(MOSTRA SP) Crítica | O Homem Mais Solitário da Cidade - Um retrato humano e inspirador sobre aquilo que levamos conosco quando tudo ao redor começa a desaparecer.

Divulgação | Autoral Filmes

• Por Alisson Santos 

O Homem Mais Solitário da Cidade, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, parte da história do músico austríaco Al Cook para construir um retrato melancólico sobre a solidão, a passagem do tempo e a dificuldade de encontrar um lugar em um mundo que já não parece reconhecer a própria existência. Vivendo em um apartamento repleto de discos, fotografias, fitas e lembranças, Al mantém uma relação quase inseparável com o passado. Quando descobre que seu prédio será demolido, a ameaça de perder a própria casa se transforma também na possibilidade de perder tudo aquilo que sustenta sua identidade.

O grande mérito do filme está em compreender que a memória não existe apenas nas histórias que contamos, mas também nos objetos que escolhemos preservar. Covi e Frimmel observam o protagonista com uma câmera paciente, interessada nos pequenos gestos, nos espaços vazios e nos detalhes de uma rotina que parece ter ficado presa em outra época. A direção evita transformar a experiência de Al em um drama sentimental convencional e encontra nas imagens uma maneira mais delicada de expressar aquilo que as palavras dificilmente alcançariam. A presença do blues também ultrapassa a dimensão musical e se torna uma extensão da personalidade do protagonista, um homem que encontrou na música uma forma de pertencer a um universo distante daquele em que nasceu.

Existe, porém, uma contradição interessante na maneira como Al se relaciona com o mundo. Sua fidelidade às próprias paixões é admirável, mas também revela alguém que parece incapaz de abandonar a segurança de uma vida construída sobre lembranças. O filme não precisa julgar essa postura, pois sua força está justamente em permitir que o espectador reconheça tanto a beleza quanto as limitações dessa resistência. Há humor em situações cotidianas e nos encontros com personagens excêntricos, mas a leveza nunca elimina a sensação de que algo está desaparecendo diante dos nossos olhos.

Divulgação | Autoral Filmes

Ao acompanhar o esvaziamento do apartamento, O Homem Mais Solitário da Cidade encontra sua imagem mais poderosa. Cada objeto retirado modifica não apenas o espaço físico, mas também a maneira como o protagonista se relaciona com a própria história. A demolição deixa de ser somente uma questão imobiliária e passa a representar o apagamento de um modo de vida que não encontra espaço na lógica de uma cidade em transformação. Ainda assim, Tizza Covi e Rainer Frimmel não reduzem Al a uma vítima das circunstâncias. Existe nele uma inquietação que sobrevive à perda e sugere a possibilidade de recomeçar, mesmo quando o futuro parece improvável.

Mais do que um filme sobre um homem solitário, esta é uma obra sobre o sentimento de estar deslocado do próprio tempo. Sua narrativa contemplativa pode parecer excessivamente lenta para quem espera conflitos mais evidentes, mas essa escolha combina com a experiência de um personagem que vive entre recordações e sonhos adiados. O resultado é um retrato humano e inspirador sobre aquilo que levamos conosco quando tudo ao redor começa a desaparecer. No fim, o filme deixa uma pergunta que permanece muito depois da última imagem. Quando o mundo que construímos deixa de existir, o que ainda resta de nós?

O Homem Mais Solitário da Cidade vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 8/10

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