(MOSTRA SP) Crítica | O Outro Lado do Sol - Transforma a memória da violência em um poderoso gesto de resistência.

Divulgação | Andana Films

• Por Alisson Santos 

Em O Outro Lado do Sol, documentário de Tawfik Sabouni, o cinema se transforma em uma ferramenta de reconstrução da memória e recuperação da humanidade diante de um dos capítulos mais brutais da história recente da Síria. Após a queda do regime de Bashar al-Assad, o cineasta retorna à prisão de Saidnaya, onde esteve detido, acompanhado de outros quatro sobreviventes. O reencontro com esse espaço não representa apenas uma tentativa de revisitar o passado, mas uma maneira de confrontar as marcas deixadas por um sistema que procurou destruir identidades, silenciar vozes e apagar existências. Sabouni parte de uma experiência profundamente pessoal para construir um retrato coletivo do trauma, reconhecendo que determinadas feridas não desaparecem simplesmente porque as portas de uma prisão foram abertas.

A escolha de retornar ao próprio local de encarceramento confere ao filme uma dimensão que ultrapassa o registro histórico. Em vez de recorrer exclusivamente a entrevistas convencionais ou a imagens explícitas de violência, Sabouni aposta na reconstituição de gestos, movimentos e rotinas vivenciados pelos prisioneiros. Os sobreviventes percorrem corredores, ocupam celas e reproduzem comportamentos que precisaram desenvolver para continuar vivos. Seus corpos carregam lembranças que nem sempre podem ser organizadas em palavras, revelando como a violência permanece inscrita na postura, nos movimentos e na maneira de perceber o mundo. A encenação, nesse contexto, não funciona como uma tentativa de dramatizar artificialmente o sofrimento, mas como um recurso para tornar visível aquilo que a memória verbal não consegue expressar por completo.

Sabouni compreende que não precisa intensificar visualmente o horror para demonstrar sua dimensão. O vazio das celas, a austeridade dos ambientes e a presença dos sobreviventes diante de lugares que testemunharam sua desumanização são suficientes para produzir um desconforto persistente. A prisão deixa de ser apenas um cenário e passa a funcionar como uma presença que condiciona cada movimento, como se as paredes ainda preservassem a lógica de opressão que existia ali. A direção encontra nesse espaço uma memória material que resiste ao esquecimento e confronta o espectador com a dimensão concreta da violência institucional.

Ao mesmo tempo, O Outro Lado do Sol não reduz seus personagens à condição de vítimas. Entre as recordações dolorosas, surgem manifestações de afeto, companheirismo e pequenos momentos de leveza que revelam a persistência da humanidade mesmo em circunstâncias extremas. A relação entre os cinco homens é fundamental para que o documentário encontre uma dimensão emocional que não depende exclusivamente da denúncia. Existe uma irmandade construída pela experiência compartilhada, mas também a possibilidade de recuperar aspectos da vida que o encarceramento tentou apagar. Quando o filme permite que essas pessoas sejam vistas para além do sofrimento, reafirma que a identidade de alguém nunca deveria ser reduzida à violência que sofreu.

Divulgação | Andana Films

A abordagem de Sabouni também evidencia os limites da própria memória. Reencenar uma experiência não significa recuperá-la integralmente, tampouco significa superar o trauma. O passado permanece fragmentado, atravessado por ausências e sentimentos que não encontram resolução simples. Essa característica impede que o documentário se transforme em uma narrativa convencional de superação, na qual o retorno ao local da tragédia produziria uma espécie de encerramento definitivo. Ao contrário, o reencontro com Saidnaya demonstra que a libertação física não elimina automaticamente as consequências psicológicas e emocionais do cativeiro. 

A dimensão política do filme se fortalece justamente por meio dessa intimidade. Ao devolver a palavra e a presença àqueles que foram silenciados, Sabouni constrói um testemunho contra o apagamento histórico e lembra que as vítimas de um regime repressivo não podem ser compreendidas apenas por estatísticas ou registros oficiais. Cada gesto recuperado representa uma tentativa de preservar aquilo que a violência procurou eliminar. Ainda assim, a obra não se limita a olhar para os homens que conseguiram sobreviver. A memória dos desaparecidos permanece como uma ausência incontornável, lembrando que existem histórias que talvez nunca possam ser reconstruídas integralmente e famílias que continuam sem respostas.

Formalmente, a sobriedade da direção é uma de suas maiores virtudes. O filme confia na duração dos planos, na materialidade dos espaços e na expressividade dos corpos, permitindo que o espectador observe sem que cada imagem precise ser acompanhada por explicações excessivas. Essa contenção exige disponibilidade e atenção, mas encontra sentido na própria natureza do tema. Em determinados momentos, a repetição dos gestos e a permanência nos ambientes podem tornar a experiência deliberadamente exaustiva, como se a estrutura do documentário procurasse transmitir algo da repetição sufocante da vida sob encarceramento. O ritmo não busca facilitar o consumo do sofrimento, mas criar condições para que ele seja percebido sem a mediação de um espetáculo sensacionalista.

No fim, O Outro Lado do Sol se estabelece como um documentário de enorme importância humana e política, capaz de transformar o testemunho individual em uma reflexão sobre memória, impunidade e dignidade. Tawfik Sabouni não tenta organizar o sofrimento em uma trajetória de redenção. Sua realização encontra força na disposição de permanecer diante das marcas deixadas pela violência e de reconhecer a existência daqueles que sobreviveram sem esquecer os que não puderam voltar. É um filme doloroso, por vezes sufocante, mas necessário, que reafirma o cinema como espaço de resistência ao esquecimento e como possibilidade de devolver humanidade a quem teve essa condição sistematicamente negada.

O Outro Lado do Sol vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 9/10

Comentários