(MOSTRA SP) Crítica | Deriva de Verão - Reivindica algo simples e necessário, o direito de existir para além das feridas provocadas pelo preconceito.
| Divulgação | MoreThan Films |
• Por Alisson Santos
Em Deriva de Verão, Céline Carridroit e Aline Suter encontram na imprevisibilidade da vida uma forma de desafiar convenções sociais e cinematográficas. A trama acompanha Johanna, interpretada por Johanna Schopfer, uma trabalhadora de uma fábrica de relógios de luxo em Genebra que decide recuperar seu velho Volkswagen Fusca e voltar ao universo das corridas automobilísticas, mesmo depois de ter sido afastada desse ambiente pela transfobia. A partir dessa premissa, o longa constrói um retrato que escapa às representações mais convencionais de personagens trans no cinema, recusando a ideia de que suas experiências precisam estar permanentemente subordinadas à dor, à rejeição ou à necessidade de provar a própria identidade. Johanna é uma figura excêntrica, espirituosa e obstinada, cuja personalidade se manifesta tanto na relação com os automóveis quanto nas amizades e nas pequenas decisões que dão forma aos seus dias. Sua trajetória não ignora as marcas deixadas pelo preconceito, mas encontra espaço para o humor, o prazer e a possibilidade de recomeçar.
A escolha da docuficção permite que as diretoras explorem as fronteiras entre realidade e invenção sem transformar a narrativa em um retrato excessivamente explicativo. A presença de Schopfer, que interpreta uma versão de si mesma, confere ao filme uma espontaneidade particular, enquanto os registros em película de 16 mm reforçam a textura artesanal de uma obra interessada em personagens e espaços que raramente ocupam o centro do imaginário cinematográfico. A oficina mecânica, os terrenos industriais e os encontros casuais compõem um universo em que a liberdade não surge como uma conquista definitiva, mas como uma prática cotidiana, feita de escolhas imperfeitas e desvios inesperados.
| Divulgação | MoreThan Films |
Existe certa irregularidade no desenvolvimento da narrativa, que por vezes parece preferir a sucessão de episódios à construção de um percurso dramático mais consistente. Ainda assim, essa estrutura dispersa também dialoga com a personalidade da protagonista e com a recusa em organizar a vida segundo expectativas alheias. Ao colocar uma mulher trans no centro de uma aventura que combina motores, amizade e desejo de pertencimento, Deriva de Verão reivindica algo simples e necessário, o direito de existir para além das feridas provocadas pelo preconceito. Carridroit e Suter não fazem da identidade de Johanna uma lição a ser transmitida ao espectador, mas parte de uma existência cheia de contradições, humor e possibilidades. É nessa liberdade de olhar para sua personagem como uma pessoa inteira, e não como um símbolo, que o filme encontra sua personalidade mais marcante.
Deriva de Verão vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 7/10
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