Crítica | A Bola Preta - A maior tragédia de "A Bola Preta" não está apenas nos amores impossíveis, mas nas vidas condenadas à incompletude para preservar a falsa moralidade de uma sociedade.
| Divulgação | Paris Filmes |
• Por Alisson Santos
Uma pequena esfera preta pode carregar uma violência tão devastadora quanto uma arma. Em A Bola Preta, Javier Calvo e Javier Ambrossi encontram nesse objeto aparentemente insignificante uma representação precisa dos mecanismos de exclusão que atravessaram a história espanhola. A rejeição de um jovem por sua sexualidade, decidida silenciosamente pelos membros de uma instituição conservadora, estabelece o princípio que orienta todo o filme; existem formas de violência que dispensam o confronto direto, pois já estão incorporadas às estruturas sociais e aos comportamentos coletivos.
Partindo de uma obra inacabada de Federico García Lorca, assassinado em 1936, os cineastas espanhóis conhecidos como Los Javis constroem uma narrativa que atravessa três períodos históricos. Em 1932, Carlos (Milo Quifes) enfrenta o julgamento de uma sociedade incapaz de aceitar sua homossexualidade. Em 1937, durante a Guerra Civil Espanhola, Sebastián (Guitarricadelafuente), um jovem incorporado às forças nacionalistas, desenvolve uma relação com Rafael Rodríguez Rapún (Miguel Bernardeau), soldado republicano mantido como prisioneiro. Décadas depois, em 2017, Alberto (Carlos González) descobre aspectos desconhecidos de sua história familiar, estabelecendo uma ligação entre o presente e aqueles acontecimentos.
A decisão de organizar essas experiências em diferentes temporalidades demonstra uma compreensão interessante da memória como fenômeno coletivo. Afinal, a repressão não termina necessariamente com aqueles que a sofreram. Seus efeitos permanecem nas famílias, nas instituições e, sobretudo, nas histórias que deixam de ser transmitidas. O filme reconhece que a violência contra pessoas LGBTQIA+ não se resume aos episódios explícitos de perseguição, mas também se manifesta na obrigação de esconder afetos, abandonar identidades e renunciar à possibilidade de uma existência plenamente reconhecida.
É justamente na história de Carlos que essa reflexão encontra sua representação mais contundente. O processo de admissão no cassino de Granada, condicionado à aprovação de homens comprometidos com a preservação de seus próprios valores, explicita a perversidade de uma estrutura que confunde respeitabilidade com conformidade. A homossexualidade do protagonista não é tratada apenas como uma característica individual, mas como uma ameaça à ordem estabelecida. O julgamento deixa de considerar suas ações e passa a determinar se sua própria existência merece ser socialmente tolerada.
O segmento ambientado em 1937, por sua vez, concentra a dimensão mais íntima e emocional da narrativa. O encontro entre Sebastián e Rafael estabelece um contraste entre duas experiências atravessadas pelo mesmo conflito histórico, mas posicionadas em lados políticos opostos. A relação desenvolvida entre eles introduz um elemento de contradição que poderia sustentar, por si só, um longa-metragem inteiro. O desejo surge em um ambiente militar organizado em torno da disciplina, da violência e de uma ideia rígida de masculinidade.
Miguel Bernardeau confere a Rafael uma presença especialmente significativa. Sua vulnerabilidade física contrasta com uma convicção política que permanece evidente mesmo diante da possibilidade da morte. Já Guitarricadelafuente interpreta Sebastián com uma fragilidade que evidencia o desconforto de um homem incapaz de conciliar seus sentimentos com o lugar que ocupa naquele conflito. A aproximação dos personagens encontra força justamente naquilo que não pode ser verbalizado, quando gestos, olhares e hesitações comunicam mais do que declarações explícitas.
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Entretanto, existe uma questão que o filme nem sempre desenvolve com a complexidade necessária; a distância moral entre os dois personagens. O fato de Sebastián integrar uma organização militar fascista enquanto Rafael representa a resistência republicana não deveria funcionar somente como um obstáculo dramático ao romance. Trata-se de uma contradição ideológica profunda, cujas consequências ultrapassam a intimidade daquele relacionamento. Em determinados momentos, o melodrama parece suavizar essas diferenças em favor de uma concepção mais universal do amor, enfraquecendo a discussão sobre responsabilidade individual diante da violência política.
Essa dificuldade também aparece na maneira como o filme se aproxima da figura de Federico García Lorca. Sua obra e sua sexualidade constituem elementos fundamentais da narrativa, mas a dimensão política de sua trajetória poderia receber maior atenção. A perseguição ao poeta não pode ser compreendida isoladamente de sua posição no contexto social espanhol e da repressão promovida pelos nacionalistas. Ao privilegiar a homossexualidade como principal eixo de interpretação, o roteiro corre o risco de simplificar uma experiência histórica marcada pela convergência de conflitos políticos, culturais e sociais.
