu depois.

O mundo morreu durante nove minutos.

Quando voltou a existir, não era mais o mesmo.

O céu havia ficado vermelho.

Os oceanos recuaram centenas de quilômetros.

Florestas cresceram durante uma única noite e engoliram cidades inteiras.

Animais nasceram com ossos que não pertenciam às suas espécies.

Algumas pessoas desapareceram.

Não morreram.

Desapareceram.

Seus familiares continuavam ouvindo suas vozes dentro das paredes.

Foi assim que começou a Era da Fome.

Mas Elias sempre dizia que aquele não havia sido o verdadeiro fim.

O verdadeiro fim veio depois.

Quando o sol desapareceu.

Nara levantou a mão.

— Como pode o sol desaparecer?

Elias a encarou.

— Ele não desapareceu.

— Então onde está?

— Atrás de alguma coisa.

— De quê?

O velho aproximou as mãos da fogueira.

— Ninguém sabe.

Nara estreitou os olhos.

— Você sabe.

Elias sorriu.

— Eu sei o que me contaram.

— E quem contou para você?

— Minha mãe.

— E quem contou para ela?

— Minha avó.

— E quem contou para sua avó?

Elias ficou em silêncio.

As pessoas ao redor da fogueira riram baixinho.

Nara cruzou os braços.

— Você não sabe.

O velho demorou alguns segundos antes de responder.

— Não.

— Então por que conta?

Elias olhou para a escuridão.

— Porque alguém precisa continuar contando.

Dizem que, depois que o sol desapareceu, surgiu uma mulher chamada Maera.

Ela apareceu no meio de uma cidade destruída.

Ninguém viu de onde veio.

Não tinha família.

Não tinha passado.

Não carregava comida.

Não carregava armas.

Usava apenas um vestido branco.

Na testa havia uma pequena marca circular.

As pessoas tentaram expulsá-la.

Naquela época, qualquer desconhecido era considerado uma ameaça.

Maera não foi embora.

Caminhou até o centro da cidade, ajoelhou-se sobre os escombros e colocou a mão no chão.

Então disse:

— Ainda há luz.

Ninguém acreditou.

Até que uma pequena flor nasceu entre as pedras.

Era azul.

A primeira flor que surgia em décadas.

Maera arrancou a flor.

Entregou-a ao homem que apontava uma arma para sua cabeça.

— Plante.

Ele riu.

Mas plantou.

Naquele mesmo dia, alguma coisa aconteceu.

A água voltou a correr nos canos.

Os poços subterrâneos ficaram cheios.

As plantações começaram a crescer.

Os animais deixaram de atacar os humanos.

Durante três dias, o céu ficou claro.

Não havia sol.

Mas havia luz.

Maera então reuniu os sobreviventes.

Disse que construiria uma cidade.

Não uma cidade como as antigas.

Uma cidade sem reis.

Sem exércitos.

Sem religiões.

Sem fronteiras.

Uma cidade onde ninguém teria mais do que precisava.

Chamou-a de Lúmen.

E as pessoas foram.

Lúmen levou cinquenta anos para ser construída.

Pedra sobre pedra.

Muro sobre muro.

Casa sobre casa.

No centro da cidade, Maera ergueu uma torre.

Era branca.

Tão branca que parecia emitir luz durante a noite.

No alto havia um sino.

Um sino negro.

Maera ordenou que ninguém jamais o tocasse.

— Por quê? — perguntaram.

Ela respondeu:

— Porque um dia ele precisará tocar sozinho.

As pessoas acharam estranho.

Mas obedeceram.

Durante os primeiros anos, Lúmen foi maravilhosa.

As pessoas plantavam juntas.

Comiam juntas.

Criavam os filhos juntas.

Não havia dinheiro.

Não havia propriedades.

Cada pessoa recebia aquilo de que precisava.

Os médicos trabalhavam porque eram médicos.

Os agricultores trabalhavam porque sabiam cultivar.

Os construtores trabalhavam porque sabiam construir.

E quando alguém perguntava quem governava, Maera respondia:

— Ninguém.

Ela dizia que o poder havia sido a primeira doença do mundo antigo.

Por isso, não queria governantes.

Queria guardiões.

Sete pessoas escolhidas pela população.

Cada uma responsável por uma parte da cidade.

A comida.
A água.
A saúde.
As construções.
A memória.
A segurança.
E o conhecimento.

Durante quase cem anos, Lúmen prosperou.

