Crítica | A Ilha Esquecida - É um misto de encanto e riqueza cultural, que inova e mostra que novas histórias e culturas precisam ser mostradas e merecem ganhar espaço nas telas de cinema.

Divulgação | Universal Pictures

• Por Alisson Santos 

A mais nova aposta da DreamWorks, A Ilha Esquecida, mostra-se um projeto ousado, cheio de atitude e com uma mensagem forte, que se estabelece de maneira muito clara. Contando com grandes nomes em sua dublagem, como Dave Franco e Manny Jacinto, a animação rompe uma grande barreira ao abordar, em sua narrativa, elementos da cultura e da mitologia filipina, seja através de termos ou de representações diretas.

No cenário atual, muitas animações apostam no emocional, girando em torno de uma atmosfera que já é comum. Pouco se vê de inovação no quesito cultural, ainda que essa receita já tenha se mostrado lucrativa. Os estúdios parecem deter um certo medo de se aventurar por diferentes mitologias, principalmente quando falamos da cultura asiática, mas A Ilha Esquecida rompe essa barreira invisível e entrega uma das melhores surpresas no nicho das animações.

A obra gira em torno das protagonistas Jo e Raissa, duas garotas que, na infância, encontraram amparo e compreensão uma na outra, através de suas estranhezas e cumplicidade. Durante o crescimento das personagens, acompanhamos cada ponto marcante dos anos dessa amizade, que se fortalecia enquanto suas personalidades eram moldadas, fazendo com que o clichê acabasse se tornando um recurso que dá sentido à abordagem da obra.

Jo é impulsiva e inconsequente, uma verdadeira rebelde pronta para mostrar sua marca ao mundo, enquanto Raissa é a mente pensante que faz tudo acontecer, mas que ainda assim hesita diante da loucura antes de sucumbir a ela e reflete sobre suas ações. Ambas funcionam como um ponto de equilíbrio uma para a outra, e a sinergia dessa amizade se reflete no espectador, que encontra semelhanças em suas próprias amizades.

Apenas personalidade e uma ideia de amizade inseparável não seriam a receita ideal, mas o conjunto como um todo enriquece a história, principalmente quando percebemos que a união dessas duas personagens se forja justamente por uma questão cultural. As histórias da avó de Jo foram o que as uniu, e o fato de acreditarem naqueles contos que dão sentido às suas vidas acaba por se tornar algo muito bonito.

Histórias de diferentes povos se perdem no processo de colonização, mas o filme nos mostra que, mesmo com quadros, estátuas e até mesmo templos perdidos e destruídos pelo tempo, nada pode fazer frente ao poder da oralidade. Histórias que seguem vivas através da fala, de pai para filho, de avó para neto, e que continuam em um ciclo que se renova. Mostrar um pouco dessa realidade acaba por reforçar o quão importante é esse processo e, por consequência, sustenta o recurso narrativo do filme.

Apesar de ser uma animação cheia de cores e muito trabalhada em elementos da comédia, buscando o encanto do público, o filme aborda questões sobre o luto e o abandono familiar, além das projeções e da pressão familiar em relação aos estudos. Isso acaba sendo tocante, ainda que o foco não seja dedicado a um tema específico, mas à somatória deles como um todo.

Divulgação | Universal Pictures

Observar a mudança na dinâmica de Jo e Raissa conforme chegam à fase adulta reflete muito do que vivemos, pois trabalhar ou escolher uma faculdade gera diferentes tipos de pressão e, no fim, ouvimos que algumas amizades simplesmente acabam por conta das mudanças da vida adulta. E justamente vemos que as protagonistas têm medo dessa mudança, ainda que Raissa seja a primeira a assumir as rédeas e arriscar-se a tentar voar, mesmo que isso signifique deixar sua amiga para trás.

A narrativa se constrói mesclando o riso à dor de se desapegar, de não estar pronto para o mundo lá fora, de blindar a si mesmo e aceitar a estagnação por ser mais confortável. Tudo isso para preservar a estabilidade do que foi construído, viver de memórias que moldaram toda essa trajetória e caminhar por uma jornada árdua, entendendo que voar não significa abandonar ou se esquecer do que te trouxe, mas aceitar que aquilo serviu como um impulso para o primeiro salto.

Trabalhar tantas camadas de uma maneira tão cuidadosa acaba por ser um acerto especial. Joel Crawford e Januel P. Mercado entregam um roteiro e uma direção ricos, focando não apenas em uma animação legal, mas em uma mensagem forte e, ainda assim, natural e fluida para seu público.

Mesmo com pontos positivos enormes a seu favor, A Ilha Esquecida não é um filme perfeito, pois deixa algumas brechas e pontas soltas na história e na animação como um todo. Graças ao impacto estrondoso de Aranhaverso e ao seu traço genuíno de animação, a obra bebe da mesma fonte ao apostar em um estilo semelhante, mas mesclando muitas cenas com elementos do 2D, como anime, e outros estilos de animação. Porém, alguns personagens acabam destoando do modelo predominante de animação, o que me causou uma certa estranheza, como se estivesse assistindo a outro filme. Ainda assim, não chega a ser um incômodo quando nos acostumamos com a proposta.

Outro ponto que acaba por incomodar é a falta de aprofundamento da antagonista do filme, pois é aberta uma margem para sabermos mais sobre sua história e as motivações que a transformaram, mas isso não é revelado. Isso acaba por se tornar um problema, pois é dito o motivo de ela ser tão temida e perigosa, como uma máquina de rancor, mas não é aprofundado como ela chegou a esse ponto, o que lhe foi tomado para causar uma mudança tão drástica — algo que, por sinal, é questionado pelas protagonistas. No entanto, essa abertura pode ser bem aproveitada em um segundo filme, trazendo novos enredos para um mundo tão rico, embora isso não elimine a sensação de que faltou desenvolvimento nessa parte da história.

A Ilha Esquecida é mais do que uma história de amizade; é sobre crescer e desbravar o mundo, reconhecer a si mesmo e as pessoas que te elevam. É um misto de encanto e riqueza cultural, que inova e mostra que novas histórias e culturas precisam ser mostradas e merecem ganhar espaço nas telas de cinema. Acima de tudo, A Ilha Esquecida é sobre voar, sem medo de cair.

O longa terá sessões antecipadas na Semana do Cinema, que acontece até dia 16 de setembro. O público de todo o Brasil poderá assistir ao filme antes da estreia oficial, em 24 de setembro, por apenas R$ 10 (sessões antes das 17h) e R$ 12 (demais horários). 

Avaliação - 8/10

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