Visualmente, porém, A Bola Preta impressiona pela segurança com que seus diretores articulam diferentes registros cinematográficos. A fotografia de Gris Jordana explora a relação entre os corpos e os espaços, alternando composições de grande amplitude com momentos de proximidade física. Os ambientes luxuosos, os cenários devastados pela guerra e a atmosfera dos espaços de apresentação musical revelam uma produção interessada tanto na reconstrução histórica quanto na expressão simbólica de seus acontecimentos.
Essa exuberância encontra correspondência na encenação dos corpos masculinos, frequentemente apresentados como objetos de desejo, vulnerabilidade e contemplação. Existe uma intenção evidente de recuperar visualmente aquilo que determinadas épocas procuraram apagar; a presença do desejo homoafetivo na experiência histórica. O problema surge quando a beleza dessas composições começa a disputar espaço com o desenvolvimento dramático. Algumas imagens parecem tão interessadas em afirmar sua própria importância que acabam interrompendo a progressão emocional dos personagens.
A participação de Penélope Cruz oferece uma mudança bem-vinda de energia. Sua personagem introduz uma dimensão performática que permite ao filme reconhecer a arte como espaço de experimentação e liberdade. A presença do cabaré, do espetáculo e das identidades construídas sobre o palco amplia a discussão sobre as possibilidades de existir fora dos códigos sociais dominantes. Glenn Close, por outro lado, integra a dimensão contemporânea da narrativa, associada à recuperação e à interpretação do legado de Lorca.
É no segmento de 2017 que as limitações estruturais se tornam mais perceptíveis. Alberto representa a possibilidade de uma geração investigar aquilo que seus antepassados precisaram esconder, uma ideia potente para discutir o silêncio familiar como herança histórica. Entretanto, sua trajetória frequentemente assume uma função excessivamente explicativa, subordinando sua individualidade à necessidade de conectar os acontecimentos anteriores. O personagem parece existir menos por seus próprios conflitos do que pela obrigação de organizar os fragmentos do passado para o espectador.
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Com aproximadamente duas horas e quarenta minutos, o longa também enfrenta dificuldades para administrar suas múltiplas ambições. A alternância entre os períodos históricos nem sempre produz o diálogo emocional que sua estrutura promete. Em vez de permitir que as histórias se iluminem mutuamente, algumas transições acabam fragmentando conflitos que precisariam de maior permanência em cena. O resultado é uma obra que procura alcançar uma grandeza quase monumental, mas por vezes encontra dificuldade para reconhecer a importância dramática de seus momentos mais discretos.
Isso não significa que sua ambição seja equivocada. Pelo contrário, existe algo admirável na recusa de Los Javis em restringir o cinema queer a narrativas pequenas ou necessariamente intimistas. A Bola Preta reivindica o direito de ocupar a dimensão dos grandes épicos históricos, tratando experiências LGBTQIA+ como parte indispensável da memória de um país. Sua importância também reside nessa escolha de escala, especialmente diante de uma tradição cinematográfica que frequentemente relegou tais personagens às margens da história.
Ainda assim, a relevância de uma proposta não elimina a necessidade de examiná-la criticamente. A grandiosidade estética precisa encontrar correspondência na densidade das relações humanas, e nem sempre isso acontece. O filme possui imagens memoráveis, interpretações sensíveis e reflexões importantes, mas também demonstra uma tendência a enfatizar excessivamente seus significados, como se não confiasse inteiramente na capacidade do público de reconhecer as conexões entre desejo, repressão e memória.
O aspecto mais interessante de A Bola Preta talvez esteja justamente em sua origem literária. Ao recuperar uma obra que Federico García Lorca não teve a oportunidade de concluir, Los Javis estabelecem um diálogo com a própria noção de interrupção. Não se trata somente de imaginar o destino de personagens fictícios, mas de reconhecer quantas histórias permaneceram inacabadas porque seus protagonistas foram privados da possibilidade de vivê-las.
Nesse sentido, o filme encontra sua força quando abandona a necessidade de explicar a história e simplesmente permite que seus personagens revelem o peso de tudo aquilo que perderam. Apesar de seus excessos narrativos e de certa irregularidade emocional, permanece uma obra artisticamente ambiciosa e politicamente relevante, capaz de reconhecer na memória uma forma de resistência ao apagamento.
Porque a maior tragédia evocada por A Bola Preta não está apenas nos amores impedidos de acontecer, mas nas inúmeras vidas que precisaram permanecer incompletas para que uma sociedade preservasse a ilusão de sua própria moralidade.
A Bola Preta estreia em 14 de janeiro de 2027 nos cinemas.
Avaliação - 8/10
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