Então aconteceu algo que ninguém esperava.

As pessoas começaram a esquecer.

Primeiro foram coisas pequenas.

Um homem esqueceu o rosto da própria esposa.

Uma mulher esqueceu como cantar.

Uma criança esqueceu o nome da mãe.

Depois vieram coisas maiores.

As pessoas começaram a esquecer guerras.

Esqueceram a Grande Escuridão.

Esqueceram os monstros.

Esqueceram os mortos.

E, finalmente, esqueceram que um dia o mundo havia sido diferente.

A princípio, todos ficaram felizes.

Não havia mais pesadelos.

Não havia mais medo.

Não havia mais lembranças ruins.

Lúmen tornou-se ainda mais pacífica.

Só Maera não parecia feliz.

Ela começou a passar cada vez mais tempo dentro da torre.

Até que, certa manhã, desapareceu.

Deixou apenas uma mensagem gravada na pedra:

"A paz sem memória é apenas outra forma de prisão."

— Ela morreu? — perguntou Nara.

— Não.

— Como sabe?

— Porque Maera não podia morrer.

— Todo mundo morre.

— Ela não.

— Por quê?

Elias olhou para ela.

— Porque ela não era humana.

O riso ao redor da fogueira desapareceu.

O vento também.

— Então o que ela era? — perguntou alguém.

Elias demorou a responder.

— A primeira coisa que atravessou a porta.

Naquele instante, todos ouviram um som.

Um sino.

Uma única badalada.

Grave.

Distante.

O grupo inteiro congelou.

Ninguém precisou perguntar de onde vinha.

Lúmen ficava a três dias de caminhada.

Não poderia estar tão perto.

Ainda assim, o som parecia ter vindo de dentro do peito de cada pessoa.

Nara começou a chorar.

— Elias...

O velho levantou.

— Apaguem o fogo.

— Mas...

— Agora.

Todos obedeceram.

A escuridão engoliu o acampamento.

Então veio a segunda badalada.

Mais forte.

O chão tremeu.

Uma pedra rolou pela encosta.

As montanhas ao longe se iluminaram por trás das nuvens.

A terceira badalada veio acompanhada de uma voz.

Não vinha de lugar algum.

Não vinha do céu.

Não vinha da terra.

Estava dentro deles.

"Vocês se lembraram."

Elias fechou os olhos.

— Não...

A voz continuou:

"Vocês finalmente se lembraram."

Nara segurou a mão do velho.

— Do quê?

Elias não respondeu.

Porque, naquele instante, ele se lembrou.

Não da história que sua mãe havia contado.

Não da cidade.

Não de Maera.

Lembrou-se de si mesmo.

Lembrou-se de Lúmen.

Lembrou-se de estar dentro da torre.

Lembrou-se de Maera colocando a mão sobre sua cabeça.

E lembrou-se da verdade.

Ele não havia nascido antes da Grande Escuridão.

Havia nascido em Lúmen.

Cento e vinte e seis anos antes.

Ele era um dos sete guardiões.

O guardião da memória.

E havia sido ele quem apagou as lembranças do mundo.

— Eu sinto muito.

Sua voz saiu quebrada.

Ninguém entendeu.

— O que você fez? — perguntou Nara.

Elias olhou para ela.

— Eu salvei vocês.

— De quê?

— Da verdade.

A menina soltou sua mão.

— Que verdade?

Elias respirou profundamente.

— O sol não desapareceu.

Ninguém se mexeu.

— O céu não ficou vermelho por acidente. Os oceanos não recuaram. As criaturas não nasceram deformadas.

Ele apontou para o céu.

— Tudo isso foi feito por nós.

Uma mulher balançou a cabeça.

— Quem é "nós"?

— Lúmen.

Elias continuou:

— Maera descobriu o que existia atrás da porta. A Coroa não era uma máquina.

Ele fez uma pausa.

— Era uma prisão.

— Prisão de quê?

Elias olhou para o céu.

— De algo que estava aqui antes dos deuses.

A frase pareceu alterar o ar.

— Antes dos deuses?

— Sim.

— E o que era?

Elias fechou os olhos.

— Não existe palavra para isso.

— Então como chama?

— Chamamos de Deus.

Um homem deu um passo para trás.

— Mas você acabou de dizer que estava aqui antes dos deuses.

— Exatamente.

Elias encarou a escuridão.

— Nós inventamos nomes para aquilo que não conseguimos compreender.

