(MOSTRA SP) Crítica | Tudo Pode Ser Visto - O constrangimento nunca foi tão engraçado e a realidade nunca foi tão cruel.
| Divulgação | Sony Pictures |
• Por Alisson Santos
Dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, Tudo Pode Ser Visto parte de uma das histórias mais controversas do universo empresarial recente para construir um documentário que vai muito além da fraude envolvendo a Theranos. Em vez de investigar novamente os mecanismos do golpe que levou Elizabeth Holmes à condenação, o filme acompanha as consequências de suas escolhas e observa o que resta de uma pessoa depois de ter sua imagem completamente consumida pelo julgamento público.
A proposta é especialmente interessante porque não depende de transformar Holmes em uma figura inocente ou injustiçada. Pelo contrário, o documentário preserva a dimensão de suas responsabilidades e evidencia como ela continua incapaz de reconhecer plenamente a gravidade das próprias mentiras. Sua insistência de que a tecnologia da Theranos funcionava, mesmo diante das evidências, cria uma sensação desconfortável que atravessa boa parte da narrativa. O que poderia facilmente se transformar em uma tentativa de reabilitação de sua imagem ganha contornos mais complexos.
Um dos maiores acertos da produção está justamente na escolha de Nathan Fielder como interlocutor. Conhecido pelo humor constrangedor de "Nathan for You" e pela experimentação narrativa de "The Rehearsal", o cineasta utiliza sua personalidade aparentemente indiferente para desmontar as barreiras sociais que normalmente protegem pessoas poderosas durante entrevistas. O humor de Tudo Pode Ser Visto é muito engraçado justamente por trabalhar com esse constrangimento. Nathan Fielder transforma situações aparentemente banais em momentos de humor absurdo, utilizando silêncios prolongados, perguntas inconvenientes e interações socialmente desconfortáveis. O mais interessante é que esse humor nunca parece existir apenas para provocar risadas. Ele também evidencia o absurdo das justificativas de Elizabeth Holmes e as contradições de sua personalidade. Muitas vezes, você ri pela situação, mas logo percebe o quanto ela é desconfortável. É aquele humor de não saber se deve rir, sentir vergonha alheia ou ficar completamente perplexo.
A primeira metade encontra sua força na observação do cotidiano. Ao acompanhar Holmes, seu companheiro Billy Evans e os filhos na preparação para sua entrada na prisão, Fielder constrói uma intimidade desconcertante. Atividades domésticas aparentemente banais passam a carregar um significado diferente quando sabemos o que está prestes a acontecer. Existe uma contradição permanente entre a mulher que insiste em continuar seus projetos empresariais e a mãe que tenta compreender como será sua separação dos filhos. Essa dualidade não apaga seus crimes, mas revela uma dimensão humana que frequentemente desaparece quando alguém se transforma em personagem de um escândalo.
É na segunda metade, entretanto, que o documentário encontra sua identidade mais ousada. Quando o acesso à verdadeira Elizabeth Holmes se torna limitado, a produção começa a brincar com os próprios mecanismos de representação. Hologramas, reproduções feitas por inteligência artificial, imagens de arquivo e até a participação de Amanda Seyfried, que interpretou Holmes na minissérie "The Dropout", passam a integrar uma investigação sobre o que significa conhecer alguém por meio de uma câmera.
| Divulgação | Sony Pictures |
A presença de Seyfried é particularmente incrível. Ao recriar situações que Fielder não conseguiu registrar, o filme atravessa uma fronteira interessante entre documentário e ficção. A atriz não está simplesmente interpretando uma personagem, mas reproduzindo uma pessoa real cuja história continua em andamento. O resultado provoca certo desconforto, especialmente porque a encenação parece competir com a própria realidade. Em determinados momentos, a experiência se aproxima do voyeurismo, levantando questionamentos sobre até que ponto a curiosidade dos realizadores pode justificar a exposição de outra pessoa.
Essa experimentação também encontra algumas limitações. Com quase três horas de duração, o longa ocasionalmente parece prolongar determinadas situações além do necessário. Algumas de suas provocações são tão interessadas na própria artificialidade que acabam tornando a experiência um pouco repetitiva. Ainda assim, essa irregularidade faz parte de uma proposta que deliberadamente desafia as expectativas do espectador e questiona a suposta objetividade do cinema documental.
Visualmente, Lance Oppenheim contribui para essa atmosfera de estranhamento com enquadramentos calculados e uma composição de imagens que frequentemente transforma ambientes domésticos em espaços de observação quase teatral. A proporção de tela 1,33:1 reforça a sensação de confinamento, enquanto a câmera permanece atenta aos gestos, expressões e silêncios dos personagens. É um trabalho que dialoga com a própria natureza da história; todos parecem estar presos a uma imagem que construíram ou que outras pessoas construíram sobre eles.
O título também ganha uma dimensão irônica ao longo da narrativa. Apesar da promessa de que tudo pode ser visto, o documentário demonstra justamente o contrário. A câmera registra acontecimentos, mas não necessariamente revela intenções. As palavras de Holmes podem ser sinceras ou calculadas, suas expressões podem transmitir vulnerabilidade ou funcionar como mecanismos de defesa. Nem mesmo Fielder, com todo o acesso privilegiado que consegue conquistar, parece capaz de alcançar uma verdade definitiva.
E talvez seja essa a grande questão levantada pelo filme; até que ponto é possível compreender alguém cuja identidade foi construída sobre mentiras? A produção não oferece respostas definitivas, tampouco tenta transformar a protagonista em vítima de suas circunstâncias. Existe, porém, uma sequência particularmente devastadora que sintetiza toda a complexidade dessa abordagem; a despedida de Holmes dos filhos antes de sua prisão. Ao mostrar uma mãe prestes a se afastar de crianças ainda muito pequenas, o documentário encontra uma tristeza que não depende de absolvição ou identificação moral.
Tudo Pode Ser Visto é, portanto, um documentário provocador, desconfortável e emocionalmente surpreendente. Nathan Fielder e Lance Oppenheim encontram na história de Elizabeth Holmes uma oportunidade para discutir os limites da representação, a fabricação de identidades e a dificuldade de separar a pessoa pública daquela que existe longe das câmeras. Mesmo quando suas experimentações parecem excessivas, o filme demonstra uma compreensão impressionante das contradições humanas. Não é necessário perdoar Elizabeth Holmes para reconhecer sua humanidade, e essa é justamente a provocação mais poderosa de uma obra que transforma um dos maiores escândalos empresariais recentes em uma reflexão profundamente melancólica sobre as consequências das próprias escolhas.
Tudo Pode Ser Visto foi o filme de encerramento da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 10/10
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