O velho contou que, quando a porta foi aberta, não libertaram uma criatura.

Libertaram uma consciência.

Algo tão antigo que a existência humana era, para ela, menos que um instante.

Ela não queria dominar o mundo.

Não queria destruí-lo.

Não queria sequer viver nele.

Ela queria ser lembrada.

E isso era pior.

Porque a memória humana lhe dava forma.

Cada pessoa que se lembrava dela tornava sua existência mais definida.

Cada história contada lhe dava um rosto.

Cada oração lhe dava uma voz.

Cada pesadelo lhe dava um corpo.

A humanidade alimentava aquilo sem perceber.

Até que Maera descobriu uma maneira de prendê-la novamente.

Mas o preço era terrível.

Era necessário retirar do mundo toda memória ligada à criatura.

Não apenas os acontecimentos.

As associações.

Os nomes.

Os sonhos.

As histórias.

Tudo.

Maera criou Lúmen para isso.

Uma cidade construída não apenas para abrigar sobreviventes, mas para apagar a humanidade.

Livros antigos foram queimados.

Fotografias destruídas.

Nomes esquecidos.

Crianças receberam novas identidades.

Histórias proibidas.

Até mesmo as lembranças dos próprios mortos foram lentamente retiradas.

Elias foi escolhido para guardar aquilo que todos deveriam esquecer.

Ele seria o último homem a lembrar.

Mas havia uma condição.

Ele também deveria esquecer que lembrava.

Por mais de um século, Elias caminhou pelo mundo contando uma mentira.

A história de um reino perdido.

A história de uma mulher chamada Maera.

A história de um povo que sobreviveu.

Porque precisava manter uma pequena parte da memória viva.

O suficiente para que os humanos continuassem humanos.

Mas não o bastante para acordar aquilo que dormia.

Até aquela noite.

Até o sino.

— Então por que contou para nós? — perguntou Nara.

Elias olhou para ela.

— Porque eu estava errado.

— Sobre o quê?

— Sobre o que significa esquecer.

Ele tocou o próprio peito.

— Pensei que esquecer a dor nos salvaria dela.

Nara ficou em silêncio.

— E não salvou?

— Não.

Elias olhou para os rostos ao redor.

— Só nos tornou incapazes de reconhecer quando a dor voltou.

A terra começou a rachar.

Uma linha negra atravessou a planície.

Depois outra.

E outra.

Os sobreviventes começaram a correr.

Ao longe, uma luz branca apareceu.

Lúmen.

A cidade estava iluminada.

Mas não pelas lâmpadas.

Pela própria torre.

O sino tocava sozinho.

Uma vez.

Duas.

Três.

Quatro.

A cada badalada, alguma coisa surgia no horizonte.

Torres.

Muralhas.

Estradas.

Casas.

Uma cidade inteira estava sendo reconstruída sobre as ruínas do mundo.

E, no alto da torre, havia alguém.

Maera.

Ela parecia exatamente como nas histórias.

Vestido branco.

Cabelos negros.

A marca circular na testa.

Mas havia algo diferente.

Seus olhos eram completamente negros.

Nara segurou o braço de Elias.

— Ela é a criatura?

— Não.

— Então quem é?

Elias respondeu:

— A porta.

Maera abriu os braços.

O céu se abriu.

Não como uma tempestade.

Como uma ferida.

Do outro lado não havia estrelas.

Não havia espaço.

Havia um olho.

Um olho gigantesco observando o mundo.

Elias caiu de joelhos.

— Não...

Nara olhou para cima.

— O que fazemos?

O velho ficou em silêncio.

Durante toda sua longa existência, aquela pergunta havia sido seu maior medo.

Porque conhecia a resposta.

— Corremos.

— Para onde?

Elias olhou para Lúmen.

Depois para o céu.

Depois para a menina.

— Para a memória.

Eles correram.

Não para longe.

Para dentro da cidade.

As ruas de Lúmen estavam vazias.

Casas perfeitas.

Mesas postas.

Portas abertas.

Fotografias sem rostos.

Livros com páginas em branco.

Em cada parede havia a mesma frase:

"NÃO SE LEMBRE."

Nara parou.

— Por que isso está escrito em todo lugar?

— Porque foi assim que mantivemos a criatura adormecida.

— Então estamos condenados.

Elias parou diante da torre.

— Não.

— Você disse que ela está acordada.

— Está.

— Então como vamos vencê-la?

O velho sorriu.

— Não vamos.

Nara o encarou.

— O quê?

— Vamos fazer algo pior.

Entraram na torre.

A escada espiral parecia não ter fim.

Cinquenta degraus.

Cem.

Duzentos.

Quinhentos.

As paredes começaram a murmurar.

Primeiro palavras.

Depois nomes.

Depois gritos.

Elias não parou.

— Não escute — disse.

— O que são essas vozes?

— Memórias.

— De quem?

— De todos.

Quando finalmente chegaram ao topo, Nara viu o sino.

Era enorme.

Negro.

Coberto de símbolos que pareciam mudar quando ela tentava compreendê-los.

— O sino não era para avisar quando a criatura acordasse — disse Elias.

— Então para quê?

O velho caminhou até ele.

— Para chamá-la.

— Por quê?

Elias segurou a corda.

— Porque Maera sabia que um dia precisaríamos fazer isso.

— Fazer o quê?

Elias olhou para Nara.

— Lembrar de tudo.

Ele puxou.

O sino tocou.

O som atravessou o mundo.

Todas as pessoas que ainda viviam ouviram.

Todas as criaturas ouviram.

Todos os mortos ouviram.

E, pela primeira vez em séculos, a humanidade lembrou.

Lembrou das guerras.

Das cidades.

Dos filhos.

Dos mortos.

Das mentiras.

Dos amores.

Das traições.

Da fome.

Da chuva.

Do cheiro do pão.

Do som das máquinas.

Da música.

Da primeira palavra de uma criança.

Do último abraço antes da morte.

Do sol.

De tudo.

E quanto mais as pessoas lembravam, mais a criatura crescia.

Seu olho ocupou o céu.

Seu corpo tornou-se maior que as montanhas.

Sua sombra cobriu continentes.

Mas algo inesperado aconteceu.

Ela começou a gritar.

Não era um grito de dor.

Era um grito de confusão.

Porque não conseguia suportar aquilo.

Memórias demais.

Vidas demais.

Histórias demais.

A criatura havia sido alimentada por uma única coisa durante toda a sua existência:

o esquecimento.

Ela precisava de um mundo vazio.

E agora o mundo estava cheio novamente.

Cheio de nomes.

Cheio de histórias.

Cheio de culpa.

Cheio de amor.

Cheio de dor.

Cheio de pessoas.

Elias segurou a mão de Nara.

— Está funcionando.

A menina olhou para o céu.

— Ela está morrendo?

— Não.

— Então o que está acontecendo?

Elias sorriu.

— Ela está aprendendo o que é ser humana.

A criatura caiu.

O céu tremeu.

As montanhas se partiram.

O mar voltou.

E então, pela primeira vez em centenas de anos, uma pequena faixa dourada apareceu no horizonte.

O sol.

Não era forte.

Não era quente.

Era apenas uma linha de luz.

Mas estava lá.

As pessoas saíram das casas.

Milhares.

Milhões.

Algumas riam.

Outras choravam.

Muitas simplesmente ficaram olhando.

Nara foi uma delas.

— É bonito.

Elias assentiu.

— É.

— Você se lembrava disso?

O velho demorou a responder.

— Não.

Ela o encarou.

— Mas você disse que lembrava.

Elias sorriu.

— Eu lembrava de muita coisa.

Olhou para o horizonte.

— Mas não disso.

O sol nasceu.

Devagar.

Como se também tivesse medo.

Anos depois, as pessoas reconstruíram o mundo.

Não foi fácil.

Nunca é.

Houve guerras.

Fome.

Doenças.

Pessoas que tentaram tomar o poder.

Houve reis.

Houve revoltas.

Houve cidades destruídas novamente.

A humanidade repetiu muitos dos erros antigos.

Mas havia uma diferença.

As pessoas lembravam.

E lembrar não impedia a crueldade.

Não impedia a guerra.

Não impedia a perda.

Mas impedia que alguém dissesse que aquilo nunca havia acontecido.

Elias morreu alguns anos depois do primeiro amanhecer.

Encontraram-no sentado diante da antiga torre.

Nas mãos, segurava uma pequena flor azul.

Nara, já adulta, encontrou-o ali.

Sobre os joelhos havia um livro.

Ela abriu.

Todas as páginas estavam vazias.

Exceto a última.

Nela havia apenas uma frase:

"Não conte uma história porque ela é bonita. Conte porque alguém precisa lembrar."

Nara guardou o livro.

E passou o resto da vida contando.

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